Perda do "triplo A" pode trazer problemas à França

A perda do "triplo A" da França terá consequências que podem vir a refletir-se nos destinos da Europa. A nível económico pode encarecer os custos do financiamento da República Francesa, e ameaça refletir-se no "AAA" atribuído ao fundo europeu de resgate a que recorrem Portugal e outros países. A nível político, representa uma derrota pessoal para Nicholas Sarkozy a exatamente cem dias das eleições presidenciais. Antes mesmo do anúncio formal pela S&P, o Presidente francês convocou os seus principais ministros para uma reunião de emergência.

RTP /
“Se perdermos o 'triplo A' estou morto” tinha dito no outono Nicholas Sarkozy, segundo a imprensa francesa, referindo-se à sua reeleição.

“Se perdermos o 'triplo A' estou morto” terá dito Nicholas Sarkozy no outono, citado pela imprensa francesa e referindo-se às suas hipóteses de reeleição. Algum tempo antes, um dos seus próximos colaboradores, o economista Alain Minc, tinha descrito o rating máximo do país como “um tesouro nacional” cuja conservação era, por isso, uma das prioridades no final do mandato.

Sarkozy, que deve oficializar a sua recandidatura a um segundo mandato no final de fevereiro ou princípio de março, está longe de partir como favorito para a batalha que será travada com o socialista François Hollande, o seu principal opositor.

Desde há várias semanas que Hollande vinha repetindo que, embora não desejasse a degradação da nota francesa, a acontecer, ela seria o sinal “do fracasso” da política económica do seu adversário.

Maioria dos franceses acredita que perda do "triplo A" acarreta "consequencias graves"De acordo com uma sondagem do instituto Ifop, citada pela agência France Press, 66 por cento dos franceses consideram que uma perda do triplo A vai acarretar “consequências graves”

“É um triplo fracasso para Nicholas Sarkozy: Um fracasso da sua política económica, seguida desde há cinco anos, que colocou a França nesta situação (…) fracasso da gestão da crise e fracasso social” declarou sexta –feira o deputado socialista Jean-Marie Le Guen.

Já um membro importante do governo também citado pela AFP declarava que a perda da nota máxima não era impeditiva da reeleição de Sarkozy para a Presidência, “caso contrário”, disse “ isso significaria que são as agencias de “rating” que fazem a eleição”.

França e Alemanha deixam de jogar na mesma ligaA nível externo, a perda do “triplo A” significa que a França já não joga na mesma liga que a Alemanha, que o Presidente francês e o seu governo tinham elegido como o modelo a seguir.

A nível económico, o corte do rating francês era largamente antecipado, já que a S&P tinha alertado em dezembro que este estava iminente. Isto deu tempo os mercados para se habituarem à ideia e aos responsáveis franceses para prepararem a opinião pública, pelo que as consequências poderão não ser catastróficas.

Custos de financiamento da França devem subir
No entanto é de prever que se agravem os custos de financiamento do Estado francês que vai ter de emitir, este ano, 178 mil milhões de euros em obrigações a juros que, a partir de agora, se preveem mais altos.

Segundo aponta o jornal Le Monde, os economistas preveem também que a perda do “triplo A” faça subir o custo dos Credit Default Swaps (CDS), que servem de seguro aos credores contra um eventual incumprimento.

A França passará igualmente a estar excluída das políticas de investimento dos grandes fundos internacionais, que selecionam para os seus clientes apenas as dívidas com garantias mais fortes, ou seja as dos países com “triplo A” . Tal é, por exemplo, o caso dos fundos geridos pelos bancos privados suíços, alérgicos ao risco.

Efeito de cascata
Além disso, o corte da nota da República Francesa vai quase de certeza desencadear um efeito em cadeia que atingirá também os organismos públicos e empresas que dela dependem e que agora deverão também ver baixar os seus “ratings”.

“O triplo A protege a economia da França”, disse ao Le Monde o economista Christian Saint-Etienne “é preciso não minimizar o significado da sua eventual perda”.

A nível europeu, a degradação da nota da França arrisca-se também a ter implicações indiretas no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que assegura o pagamento dos planos de resgate a Portugal, Grécia e Irlanda.

Juros mais altos para os países resgatados ?
Atualmente, o FEEF está cotado com a nota máxima de “triplo A”, em larga medida porque os maiores países que o subscrevem também o estão. Isto permite ao fundo obter dinheiro a juros baixos para depois emprestar aos países resgatados.

Com a perda do “triplo A” francês, a Alemanha passará a ser o único grande país entre os que subescrevem o FEEF, a estar cotado com a nota máxima pelo que o fundo poderá ter mais dificuldade em obter financiamento a um juro aceitável, com as correspondentes consequências que isso terá nos juros pagos pelos países que estão a beneficiar dos empréstimos.





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