Presidente alemão contra revisão "prematura" do programa português

O Presidente alemão deixou este sábado, em Helsínquia, um aviso para reflexos negativos de um eventual reajustamento do pacote de resgate financeiro de Portugal “numa fase demasiado prematura”. Na conferência de imprensa que culminou o encontro de chefes de Estado da União Europeia sem poderes executivos, entre os quais Aníbal Cavaco Silva, Christian Wulff admitiu que “há sempre espaço para adaptação”. Mas fazê-lo “numa fase muito inicial”, sustentou, pode minar a “confiança” dos mercados. O Presidente português fechou o evento como o abordou: o país, repetiu, está “a implementar integralmente o programa”.

RTP /
O “grupo de Arraiolos”, assim denominado por se ter realizado naquela localidade do Alentejo o primeiro encontro, há nove anos, inclui os presidentes de Portugal, Alemanha, Letónia, Finlândia, Itália, Áustria, Polónia, Hungria e Eslovénia Tiago Petinga, Lusa

A assistência financeira, sublinhou o Presidente alemão na capital finlandesa, “depende de certas condições”. E para “exigir a implementação dessas condições” é necessária uma postura “rigorosa”. “Alcançadas as condições atempadamente, podemos ter isso em conta, mas começar numa fase muito inicial a ser flexível quanto às condições estabelecidas, penso que se corre o risco de diminuir o sentimento de confiança nos mercados”, defendeu Christian Wulff, atentamente ouvido pelo homólogo português.

O Chefe de Estado alemão, que comentava o cenário de um reajustamento do programa português a breve trecho, insistiu na tese de que é necessário acautelar fatores como “estabilidade, garantia e previsibilidade”: “Aí podemos chegar a um entendimento, mas não fazê-lo demasiado cedo”.

A posição assumida por Wulff foi um dos ecos de uma conversa informal entre o ministro alemão das Finanças e o homólogo português, em Bruxelas, a propósito de um possível reajustamento do pacote de resgate financeiro do país. As imagens do diálogo foram difundidas na noite de quinta-feira pela TVI. Pouco antes da última reunião extraordinária dos ministros das Finanças da Zona Euro, Wolfgang Schäuble assegurava que o Governo alemão estaria disponível para apoiar um “ajustamento do programa português”, uma vez “tomadas as grandes decisões sobre a Grécia”. Vítor Gaspar agradeceu a disponibilidade.

Em Berlim, o incómodo entre os órgãos de poder foi notório. O próprio Schäuble tratou ontem de frisar que, por agora, não está em cima da mesa qualquer programa adicional, dado que Portugal está a “cumprir com as medidas de austeridade acordadas, como revelam todos os relatórios da troika”. O ministro português das Finanças falara na mesma linha logo após o encontro do Eurogrupo.
“Fazemos o nosso trabalho”
A ideia de que Portugal está a preencher as exigências do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia pautou, de resto, quase todas as intervenções de Cavaco Silva na sua deslocação à Finlândia. Na sexta-feira, o Presidente da República evitou comentar o teor da conversa captada em Bruxelas, preferindo destacar o que considerou ser “uma boa troca de informações” com Berlim.

“A Alemanha está bem informada de que Portugal está a cumprir integralmente o programa que assinou com as instâncias internacionais, de que as avaliações feitas pela troika têm sido positivas”, dizia ontem o Chefe de Estado aos jornalistas.

No cair do pano sobre a reunião do “grupo de Arraiolos”, Cavaco voltou a assinalar que os seus homólogos estão “bem conscientes de que nós estamos a implementar integralmente o programa que negociámos com a União Europeia e o FMI, no que diz respeito à consolidação orçamental, mas também na aprovação e implementação de reformas estruturais fundamentais para melhorar a competitividade da nossa economia”.

“Nós fazemos o nosso trabalho e esperamos que a União Europeia avance na estratégia para o crescimento e o emprego”, frisou ainda Cavaco Silva, que adiantou ter preconizado junto dos demais oito presidentes “a importância do acordo de concertação social que foi aprovado pelas confederações patronais, os sindicatos e o Governo, uma importante contribuição para melhorar o ambiente social enquanto exigimos aos portugueses medidas muito duras”.

Também o Presidente eleito da Finlândia considera que “é muito cedo” para antecipar o apoio do seu país a uma eventual flexibilização do programa português. O conservador Sauli Niinisto, que vai render Tarja Halonen a 1 de março, afirmou que “o Governo português tomou medidas na direção certa”. “Sei que será duro e que continuará a ser no futuro, mas é a forma de resolver os problemas”, declarou.
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