Recessão à vista. "Múltiplas crises" levam a queda de 0,3% do PIB na Alemanha
As estimativas preliminares divulgadas esta segunda-feira pela agência federal alemã de estatística apontam para um recuo de 0,3% por cento do PIB daquela que é a maior economia europeia. A elevada inflação, a subida das taxas de juro, os custos da energia e a menor procura industrial ajudam a explicar este retraimento da economia alemã que poderá estender-se também ao ano de 2024.
“Apesar da recente quebra dos preços, os preços mantiveram-se elevados em todas as fases do processo económico e travaram o crescimento. A economia alemã não continuou a sua recuperação da forte recessão económica que se sentiu no ano pandémico de 2020”, adiantou a responsável esta segunda-feira, numa conferência de imprensa a partir de Berlim.
Das preisbereinigte #Bruttoinlandsprodukt war 2023 nach ersten Berechnungen um 0,3 % niedriger als im Vorjahr. Die Erholung der deutschen Wirtschaft vom tiefen Einbruch im Jahr 2020 setzte sich damit nicht weiter fort. Hier die Pressemitteilung: https://t.co/3i4ywbgqFh #BIP23 pic.twitter.com/ds3HRm9Ju4
— Statistisches Bundesamt (@destatis) January 15, 2024
No último trimestre de 2023, estima-se que o PIB alemão tenha caído 0,3% face ao trimestre anterior, de acordo com a estimativa preliminar. Após correção de variações de calendário e preços, o PIB anual registou uma queda de 0,1%. Um resultado ainda assim melhor do que as previsões do Governo alemão e do FMI, que antecipavam uma queda de 0,4% e 0,5% do PIB, respetivamente, em 2023. Após a quebra de 2020 com a pandemia (menos 3,8 por cento do PIB em relação ao ano anterior), a economia alemã cresceu 3,2 por cento em 2021 e 1,8 por cento em 2022. Ainda assim, a economia alemã estava, em 2023, 0,7% do PIB acima de 2019, ano que precedeu o início da pandemia.
São vários os fatores que ajudam a explicar este recuo da economia alemã. De resto, a Alemanha teve em 2023 o mais fraco desempenho entre as principais economias mais desenvolvidas segundo os cálculos do Fundo Monetário Internacional, destaca o Financial Times.
“As condições recessivas que se arrastam desde o final de 2022 parecem destinadas a continuar este ano”, considerou Andrew Kenningham, economista da consultora Capital Economics, citada pelo Financial Times, prevendo crescimento zero para o PIB alemão em 2024.
“Não há sinais iminentes de uma recuperação e a economia parece estar destinada a atravessar a primeira recessão de dois anos desde o início da década de 2000. Estamos à espera que o atual estado de estagnação e recessão superficiais continuem. Na verdade, o risco de 2024 ser mais um ano de recessão é elevado”, afirmou Carsten Brzeski, especialista de macroeconomia para o banco holandês ING, citado pelo jornal The Guardian.
Os economistas esperam, ainda assim, alguns sinais positivos no ano de 2024, com a queda das taxas de inflação.
“A recente queda da inflação deverá proporcionar algum alívio às famílias, mas o investimento residencial e empresarial deverá contrair-se, a construção está a caminhar para uma desaceleração acentuada e o Governo está a apertar acentuadamente a política fiscal. Prevemos um crescimento zero do PIB em 2024”, adiantou Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da consultora Capital Economics, em declarações ao Guardian.
Estes dados poderão representar um desafio para a economia europeia e Zona Euro, uma vez que a Alemanha é um dos principais motores económicos entre os países que utilizam a moeda única.
O presidente do Eurogrupo, Paschal Donohoe, antecipou esta segunda-feira um crescimento de cerca de 1% da Zona Euro em 2024, reconhecendo que deverá ficar abaixo do desejável, muito por culpa das tensões geopolíticas e da inflação.
“Continuo a achar que a economia da zona euro está a aguentar-se bem”, considerou o presidente do Eurogrupo antes da primeira reunião de 2024 entre ministros das Finanças de Estados-membros da Zona Euro.
“Espero que [o crescimento económico] seja de cerca de 1% para 2024, na generalidade da zona euro, apesar de não ser o rácio de crescimento de que eu gostaria, mas não deixa de ser crescimento, apesar de todos os desafios”, adiantou.
Os dados de 2023 chegam num momento desafiante para o país, com o Governo de Olaf Scholz a braços com greves no setor ferroviário e protestos dos agricultores contra os cortes nos subsídios para os combustíveis.
Ainda esta segunda-feira, os agricultores alemães voltaram a bloquear várias ruas das principais cidades de Berlim em protesto contra a eliminação gradual da redução do imposto sobre os combustíveis para este setor.
Com mais de 5.000 tratores nas ruas da capital alemã, o ministro alemão das Finanças falou aos milhares de agricultores em protesto junto às Portas de Brandemburgo. “Não posso prometer mais ajudas estatais do orçamento federal”, admitiu Christian Lindner.