Recessão à vista. "Múltiplas crises" levam a queda de 0,3% do PIB na Alemanha

As estimativas preliminares divulgadas esta segunda-feira pela agência federal alemã de estatística apontam para um recuo de 0,3% por cento do PIB daquela que é a maior economia europeia. A elevada inflação, a subida das taxas de juro, os custos da energia e a menor procura industrial ajudam a explicar este retraimento da economia alemã que poderá estender-se também ao ano de 2024.

Andreia Martins - RTP /
Protesto de agricultores junto às Portas de Brandemburgo, em Berlim, esta segunda-feira. Fabrizio Bensch - Reuters

“O desenvolvimento económico geral vacilou na Alemanha em 2023, num ambiente que continua a ser marcado por múltiplas crises”, adiantou Ruth Brand, responsável do gabinete de estatísticas Statistisches Bundesamt (Destatis).

“Apesar da recente quebra dos preços, os preços mantiveram-se elevados em todas as fases do processo económico e travaram o crescimento. A economia alemã não continuou a sua recuperação da forte recessão económica que se sentiu no ano pandémico de 2020”, adiantou a responsável esta segunda-feira, numa conferência de imprensa a partir de Berlim.


No último trimestre de 2023, estima-se que o PIB alemão tenha caído 0,3% face ao trimestre anterior, de acordo com a estimativa preliminar. Após correção de variações de calendário e preços, o PIB anual registou uma queda de 0,1%. Um resultado ainda assim melhor do que as previsões do Governo alemão e do FMI, que antecipavam uma queda de 0,4% e 0,5% do PIB, respetivamente, em 2023. Após a quebra de 2020 com a pandemia (menos 3,8 por cento do PIB em relação ao ano anterior), a economia alemã cresceu 3,2 por cento em 2021 e 1,8 por cento em 2022. Ainda assim, a economia alemã estava, em 2023, 0,7% do PIB acima de 2019, ano que precedeu o início da pandemia.

São vários os fatores que ajudam a explicar este recuo da economia alemã. De resto, a Alemanha teve em 2023 o mais fraco desempenho entre as principais economias mais desenvolvidas segundo os cálculos do Fundo Monetário Internacional, destaca o Financial Times.

Entre os setores afetados destaca-se a quebra nas vendas a retalho, exportações e da vasta produção industrial alemã, afetada pelos elevados custos de energia e uma fraca procura a nível global. Por outro lado, as famílias foram atingidas pelo maior aumento do custo de vida numa geração, com o consumo a cair 0,8% em relação ao ano anterior.
"Condições recessivas"
De acordo com a OCDE, o país deverá crescer 0,6% já em 2024, mas esse resultado ainda coloca a Alemanha entre as grandes economias do mundo com um dos mais fracos crescimentos. Entretanto, vários analistas mostraram-se mais pessimistas com as previsões para este ano.

“As condições recessivas que se arrastam desde o final de 2022 parecem destinadas a continuar este ano”
, considerou Andrew Kenningham, economista da consultora Capital Economics, citada pelo Financial Times, prevendo crescimento zero para o PIB alemão em 2024.

Não há sinais iminentes de uma recuperação e a economia parece estar destinada a atravessar a primeira recessão de dois anos desde o início da década de 2000. Estamos à espera que o atual estado de estagnação e recessão superficiais continuem. Na verdade, o risco de 2024 ser mais um ano de recessão é elevado”, afirmou Carsten Brzeski, especialista de macroeconomia para o banco holandês ING, citado pelo jornal The Guardian.

Os economistas esperam, ainda assim, alguns sinais positivos no ano de 2024, com a queda das taxas de inflação.

“A recente queda da inflação deverá proporcionar algum alívio às famílias, mas o investimento residencial e empresarial deverá contrair-se, a construção está a caminhar para uma desaceleração acentuada e o Governo está a apertar acentuadamente a política fiscal. Prevemos um crescimento zero do PIB em 2024”, adiantou Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da consultora Capital Economics, em declarações ao Guardian.

Estes dados poderão representar um desafio para a economia europeia e Zona Euro, uma vez que a Alemanha é um dos principais motores económicos entre os países que utilizam a moeda única.

O presidente do Eurogrupo, Paschal Donohoe, antecipou esta segunda-feira um crescimento de cerca de 1% da Zona Euro em 2024, reconhecendo que deverá ficar abaixo do desejável, muito por culpa das tensões geopolíticas e da inflação.

“Continuo a achar que a economia da zona euro está a aguentar-se bem”, considerou o presidente do Eurogrupo antes da primeira reunião de 2024 entre ministros das Finanças de Estados-membros da Zona Euro.

“Espero que [o crescimento económico] seja de cerca de 1% para 2024, na generalidade da zona euro, apesar de não ser o rácio de crescimento de que eu gostaria, mas não deixa de ser crescimento, apesar de todos os desafios”, adiantou.

Os dados de 2023 chegam num momento desafiante para o país, com o Governo de Olaf Scholz a braços com greves no setor ferroviário e protestos dos agricultores contra os cortes nos subsídios para os combustíveis.

Ainda esta segunda-feira, os agricultores alemães voltaram a bloquear várias ruas das principais cidades de Berlim em protesto contra a eliminação gradual da redução do imposto sobre os combustíveis para este setor.

Com mais de 5.000 tratores nas ruas da capital alemã, o ministro alemão das Finanças falou aos milhares de agricultores em protesto junto às Portas de Brandemburgo. “Não posso prometer mais ajudas estatais do orçamento federal”, admitiu Christian Lindner.

Os protestos eclodiram depois de uma decisão do Governo para a eliminação gradual na redução de impostos sobre o gasóleo agrícola, numa tentativa de equilibrar o orçamento para 2024, na sequência de uma decisão do Tribunal Constitucional alemão, em novembro, que forçou o Governo a rever os seus planos de despesas.

(com agências)
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