Reino Unido. Economia parada à espera do Brexit

por Graça Andrade Ramos - RTP
Uma mulher às compras no sul de Londres, em novembro de 2019 Reuters

"A economia britânica não registou crescimento nos últimos três meses", revelou esta terça-feira o Instituto Nacional de Estatísticas britânico. São más notícias, não só para os cidadãos do Reino Unido em geral, mas para quem quer que venha a liderar o próximo Governo do Reino Unido.

Os dados poderão revelar-se fulcrais para as escolhas dos eleitores nas eleições legislativas marcadas para daqui a dois dias.

Jack Leslie, analista de economia da Fundação Resolution, afirmou à BBC que os desafios internos do Reino Unido surgem numa conjuntura de crescimento global fraco para o próximo ano. E critica a tática adotada por conservadores e trabalhistas, que tem sido ignorar o problema.

"Enquanto os principais partidos têm evitado debater durante a campanha eleitoral os desafios colocados por este ambiente económico, navega-lo vai ser sempre uma tarefa central do próximo Governo", alertou.

Nem mesmo a perspetiva de eventuais cortes nas taxas de juro por parte do Banco de Inglaterra poderá ser suficiente para revitalizar a economia.

No fundo, tudo se joga na eventualidade de se dar ou não o Brexit.

"A economia britânica enfrenta dificuldades em acelerar, depois de ter escapado à recessão do terceiro trimestre. A forte contração da atividade na construção lembra-nos até que ponto a desaceleração mundial e as incertezas relacionadas com o Brexit continuam a travar o crescimento", resumiu a empresa de consultoria financeira Deloitte.

O grupo intermediário Manpower, num estudo publicado esta terça-feira, refere por seu lado que as "intenções de contratação para o primeiro trimestre de 2020" estão no "ponto mais baixo desde 2012".

John Hawksworth, o principal analista económico da consultora PwC, também considerou a incerteza face ao Brexit como a principal responsável pela "perda de impulso" da economia britânica.

"O crescimento deverá provavelmente manter-se moderado até finais de 2019, mas poderemos esperar um regresso da atividade ao longo de 2020, se as atuais incertezas políticas e económicas se atenuarem", disse à BBC.

"O nosso cenário principal aponta um por cento de crescimento do PIB, em 2020, assumindo um Brexit ordeiro", acautelou.
A evidência das estatísticas
Como indicam os números, perante um futuro incerto, os empresários têm hesitado não só em investir, como até em aceitar encomendas.

Em outubro, a ligeira progressão de 0,2 por cento registada no setor de serviços (que representa 80 por cento da economia britânica), foi anulada pelas quebras de -1,5 por cento do setor de produção (-0,7 por cento desde janeiro), com as fábricas do país a funcionar a meio gás, e de -0,3 por cento na construção.

O Instituto Nacional de Estatísticas britânico (ONS na sigla em inglês), referiu mesmo que se registou uma "queda acentuada na construção de casas e de infraestruturas em outubro". Este foi também o terceiro mês consecutivo a registar crescimento económico zero.

Nesse mês, o PIB do Reino Unido cresceu 0,7 por cento, o ritmo de expansão mais baixo desde março de 2012, informou ainda o ONS.

As últimas previsões do Banco de Inglaterra para o crescimento do PIB em 2019 foram revistas em baixa, para apenas 1,2 por cento, contra 1,4 por cento em 2018 e 1,9 por cento em 2017.

O pior cenário para a economia britânica será a falta de uma maioria clara na Câmara dos Comuns, na próxima quinta-feira.

Nesse caso, o impasse sobre o Brexit deverá prolongar-se, e o impacto dessa incerteza poderá empurrar a economia para o abismo.
Cada voto conta
Sejam pró ou contra a saída da União Europeia, o que a maioria dos britânicos agora deseja é uma resolução do impasse. Boris Johnson, o atual primeiro-ministro conservador, tenta capitalizar essa vontade e, como defensor do Brexir desde a primeira-hora, tem prometido concretiza-lo até 31 de janeiro.

Johnson lidera as sondagens mas não está muito confiante, por necessitar de uma maioria de deputados que lhe permita decidir sozinho a questão, sem ficar refém da Câmara dos Comuns, onde a oposição ao Brexit tem sido maioritária.

Johnson voltou a apelar ao voto esta terça-feira, referindo que, se não tiver maioria de deputados lhe será impossível cumprir a saída da União Europeia. "Precisamos lutar por cada voto", afirmou.

Líderes do Governo na última década, os conservadores têm contudo sido responsabilizados diretamente pelo mau desempenho da economia,
sendo acusados de a terem passado a privatizar setores públicos e a submeter os serviços públicos a cortes severos de financiamento.

Argumento que a oposição se apressou a invocar esta terça-feira. "Podemos esperar mais cinco anos de fracassos e de estagnação da economia se os conservadores ganharem" as eleições, reagiu John McDonnell, futuro ministro das Finanças de um eventual Governo trabalhista.

A resposta não tardou, com Sajid Javid, atual ministro da Economia, a usar os dados sobre a economia para apelar ao voto no partido. Os números do PIB, considerou, provam que é essencial "concluir o Brexit".

Só isso tornaria possível "desencadear uma onda de investimentos", acrescentou Javid.
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