Sem comparações, realidade poderá ser escamoteada

A mudança de metodologia do INE nos inquéritos de emprego suscita fortes críticas dos setores mais à esquerda e muitos receios dos setores mais à direita. Das acusações de tentar “escamotear” a realidade a receios pela impossibilidade de comparar dados com anos anteriores, a ninguém agrada, no fundo, a decisão agora tornada pública pelo INE.

RTP /
DR

O INE deu esta terça-feira a conhecer uma mudança da sua metodologia no que toca aos inquéritos sobre e desemprego. Estes vão começar a ser feitos por telefone. Se tem por objetivo facilitar o contacto com o núcleo familiar e harmonizar os procedimentos com os países europeus, como explica o organismo, por outro tem como inconveniente, o de não permitir comparar estatísticas com períodos homólogos dos últimos 12 anos.

Segundo o INE, a alteração introduzida no sistema soluciona "algumas dificuldades na obtenção da colaboração (…) através do contacto presencial”, que têm vindo a verificar-se com a redução do núcleo familiar ao longo dos tempos, e com a menor disponibilidade das pessoas entrevistadas para receberem em suas casas os entrevistadores, devido a um sentimento de insegurança.

A alteração agora anunciada e explicitada no site do Instituto Nacional de Estatística emana da regulamentação comunitária mas, apesar disso, não foi bem recebida quer pelos partidos políticos quer pelo setor sindical com as duas centrais sindicais.

Se à direita, apesar da compreensão da introdução de novas metodologias pelo INE, existem receios quando á impossibilidade anunciada de efetuar comparações com períodos homólogos anteriores, à esquerda não faltam as acusações de tentativa de “escamotear a realidade” e de falta de fiabilidade do método agora adotado

PSD desvaloriza alteração de metodologia no INE

O PSD desvaloriza a alteração de metodologia do Instituto Nacional de Estatística (INE), que vai impedir a comparação de dados com recolhas anteriores, como acontece com a taxa de desemprego que está nos 10,9%. Miguel Frasquilho lamenta que as comparações deixem de ser possíveis, mas entende a alteração de metodologia do INE.

“São alterações metodológicas. Aliás o INE refere que vai passar a fazer as amostras por telefone mas a ideia é aproximar cada vez mais de uma recolha o mais uniformizada possível até através da Internet e usando as tecnologias de informação que estão cada vez mais ao dispor de toda a gente, portanto eu não iria por aí”.

“É uma alteração que emana dos regulamentos comunitários”, explica Miguel Frasquilho, que não hesita em apontar a impossibilidade de comparação com estatísticas de anos anteriores como o único inconveniente que esta alteração de metodologia introduz.

“Eu diria que o maior óbice que tem é de facto não assegurar a comparabilidade com os dados anteriores para que possam ser feitas análises e possam ser extraídas conclusões", afirmou o deputado social-democrata. E acrescentou que "os números são sempre muito importantes para que possam ser feitas boas análises, para que as conclusões possam ser retiradas e para se saber se as políticas estão ou não a ter resultados. Isso é que me parece muito importante”.

O CDS-PP receia "machadada" na comparabilidade dos dados sobre o desemprego
O CDS-PP receia que a alteração de metodologia de recolha de dados sobre o desemprego no INE signifique "uma machadada" na comparabilidade e na fidelidade dos dados.

"Temos medo que com esta iniciativa seja dada uma machadada na comparabilidade e na fidelidade dos números", afirmou Pedro Mota Soares.

O CDS-PP vai pedir esclarecimentos sobre "o porquê da iniciativa" ao Instituto Nacional de Estatística e ao Governo.

"Numa altura de crise em que o desemprego sobe, é essencial ter números que se possam comparar", argumentou.

PCP vai chamar Pedro Silva Pereira no Parlamento
O PCP vai chamar ao Parlamento o ministro da Presidência, que tutela o INE, para prestar esclarecimentos sobre a alteração do método de recolha de informação, por considerar que está em causa a perda de qualidade da estatística.

"O Governo tem sido useiro e vezeiro na tentativa de manipulação de dados estatísticos. Temos que tirar conclusões lógicas, [a alteração] vai dificultar a avaliação dos níveis de desemprego", afirmou Agostinho Lopes.

O deputado do PCP Agostinho Lopes considera que a mudança de metodologia "altera a qualidade da estatística e a sua comparabilidade" e considera que há motivos para questionar se o Governo estará a tentar "governamentalizar" o INE.

O PCP decidiu chamar o ministro da tutela, Pedro Silva Pereira, ao Parlamento, para prestar explicações.

"Está em cima da mesa uma alteração de metodologia no cálculo de uma estatística de grande importância, numa altura em que milhares de famílias portuguesas são atingidas por este flagelo", argumentou.

BE olha com "apreensão" para alteração de metodologia do INE
O Bloco de Esquerda estranha a mudança de metodologia por parte do Instituto Nacional de Estatística. A deputada Mariana Aiveca denuncia a inoportunidade desta medida e sublinha que o novo método não é fiável.

“O Bloco de Esquerda vê com a maior apreensão esta alteração porque as estatísticas do INE não são comparáveis a uma sondagem e estas alterações levam-nos a concluir que o método utilizado será o método de sondagem. A fiabilidade de uma estatística feita por telefone desvirtua completamente aquilo que deve ser o rigor de se saber a situação concreta na área do desemprego e portanto achamos que o momento é absolutamente inoportuno”.

“Queremos aprofundar melhor e naturalmente estaremos atentos à situação e tomaremos as medidas que se entendam convenientes para perceber a dimensão e extensão de toda esta alteração que à partida se nos afigura absolutamente desajustada”, garante a deputada bloquista.

CGTP acusa governo de querer camuflar a realidade
Para a CGTP não há qualquer dúvida. «O Governo pretende esconder os dados do Desemprego», afirma Eugénio Rosa, economista que é membro do gabinete de estudos da central sindical da Vítor Cordon. E o novo método do Instituto Nacional de Estatística para recolher dados do desemprego «presta-se a isso».

O economista acusa o Governo de «tentar esconder a todo o custo» o «problema social mais grave e dramático que Portugal enfrenta neste momento».

O «Governo tem feito tudo para desacreditar os números do desemprego divulgados pelo INE, ou ignorando esses dados, ou utilizando os dados divulgados pelo IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional), que são facilmente manipuláveis, já que não são conhecidas publicamente as regras para a sua construção, para reduzir os efeitos do impacto dos dados do INE», acusa Eugénio Rosa

«E agora, o presidente do INE decidiu dar uma ajuda ao Governo na sua campanha para ocultar a situação dramática do desemprego em Portugal, anunciando, que o inquérito trimestral sobre o emprego e desemprego em Portugal, por razões financeiras, passaria a ser feito por telefone, o que vai pôr em causa a consistência técnica desses dados, deixando de refletir a verdadeira situação do desemprego em Portugal», acrescenta o economista.

A explicação é fácil de entender. Os inquéritos feitos em Portugal têm como base o telefone fixo, o que não abrange a totalidade da população, uma vez que existem cerca de 150 telefones móveis por 100 habitantes, e muitos lares já não têm telefones fixos.

Mas o problema é mais grave já que muitos desempregados não têm telefone nem fixo nem móvel, porque não têm dinheiro para o pagar, razão pela qual com o novo método passariam a não poder ser contactados.

«É absurdo fazer um inquérito ao desemprego por telefone, o que deixaria muitos desempregados de fora do inquérito», fazendo com que os dados não traduzam «a verdadeira dimensão do desemprego».

A «justificação do INE não tem consistência» acusa o consultor económico da CGTP que explica que «os custos financeiros não são muito elevados até porque a amostra inquirida, determinada com base em critérios científicos, abrange apenas 22.773 pessoas» e a «fiabilidade dos resultados do inquérito que é feito compensa largamente os seus custos».

Para a CGTP, só conhecendo a verdadeira dimensão do desemprego em Portugal é possível tomar medidas adequadas para o combater. «Mas esse parece não ser o objetivo deste Governo», acusa Eugénio Rosa.

UGT considera essencial a comparabilidade dos dados
A União Geral dos Trabalhadores (UGT) não se opõe à introdução de alterações que permitam melhorar as estatísticas realizadas e tornadas públicas, mas pela voz de Paula Bernardo, secretária-geral adjunta da UGT, sublinha a importância das comparações de dados.

“Para a UGT há uma questão que é fundamental, e portanto, será inaceitável que de facto decorrente desta alteração metodológica, o INE deixasse de divulgar informação que permita de facto aferir aquela que é a evolução do mercado de emprego nomeadamente o desemprego, de 2011 comparativamente com 2010. É fundamental de facto que o INE assegure a comparabilidade entre estas duas séries”, explica Paula Bernardo.

“Relativamente ao método de recolha, enfim, obviamente que a introdução do método de recolha por telefone a par com a entrevista presencial, mantendo-se as duas formas, esperamos que de facto possa vir a contribuir para a melhoria da qualidade das estatísticas divulgadas e que do INE haja um esforço muito grande no sentido de acompanhar a qualidade das estatísticas recolhidas e divulgadas”, conclui e dirigente da UGT.
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