Sistema global de transporte de mercadorias à beira do "colapso"

por RTP
Navios de mercadorias à espera de entrar nos portos congestionado de Los Angeles e Long Beach, Estados Unidos Reuters

A Câmara Internacional de Transporte Marítimo, ICS, e três outros grandes grupos alertaram os líderes mundiais para o perigo de "colapso do sistema global de transporte", se os Governos não reintroduzirem a liberdade de circulação para os trabalhadores do setor e se não lhes for dada prioridade na vacinação contra a Covid-19, com vacinas aprovadas pela OMS.

Em carta aberta enviada esta quarta-feira à Assembleia Geral das Nações Unidas, os grupos avisaram que “as cadeias de distribuição globais estão a começar a ceder à medida que dois anos de esforço começam a afetar os trabalhadores do setor”. Além da ICS, a carta é assinada pela IATA [Associação Internacional de Transporte Aéreo], a IRU [Sindicato de Transporte Rodoviário] e a ITF [Federação Internacional de Trabalhadores dos Transportes]. Juntos, representam 65 milhões de trabalhadores de transporte do mundo inteiro.

Todos os setores de transporte registam ainda escassez de trabalhadores e esperam a saída de muitos outros, em consequência do que milhões sofreram durante a pandemia, o que coloca a cadeia de distribuição sob uma ameaça ainda maior”, acrescenta a missiva.

Guy Platten, secretário-geral da ICS, afirmou que a falta de trabalhadores irá agravar-se provavelmente para o final do ano porque os marinheiros poderão não querer aceitar novos contratos e arriscar não regressar a casa para o Natal, devido ao encerramento de portos, a alterações constantes das restrições de deslocação, a exigências de vacinação de testagem díspares e ao risco de confinamentos.

Tripulantes de navios, condutores de camiões e funcionários da aviação aguentaram quarentenas, restrições de movimentos e exigências complexas e variadas devido à pandemia de Covid-19, multiplicando esforços para manter a funcionar cadeias de distribuição nos últimos 18 meses.

Muitos estão à beira da exaustão física, moral e emocional. A verificar-se a expectativa de Platten, a falta de trabalhadores precisamente no Natal, uma das alturas mais movimentadas do ano, irá impor pressão adicional ao movimento de bens em redor do mundo através de uma rede emaranhada de portos, contentores e empresas de camiões que move bens em redor do mundo.
18 meses fechados num navio
O Reino Unido exemplifica o que pode suceder se as cadeias de distribuição colapsarem. A falta de 100.000 condutores de camiões ditada pelo Brexit deixou vazias as prateleiras de supermercados, encerrou cadeias de restaurantes por falta de suprimentos e secou este fim-de-semana estações de abastecimento combustível devido ao pânico dos consumidores preocupados com possível escassez.

A cadeia mundial de distribuição é muito frágil e depende tanto de um marinheiro como de um condutor de camião de entregas”, referiu Stephen Cotton, secretário-geral da ITF. “Chegou a altura dos líderes mundiais darem resposta às necessidades destes trabalhadores”.

Por exemplo, um trabalho de semanas transformou-se numa autêntica armadilha para as tripulações de cargueiros nos últimos 18 meses. Karynn Marchal, uma norte-americana de 28 anos, primeira-oficial de um navio de transporte de carros, lembrou à CNN o choque sentido com a interdição de desembarque quando aportaram a Hokkaido, no Japão, após semanas no mar.

“Nenhum de nós sabia quanto tempo ia durar”, afirmou. Isso sucedeu há 18 meses, no início da pandemia e desde então Marchal, assim como centenas de milhares de navegadores como ela, não têm tido licença de desembarque. Uma tripulação não pode abandonar o seu navio exceto se estiver de regresso a casa. Marchal diz que é “uma das sortudas”, pois pelo menos conseguiu regressar aos Estados Unidos por umas semanas. “Há pessoas forçadas a permanecer a bordo há mais de um ano”, afirmou.

Muitos tripulantes de navios aceitaram prolongar vários meses os seus contratos para manter a funcionar as cadeias globais de distribuição de alimentos, combustíveis, medicamentos e outros bens de consumo.

A interdição de voos aéreos e o encerramento das fronteiras tornou ainda quase impossível a deslocação de trabalhadores de um lado do mundo para outro e a substituição de tripulações.

No pico da crise, em 2020, a pandemia impossibilitou a rotina da rotação de cerca de 400 mil marinheiros em todo o mundo e alguns trabalharam mais 18 meses seguidos além dos seus contratos iniciais.

No mês passado, Marchal e a sua tripulação tiveram de se submeter a 10 testes Covid numa semana antes de serem autorizados a entrar num estaleiro em Singapura para reparações. A manutenção atrasou uma semana devido a surto de coronavírus no porto e o navio não deverá voltar ao mar antes de meados de outubro. Entretanto, a tripulação terá de se manter a bordo.

Quarentenas obrigatórias ao desembarcar e à chegada aos países de origem significam que muitos pilotos e marinheiros passam um mês das suas férias e folgas enfiados num quarto de hotel antes de poderem ver as famílias.

A situação tem vindo a melhorar mas agora o problema é encontrar tripulações.
Seis doses de vacinas ou nenhuma
A variante Delta forçou a reposição de restrições e os trabalhadores do setor continuam a enfrentar uma miríade de exigências de certificados de teste e de vacina só para poderem cumprir as suas funções. Muitos dos bloqueios são impostos sem aviso prévio, referiu Platten.

A falta de consistência das obrigações implica também que vários trabalhadores tenham sido vacinados várias vezes porque os países onde chegam apenas aceitam determinadas vacinas, acusou ainda o secretário-geral da ICS, citando um caso seu conhecido de um tripulante de navio que recebeu seis doses, em três regimes de duas doses. “É um autêntico pesadelo. Nem percebo porque não existe uma espécie de norma global”, afirmou à CNN Business.

Ao mesmo tempo, a desigualdade na distribuição mundial de vacinas implica que só 25 a 30 por cento dos contratados para trabalhar em navios, muitos deles oriundos da Índia e das Filipinas, têm a vacinação completa, de acordo com Platten.

Outro desafio é a testagem ao coronavírus. Em fevereiro, as autoridades alemãs introduziram unilateralmente os testes PCR obrigatórios sem exceção para os condutores de camiões, o que levou os países vizinhos, como a Itália, a impor restrições similares para evitar ficar com milhares de condutores bloqueados no seu território.

Milhares de motoristas de camião foram afetados, sobretudo na passagem de Brenner entre a Itália e a Áustria, com milhares deles a serem forçados a esperar em fila, em temperaturas negativas e sem alimentos ou apoio médico. Desde então os certificados europeus de vacinação aliviaram a pressão mas em muitos locais os engarrafamentos continuam.

“Os condutores enfrentaram centenas de dificuldades fronteiriças e bloqueios de estrada durante a pandemia”, lembrou Umberto Pretto, secretário-geral da IRU. “Os motoristas de camião e os cidadãos e empresas que dependem nos bens que transportam, pagaram um preço elevado pelas restrições Covid erradas que não dispensaram os trabalhadores de transportes”, acusou.

Um capitão de um navio-contentor, o Seaspan Amazon, resumiu a ameaça à CNN Business. Os tripulantes “mantêm a indústria de transporte naval”, mas não têm tido a prioridade dada aos trabalhadores de primeira linha. “Se querem que o mundo continue a funcionar, o melhor é aliviar as restrições de deslocação”.
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