Sócrates vê recuperação onde Oposição vê crise

José Sócrates afirmou que o crescimento do Produto Interno Bruto em 0,3 por cento no último trimestre significa que Portugal está no caminho da recuperação económica. Os partidos políticos não corroboram da interpretação. À esquerda, o PCP e o Bloco de Esquerda dizem que a subida não reflecte a realidade social. À direita, o PSD e o CDS não vêm motivos de euforia.

Raquel Ramalho Lopes, RTP /
O primeiro-ministro atribuiu o crescimento de 0,3 do PIB às políticas seguidas pelo Executivo RTP

O primeiro-ministro classifica este momento como "um ponto de viragem" e sublinha que a economia portuguesa está melhor do que muitas congéneres europeias. "Portugal foi dos primeiros países do espaço europeu a sair da situação de recessão técnica e um dos primeiros a apresentar sinais de melhoria. Isso já era, aliás, visível no primeiro trimestre de 2009 porque o nosso declínio económico já foi menor do que os restantes países", afirmou José Sócrates.

O trimestre em curso é, segundo o Chefe do Executivo, o "terceiro trimestre em que apresentamos níveis melhores de actividade económica do que a média europeia e isso é já um nível sustentado de evolução económica".

Foram vários os indicadores nomeados por José Sócrates para justificar a crença num crescimento económico sustentável. "Tenho boas indicações e bons sinais - não apenas os resultados da economia, mas os indicadores de confiança, as encomendas na indústria, a retoma de sectores industriais que foram muito afectados no final do ano passado, como a indústria automóvel - que nos permitem olhar para este número como sustentável no futuro", enumerou.

Os números do desemprego não vão reflectir de imediato esta recuperação, avisa o governante. "O impacto no emprego será retardado", dentro de alguns meses, afirmou, para de seguida reclamar a importância de manter as políticas adoptadas. O primeiro-ministro garante que as medidas anti-crise estão a surtir efeito. Entre 75 e 100 mil portugueses estão integrados em planos de apoio ao emprego.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que o PIB da economia portuguesa caiu 3,7 por cento em comparação com o segundo trimestre de 2008. A variação em relação ao trimestre anterior indica uma subida de 0,3 por cento, número surpreendente para os economistas, que esperavam uma queda de 0,6 por cento.

O primeiro-ministro nota que a crise não termina com este novo dado, mas "é o início do fim da crise, um momento de inflexão".

PSD aponta reacção "pouco responsável" a José Sócrates

"É prematuro estar a tirar conclusões, como fez o primeiro-ministro hoje, de forma muito pouco responsável, dizendo que o crescimento estava de volta. Um trimestre é muito pouco e estamos a falar de números provisórios e preliminares", comentou Miguel Frasquilho.

O deputado social-democrata nota "um crescimento em cadeia que é positivo, marginalmente positivo" e sublinha que o crescimento português "foi induzido pelos números da Europa, que também foram superiores às expectativas, nomeadamente os números de França e Alemanha". Estes países são dois dos principais destinos das exportações portuguesas.

Enquanto o primeiro-ministro deu a entender que o desempenho da economia portuguesa estava relacionado com as políticas do Executivo, o deputado refere que "Portugal foi arrastado para esta evolução melhor do que a esperada".

Miguel Frasquilho sublinha a queda homóloga do PIB, de 3,87 por cento. 

CDS-PP alerta que números "não permitem grandes euforias"

O deputado democrata-cristão Diogo Feio enumera os motivos para não entrar em euforia com os números revelados pelo INE. ""Em primeiro lugar, continuamos com dados negativos quanto ao investimento. Em segundo lugar, não há uma consequência no emprego. Em terceiro lugar, o investimento demonstra que as nossas empresas ainda não estão numa posição positiva quanto à sua liquidez, como seria necessário".

Diogo Feio defende a importância de uma política económica que estimula o crescimento das empresas e a alteração de medidas relativas a fiscalidade, justiça, questões laborais e licenciamentos.

"Há economias europeias que estão a reagir bem melhor do que a nacional; e por outro lado, o segundo trimestre de todos os anos é naturalmente bem melhor do que o primeiro. É um trimestre em que há mais crescimento", notou ainda o deputado.

PCP nota que economia portuguesa continua em recessão

"É um erro grave considerar que o país saiu da recessão porque a variação em cadeia melhorou", declarou o deputado José Lourenço, para quem as medidas do Executivo socialista são "manifestamente insuficientes" para arrancar a economia portuguesa às malhas da recessão.

O deputado comunista sublinha que uma análise correcta deverá ser feita em comparação com o segundo trimestre do ano passado. "Em termos homólogos, o que aconteceu é que mantivemos um decréscimo de menos 3,7 por cento, idêntico ao do primeiro trimestre", disse.

Bloco de Esquerda sublinha "profunda crise"

Uma posição semelhante tem o Bloco de Esquerda. A deputada Helena Pinto sustenta que o aumento do crescimento económico não reflecte a realidade social, sobretudo o elevado índice de desemprego que afecta milhares de portugueses.

Os dados do INE significam, antes, ser "necessário e urgente que o Governo reforce as medidas sociais de apoio aos desempregados, nomeadamente aqueles que não têm acesso ao subsídio de desemprego", interpreta a bloquista. Helena Pinto lembra que "o desemprego em Portugal continua em crescimento".

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