União Europeia e Canadá selam acordos contra um mundo dominado pelas taxas de Trump

União Europeia e Canadá selam acordos contra um mundo dominado pelas taxas de Trump

Num planeta dominado pelas taxas do presidente norte-americano e pelas constantes ameaças de Donald Trump que tornam volátil qualquer ideia de ordem mundial, a União Europeia e o Canadá acabam de selar uma série de acordos transversais a várias áreas, desde a tecnologia à exploração de minerais e terras raras no que constitui uma aliança a ter em consideração em futuras crises internacionais.

Paulo Alexandre Amaral - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Hans Lucas via Reuters Connect

Negociação de minerais raros, Ucrânia e Inteligência Artificial foram assuntos que estiveram em cima da mesa nos encontros que agora terminam entre Otava e Bruxelas com o anúncio de acordo para vários projetos futuros.

A consonância atingida esta sexta-feira entre este e o outro lado do Atlântico mereceu dos representantes das partes o epíteto de “aliança mais estreita de sempre” entre a União e um país não-europeu, da mesma forma que já havia concedido ao Canadá a alcunha de “mais europeu dos países não-europeus”.

Trata-se também aqui de amenizar a ideia com que arrancou ontem a cimeira depois da oposição de alguns Estados-membros e em particular da Alemanha à dimensão do tratamento diferenciador que estava a ser concedido aos canadianos, abortando de certa forma a designação de “membro associado” que começava já a circular.

A proposta para tornar o Canadá o primeiro membro associado da União partira em setembro passado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mas mereceu depois a contestação de países como Alemanha e França, que se opuseram à criação desse estatuto. Uma das críticas deixadas comparou o convite a "estar a consertar um avião em pleno voo".

Duas das áreas que mereceram especial atenção foram aquelas da Inteligência Artificial e a da mineração de terras raras, áreas que acabam por coincidir e se fundir no fim da linha.

Com o Canadá a precisar de reduzir a sua dependência dos Estados Unidos, um novo parceiro com a dimensão da União Europeia pode ser num primeiro ponto a solução para arrancar com os projetos mineiros a envolver os seus subsolos ricos em terras raras. Será um projeto financiado pelo BEI – Banco Europeu de Investimento que, por outro lado, permitirá aos fabricantes automóveis europeus desprender-se da forte dependência da China para a aquisição daqueles minerais, fundamentais para a feitura das baterias dos carros elétricos, mas também na construção de turbinas eólicas.

O outro ponto privilegiado nos encontros do final de semana na cidade canadiana de Montreal foi a ajuda [europeia de 90 mil milhões de euros] à Ucrânia, com o Canadá a concordar com uma contribuição própria para o empréstimo que está a ser preparado por Bruxelas.

Trata-se de uma aliança que, sublinha o comunicado conjunto que encerra a cimeira, tornará “o Canadá e a UE mais bem preparados para enfrentar os desafios globais comuns”. O regresso ao poder nos Estados de Unidos de Donald Trump não mais fez do que acelerar uma parceria de uma década – o Acordo Económico e Comercial Global (CETA) foi assinado em 2016 para eliminar a maioria dos direitos aduaneiros – que já unia União Europeia e Canadá.

No ano passado, o comércio de bens e serviços entre a União e o Canadá atingiu cerca de 130 mil milhões de euros, 80 por cento acima do valor deste ano, segundo dados do Conselho da União Europeia.

O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, fez notar que esta aliança significa “soberania” e “mais capacidade de resiliência”, devendo permitir que os dois parceiros “resistam juntos aos choques” num mundo dominado por Estados Unidos e China.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, fecharia estas ideias com a declaração final de que esta cimeira de Montreal permitiu aos parceiros transatlânticos fechar “a associação mais estreita, profunda e sólida alguma vez feita entre a União Europeia e um país não europeu”.

“O Canadá é de longe o país mais europeu entre os países não europeus”, reiterou António Costa.

Entretanto, Carney mostra-se mais ambicioso e diz querer que seja possível até junho de 2027 recuperar essa ideia de tornar o Canadá o primeiro membro associado da União Europeia: "Nos próximos meses vamos definir plenamente o conteúdo, a dimensão e o âmbito desta nova modalidade de adesão. Os presidentes [do Conselho Europeu e da Comissão Europeia] e eu iremos reunir-nos periodicamente para acompanhar os progressos".

Segundo o primeiro-ministro canadiano, o Colégio de Comissários da Comissão Europeia vai reunir-se no próximo mês de março no Canadá com o Conselho de Ministros do seu Governo para "fazer avançar este trabalho".

"E aceitei o convite do presidente António Costa para, em junho, participar na cimeira do Conselho Europeu, altura em que pretendemos concluir estas negociações e discussões", salientou.
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