Volkswagen sem saber o que fazer das experiências com macacos

Além das dúvidas éticas que está a suscitar a utilização de macacos e seres humanos em experiências patrocinadas pela Volkswagen, a imprensa acrescenta agora que a construtora automóvel alemã procurou esconder os resultados dos testes realizados num laboratório nos Estados Unidos. A razão: as emissões dos veículos recentes eram “mais nocivas” do que as dos antigos, precisamente o contrário do que a indústria automóvel alemã procurava provar.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
A VW tentou esconder os testes porque estes demonstravam que as emissões dos veículos recentes eram “mais nocivas” do que as dos antigos Fabian Bimmer - Reuters

A revelação foi feita esta quarta-feira pelo diário alemão Bild, que diz que foi essa a razão para segurar o relatório final da experiência levada a cabo por uma equipa de cientistas americanos contratados pelo EUGT (European Research Group on Environment and Health in the Transport Sector, que pode ser traduzido como Grupo Europeu de Pesquisa sobre Questões de Saúde e Ambiente no Sector dos Transportes).

O EUGT, patrocinado pelas construtoras alemãs Volskwagen, BMW e Daimler, encarregou cientistas norte-americanos do Lovelace Respiratory Research Institute de realizarem uma experiência com vista a provar que as emissões diesel dos novos modelos eram menos prejudiciais do que os fumos de escape de modelos mais antigos. Um VW Beetle com diesel de nova geração e um Ford de 1999 foram dois dos carros que entraram nos testes.A VW tentou esconder os testes porque estes demonstravam que as emissões dos veículos recentes eram “mais nocivas” do que as dos antigos.

A experiência, realizada em 2015, está desde há uma semana a gerar forte contestação face à utilização de macacos, que foram bombardeados com as emissões automóveis durante horas para que fossem depois medidas as concentrações de gases perigosos, como os óxidos de nitrogénio, que vêm sendo relacionados com problemas respiratórios e doenças dos pulmões.

O Bild revela agora que, concluída a experiência, a Volkswagen decidiu que os resultados “nunca deviam sair”, uma vez que eram “devastadores” para a indústria, chegando à conclusão contrária do que era o desejado.

Publicando documentos do laboratório norte-americano que realizou a experiência, o Bild avança que os testes, que deveriam provar que os gases do Ford eram mais prejudiciais do que os do Beetle, acabaram por revelar o contrário, e a Volkswagen decidiu então fechar os resultados a sete chaves.

De acordo com o diário alemão, em agosto de 2016, Jacob McDonald, responsável do laboratório a que foi concessionada a experiência, escrevia: “Enviámos o relatório final há vários meses e (os responsáveis da Volkswagen) contestaram-no porque não correspondia ao que esperavam”.

Os testes deviam demonstrar que os novos motores diesel eram inócuos, mas os animais que inalaram estes gases “apresentaram mais sinais inflamatórios do que os que respiraram o antigo”, afirmou um perito em declarações ao Bild.

Jacob McDonald procurou ainda viabilizar a publicação do relatório: numa mensagem de correio eletrónico propôs não mencionar no relatório os maus resultados obtidos pelos motores recentes e insistir na ausência de perigo da “tecnologia antiga”. O relatório foi enviado em junho de 2017 ao EUGT, mas nunca chegou a ver a luz do dia.

O New York Times apresentava há uma semana outro ângulo desta decisão.
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