Votorantim assegura 21 por cento de participação na cimenteira portuguesa

O grupo brasileiro Votorantim acaba de anunciar a aquisição à Cinveste de 3,93 por cento de acções da Cimpor, o que permite ao grupo aumentar a sua participação na cimenteira portuguesa para 21,21 por cento. A operação, anunciada no dia em que termina o prazo da OPA lançada pela CSN, coloca a cimenteira nas mãos de accionistas directos maioritariamente brasileiros.

RTP /
A Administração voltou a recusar a OPA, considerando que o preço de 6,18 euros por acção apresentado "na oferta revista da CSN continua baixo e não reflecte o valor da empresa" www.cimpor.pt

Esta operação acontece um dia depois de a Camargo Corrêa ter por seu lado assegurado 31,17 por cento da Cimpor com a compra de 2,5 por cento de acções remanescentes da Teixeira Duarte, o que - num dia em que termina o prazo da OPA lançada pela Companhia Siderúrgica Nacional do Brasil - coloca a cimenteira portuguesa nas mãos de accionistas directos maioritariamente brasileiros.

Com o final do prazo para uma resposta à Oferta Pública de Aquisição lançada em Dezembro pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), chegam esta quarta-feira, 17 de Fevereiro, novas movimentações em torno da Cimpor, uma luta que está a envolver capitais brasileiros: a Camargo Corrêa, a Votorantim e a CSN.

De acordo com o comunicado libertado pela Votorantim, sabe-se agora que "foram adquiridas da Cinveste um total de 26.402.425 acções de emissão da Cimpor, pelo montante de 154,45 milhões de euros, tendo sido pago o preço de 5,85 euros por acção", ou seja 3,93 por cento da cimenteira que se juntam aos 17,28 por cento assegurados a 3 de Fevereiro na operação de permuta de acções com o grupo francês Lafarge.

A Votorantim sublinha que as operações que asseguraram o aumento da participação accionista "reforçam a intenção de contribuir para o desenvolvimento sustentado e para o crescimento da Cimpor".

O anúncio da Votorantim aponta para um reforço superior a 30 por cento do grupo brasileiro na Cimpor já no início do mês, na sequência da celebração de um acordo com a CGD (Caixa Geral de Depósitos), que tem na sua carteira 9,6 por cento da cimenteira portuguesa: "Em decorrência das aquisições accionárias e do referido acordo de accionistas, a Votorantim assegura um direito a voto conjunto com a CGD em determinadas matérias que equivale a uma participação votante de 30,76 por cento", explica o comunicado desta quarta-feira.

Capital maioritariamente brasileiro

O capital directo da Votorantim situado nos 21 por cento, associado aos 31,17 por cento da Camargo Corrêa, coloca a cimenteira sob alçada brasileira.

A imprensa brasileira anunciava ontem que a Camargo Corrêa acabava de adquirir 2,5 por cento de acções remanescentes da Teixeira Duarte na Cimpor, operação que permitia ao grupo brasileiro aumentar para 31,17 por cento a participação na cimenteira portuguesa e tornar-se no maior accionista individual da Cimpor.

A Camargo Corrêa já havia adquirido da Teixeira Duarte uma participação de 22,17 por cento da cimenteira - num negócio feito a 6,5 euros por acção - , tendo depois anunciado a compra de mais 6,46% pertencentes ao grupo espanhol Bipadosa.

Cimpor volta a dizer "não" à OPA da CSN

A movimentação da Votorantim e da Camargo Corrêa - que apontam o interesse em prosseguir uma estratégia para um projecto sustentado - acontece no momento em que decorre a OPA (Oferta Pública de Aquisição) sobre a Cimpor lançada pela CSN e cujo prazo termina hoje.

A Administração da Cimpor continua a dar resposta negativa à oferta pública. Logo após o lançamento da OPA, a Administração considerou baixo o preço por acção (5,75 euros) oferecido pela CSN, numa clara indicação para que os accionistas não vendam.

Um comunicado enviado já hoje pelo Conselho de Administração da Cimpor à CMVM considera que "o preço oferecido na oferta revista da CSN (6,18 euros por acção) continua baixo e não reflecte o valor da empresa".

A Administração da cimenteira portuguesa faz notar que "o preço oferecido pela CSN, para uma aquisição superior a um terço do capital, está abaixo do preço de 6,5 euros por acção, em dinheiro, observado nas recentes transacções de aquisição de participações minoritárias à Teixeira Duarte e à Bipadosa pela Camargo Corrêa", pelo que os membros presentes numa reunião, segunda-feira, à excepção de Jorge Salavessa Moura, "reiteraram a sua intenção de não alienar as respetivas acções no âmbito da oferta".

Bruxelas aprova aquisição da Cimpor pela CSN
Entretanto, a Comissão Europeia já deu luz verde à aquisição da Cimpor pela CSN, considerando que esta não coloca em causa as condições de concorrência no Espaço Económico Europeu.

Situação diferente estará a passar-se no Brasil, onde as autoridades da concorrência suspeitam que a cimenteira portuguesa esteja envolvida em manobras de concertação com a Camargo Corrêa e a Votorantim para impedir a entrada de concorrentes no mercado brasileiro. De acordo com as autoridades haverá um visado especial nestas movimentações: a CSN.

A secretária de Direito Económico apontou a brasileira CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) como principal visada na provável estratégia da Cimpor para a condicionar o sector dos cimentos no Brasil.

A confirmar-se, a estratégia da Cimpor é a resposta da cimenteira à OPA lançada pela CSN a 18 de Dezembro passado. Os parceiros da empresa portuguesa nesta eventual cartelização serão os grupos Camargo Corrêa (que na passada semana adquiriu a totalidade da posição da Teixeira Duarte (22,17%), avançando depois para os 6,46% dos espanhóis Bipadosa, e agora outros 2,5% para um total de 31,17% na Cimpor) e a Votorantim (que detém em conjunto com a Caixa Geral de Depósitos 31 por cento da cimenteira portuguesa, depois de no início deste mês ter adquirido os 17,3% da francesa Lafarge).

"Desconfiamos que pode haver uma investida conjunta por parte do Conselho de Administração da Cimpor e cimenteiras no Brasil - pelo menos Camargo Corrêa e Votorantim - para evitar a entrada de um agente não alinhado ao suposto cartel", explicou à Agência Lusa Mariana Tavares de Araujo.

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