Partido Popular Europeu procura alianças para reconduzir Durão Barroso

A família política de Durão Barroso na estrutura orgânica dos 27 cavalga o ascendente conquistado no escrutínio para o Parlamento Europeu, mas a ausência de uma maioria absoluta obriga a direita a negociar com socialistas e liberais. Só assim pode garantir a rápida reeleição do presidente da Comissão Europeia, sustenta o belga Wilfried Martens, à frente do PPE.

RTP /
Na noite eleitoral, Durão Barroso aplaudiu os resultados dos "partidos e candidatos que apoiam o projecto europeu" Olivier Hoslet, EPA

No rescaldo das eleições para o Parlamento Europeu, é entre os partidos da direita mais ou menos conservadora que os louros são distribuídos. Tão-pouco a taxa de participação global de 43 por cento - o ponto mais meridional desde a instauração de eleições directas na União Europeia, há 30 anos - pode servir de argumento às formações de esquerda e centro-esquerda para mitigarem a consolidação da maioria do Partido Popular Europeu (PPE) no hemiciclo de Estrasburgo.

A quebra da esquerda foi transversal aos partidos na oposição ou nas pontes de comando dos diferentes governos dos países-membros. Os exemplos acumulam-se: se em França a UMP de Nicolas Sarkozy bateu a oposição socialista, a coligação de centro-direita do polémico primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, supera os adversários socialistas com um resultado a rondar os 35 por cento; na Península Ibérica, os governos de cor socialista de Portugal e Espanha saem penalizados das eleições europeias e debatem-se com os danos causados pelas vitórias do PSD de Manuela Ferreira Leite e do Partido Popular de Mariano Rajoy.

Num fórum parlamentar com 736 lugares, o PPE, segundo resultados ainda provisórios, garante desde já 263 assentos, ao passo que o Partido dos Socialistas Europeus (PSE) não vai além dos 183 e a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE) deverá somar 84. De uma representação de 27,5 por cento no Parlamento Europeu, o PSE resvala para 21,5 por cento. Embalada pelos resultados, a direita assume a dianteira no processo de recondução de Durão Barroso.

"É preciso negociar"

"Falta uma maioria absoluta no Parlamento Europeu e, não obstante o nosso sucesso, nenhum grupo político dispõe de maioria absoluta, pelo que é preciso negociar", propugnou a partir de Bruxelas o presidente do PPE, Wilfried Martens. Para quem se impõe uma "cooperação" entre "democratas-cristãos do PPE, sociais-democratas e liberais".

Na mente dos dirigentes conservadores da União Europeia ganha consistência o objectivo de conseguir revalidar a entronização de Durão Barroso já na próxima cimeira de líderes, que se realiza a 18 e 19 de Junho. A confirmar-se a nomeação pelo Conselho Europeu, a recondução poderia ser confirmada pelos eurodeputados na sessão inaugural, em meados de Julho.

Em Portugal, a recondução do presidente da Comissão Europeia foi um dos temas quentes da campanha, com o cabeça-de-lista dos socialistas, Vital Moreira, a demarcar-se do apoio institucional a Durão Barroso garantido pelo primeiro-ministro e secretário-geral do partido, José Sócrates.

Apesar da incerteza em torno da sobrevivência do Tratado de Lisboa, que acarreta profundas reformas institucionais para a arquitectura da União Europeia, o presidente do PPE insiste na necessidade de acelerar o processo de nomeação do chefe do executivo comunitário, tendo em conta um imperativo de "continuidade" em dias de crise económica e financeira.

Tratado de Lisboa ergue-se no caminho de Durão

Um dos principais travões aos desígnios do PPE parte, contudo, do gabinete de Nicolas Sarkozy no Palácio do Eliseu. Para o Presidente francês, o facto de o Tratado de Lisboa permanecer refém de um segundo referendo na República da Irlanda impede, na prática, uma nomeação definitiva para a liderança da Comissão Europeia.

No centro das negociações estará o cargo de presidente do Parlamento Europeu, como já tratou de sublinhar Graham Watson, o líder do clã liberal em Estrasburgo. Também o presidente da ALDE admite uma aliança de interesses com os conservadores, mas impõe condições. Desde logo a partilha de alguns cargos de monta: a moeda de troca preconizada pelos liberais é, precisamente, o posto de presidente do hemiciclo de Estrasbrugo, actualmente ocupado pelo democrata-cristão Hans-Gert Pöttering.

O próprio Graham Watson assume-se como candidato à sucessão do eurodeputado alemão, embora alinhe com Sarkozy na tese de que "não é lógico" renomear Durão Barroso numa altura em que a Europa dos 27 continua à espera de uma nova consulta popular, ditada pelos imperativos constitucionais irlandeses, para poder designar os demais comissários europeus.

Durão e os partidos "que apoiam o projecto europeu"

Em Estrasburgo os nomes mais citados para o cargo ocupado por Pöttering são os de Jerzy Buzek, antigo primeiro-ministro da Polónia, e do italiano Mário Mauro, um dos potenciais delfins de Berlusconi.

A entrecortar a noite eleitoral de Lisboa, quando a liderança do PSD reivindicava, na sede nacional da São Caetano à Lapa, a "primeira vitória do ciclo eleitoral" de 2009, Durão Barroso mostrava-se lesto a congratular-se com os resultados do escrutínio, aplaudindo o ascendente dos "partidos e candidatos que apoiam o projecto europeu".

"A partir de hoje, a Europa deve mais uma vez demonstrar aos eleitores que é capaz de mostrar resultados", defendia o presidente da Comissão Europeia, exortando "os políticos nacionais" a tornarem-se "actores políticos não só nacionais, mas também europeus".

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