André Ventura. O candidato presidencial "antissistema" que não desejou sê-lo

Concorre às eleições presidenciais de 2026, mas nunca o desejou. Foi deste modo que André Ventura apresentou a candidatura a Belém, em setembro passado, explicando que teria preferido apoiar Pedro Passos Coelho. No entanto, na ausência de um candidato à altura das suas aspirações, o Chega "tem de ter voz", defendeu. Ao longo da campanha tem apontado críticas, essencialmente, à imigração, à saúde e à corrupção.

André Ventura apresentou-se como um candidato "em nome do Chega, antissistema e que representa um corte com o domínio dos partidos", tendo por objetivo "acabar de vez com o bipartidarismo e enterrá-lo”.

Não desejei ser candidato nestas eleições presidenciais. Entendo – como entendi no passado – que o líder da oposição não tem como vocação primeira ser candidato à Presidência da República”, declarou em setembro.

O candidato considerou ainda que um presidente, “com a legitimidade que tem, não se pode tornar numa figura de corta-fitas” e “tem de servir para alguma coisa”, nomeadamente na luta contra a corrupção.

“Acho que nos estamos a tornar num país de corrupção endémica e eu quero acabar com isso”, declarou na Grande Entrevista da RTP, em novembro.

Na mesma entrevista, o líder do Chega vincou que o país precisa de “um presidente que coloque os portugueses comuns à frente, e não as minorias ruidosas”.

“Com isto não estou a dizer que vou perseguir A, B ou C. Vou é dizer pela primeira vez aos portugueses comuns, aos que pagam impostos, que sustentam o país, que vão ter um Estado para eles também”, elucidou.

Cerca de uma semana antes destas declarações, uma polémica envolvendo cartazes marcou a campanha presidencial de Ventura. Erguidos na Moita, mostravam em letras garrafais as frases "Isto não é o Bangladesh" e "Os ciganos têm de cumprir a lei".

O Ministério Público anunciou então a abertura de um inquérito na sequência de várias denúncias, incluindo vindas de associações ciganas. Em dezembro, André Ventura foi a tribunal e a sentença ditou que retirasse os cartazes dirigidos à comunidade cigana num prazo de 24 horas.

O candidato presidencial anunciou que iria recorrer da decisão por entender que está em causa a sua liberdade de expressão. O Tribunal Cível de Lisboa recusou o pedido de suspensão da retirada de cartazes a 5 de janeiro, já em plena campanha. 

No dia seguinte a ter-se candidatado à Presidência da República, André Ventura apareceu num protesto convocado pela Associação Solidariedade Imigrante junto ao Parlamento, sendo vaiado e apelidado de "fascista", "racista" e "xenófobo" por quem lá se encontrava.

Aos jornalistas, o candidato transmitiu então que temos “de pôr regras em Portugal e eles têm de aceitar”, acrescentando que “não podem querer que isto seja um bar aberto”.

Na Grande Entrevista da RTP em novembro, Ventura argumentou que “o país não pode aguentar mais estar só a receber pessoas que nunca descontaram” enquanto “os nossos cá, os nossos idosos, a nossa classe média não tem acesso nem a habitação, nem a saúde, nem a segurança, nem a nada”.

Quando, em dezembro, o Tribunal Constitucional chumbou a Lei da Nacionalidade proposta pelo Governo de Luís Montenegro, André Ventura considerou que “o país foi derrotado”.

O candidato do Chega indignou-se por ser impossível "retirar a nacionalidade a quem a obteve e que comete crimes como violação, ou até um golpe de Estado". "Disparate absoluto, um erro daqueles que vamos pagar caro", augurou.
Ventura quer pacto para a saúde
No final de outubro, questionado sobre a sugestão do presidente da República acerca da existência de um acordo político sobre o papel do SNS, do setor social e do setor privado, para que haja um quadro de médio prazo, André Ventura respondeu que se há área em que deve haver consenso é na saúde e disse ser preciso "dizer ao Governo que não pode desinvestir".

"Nós hoje temos pessoas que não conseguem comprar medicamentos verdadeiramente e nós estamos a retirar orçamento precisamente numa das áreas em que as pessoas mais têm dificuldades, que é a área da saúde", alertou.

Este pacto, explicou, "pode ser feito entre os três maiores partidos" e deve ter como premissas um investimento consistente que garanta que os hospitais e os centros de saúde não têm falhas de equipamentos.

O líder do Chega defendeu que "os portugueses têm que ter saúde antes dos outros" e que Portugal não pode "andar a pagar a saúde do mundo inteiro, de pessoas que chegam só para ter tratamento".

"Não creio que isto seja nenhuma mensagem xenófoba. É dizer que quem cá está tem que ter direito à saúde e tem que ser a prioridade do sistema de saúde", elucidou. André Ventura já tinha sido candidato a Belém em 2021, arrecadando então o terceiro lugar, com 11,9 por cento dos votos.

No final de outubro, falando acerca do caso da morte de uma grávida no Hospital Amadora-Sintra, o candidato acusou o primeiro-ministro de querer “manter esta ministra da Saúde por uma questão de para-raios, ou seja, ter ali alguém que é sempre o alvo de todos os problemas para se proteger a si próprio”.

Na visão de Ventura, “morra quem morrer, fique sem atendimento quem ficar, fique sem meios quem ficar”, o Executivo “nunca assume responsabilidades”.

Dias depois, insistiu que “podem continuar a morrer pessoas, podem continuar a nascer bebés fora da maternidade, podem continuar a haver falhas de atendimento pelo INEM, pelas linhas de Saúde 24 e o Governo nunca assume responsabilidade”. "A nossa Constituição é alguma Bíblia?"
Em dezembro, num frente-a-frente com Henrique Gouveia e Melo na RTP, André Ventura frisou que enquanto presidente poderia “mobilizar o país” para alterar a Constituição.

"Eu não estou preso a um documento, eu quero servir o povo português", declarou, dando como exemplos de alteração a "castração química de pedófilos".

O líder do Chega disse ainda não ver qualquer problema em jurar uma Constituição que pretende alterar caso seja eleito presidente.

"A nossa Constituição é alguma Bíblia?" questionou. "Se é má para o povo português, temos de a mudar". “Diminuir a pobreza” e “aumentar os salários”
Em dezembro, o presidente do Chega reagiu à greve geral dizendo que “foi o Governo que levou os trabalhadores" para a paralisação, uma vez que havia tempo para negociar e impedir uma “lei que quer despedir toda a gente de qualquer maneira” e que aumenta a precariedade.

No entanto, a 9 de novembro o presidente do Chega tinha criticado a greve geral, qualificando-a como “um erro em que só a extrema-esquerda e os partidos a ela ligados conseguem ver qualquer benefício”.

No dia seguinte à greve, Ventura anunciou que o seu partido iria votar contra o novo pacote laboral no Parlamento caso o Governo não cedesse em matérias como os despedimentos e alterações na área da parentalidade.

“Se fosse como está agora, está mal, [o Chega] está contra. Porque está errado. É um ataque a quem trabalha, é um ataque a quem investe, é um ataque a quem se esforça. É tão simples como isto”, declarou.

Mais concretamente, Ventura opõe-se às medidas que vão “atrás das mulheres que querem ter filhos”, às que possibilitam contratações em regime de outsourcing após um despedimento ou às que impedem a reintegração dos trabalhadores nas empresas em caso de despedimento ilícito.

Questionado sobre o que faria enquanto presidente da República se a lei fosse aprovada pelo Parlamento, Ventura disse que respeitaria a vontade dos deputados, mas lembrou a necessidade do apoio do Chega para formar uma maioria que, atualmente, não existe.

O candidato presidencial frisou ainda que acabou o tempo em que a esquerda é que está ao lado de quem trabalha e que agora “é a direita que defende os trabalhadores”.

Também no mês passado, depois de a revista The Economist ter escolhido Portugal como a "economia do ano", André Ventura afirmou que o Governo deveria aproveitar este ranking para mudar a sua visão económica.

“Eu gostava que o Governo aproveitasse esta oportunidade que temos aqui para poder olhar para a economia como um serviço às pessoas e não como uma aritmética de números ou como um Excel para mostrar à União Europeia”, defendeu o candidato a Belém.

Os rankings que devem interessar, “se o Governo quer fazer alguma coisa, são diminuir a pobreza, diminuir o nível de subsidiodependência, aumentar os salários para evitar que os jovens tenham que sair do país”, argumentou Ventura, sublinhando que é aí que Portugal tem “de estar em primeiro” e “é esse combate” que, como presidente da República, pretende travar. Combate à corrupção é prioridade
Perante um caso de "suspeita de corrupção grave" sem explicação convincente envolvendo um primeiro-ministro, André Ventura dissolveria o Parlamento e convocaria eleições antecipadas mesmo que o Governo fosse suportado por uma maioria absoluta.

"Se um primeiro-ministro, por muita estabilidade que tivesse, inclusive se tivesse uma maioria absoluta, for suspeito de corrupção, não conseguir explicar essas suspeitas, e a informação que for dada ao presidente da República é de que estas suspeitas são sérias, fundamentadas, fundadas e com indícios fortes, então eu acho que, nesse caso, com uma suspeita de corrupção grave, nós devemos dissolver a Assembleia da República e chamar o país a votos", afirmou o candidato em entrevista à agência Lusa, em novembro.

"Se eu for presidente da República e - espero que nunca aconteça e também não vejo nenhum motivo para isso - houvesse uma acusação contra mim de corrupção, de desvio de dinheiro público, de enriquecimento ilícito, eu próprio, chegando ao momento de ver que havia coisas fundadas e reais, não tinha outra forma senão ir-me embora e sair", assegurou.

Na mesma entrevista, o candidato questionou a forma de nomeações para as instituições do Estado e empresas públicas, que considerou deverem ser repensadas, inclusivamente no caso do procurador-geral da República.

"Faz sentido que o tribunal que controla os partidos políticos (…) derive destes próprios partidos políticos? Não seria de pensar isto como um todo, do ponto de vista de garantir a independência e a imparcialidade destas pessoas? Poderia ser o presidente?", questionou. Habitação e Educação
No início de dezembro, aproveitando um pacote de medidas de desagravamento fiscal para os proprietários apresentado pelo Governo, o candidato do Chega abordou o tema da habitação.

André Ventura quer “permitir que os gastos que se têm com habitação sejam dedutíveis fiscalmente”.

“É esse o caminho que o Governo devia fazer, quer nas rendas, quer no crédito à habitação. (...) É a única forma de as pessoas sentirem que os gastos que estão a ter com a sua casa contam para alguma coisa”, argumentou.

No campo da Educação, o candidato aproveitou a polémica envolvendo o ministro da Educação, Fernando Alexandre, sobre a degradação das residências universitárias ocupadas por estudantes de baixos rendimentos, para dizer que "nós precisamos é de mais residências universitárias".

Para Ventura, é importante que quem tem menos recursos "possa ter a oportunidade de estudar para poder subir no elevador social".

O candidato presidencial tem defendido também o fim daquilo que considera "ideologia de género" nas escolas. "A escola tem que ensinar a pensar, não o que pensar", defendeu recentemente na rede social X.
Percurso político começou no PSD
Natural de Algueirão-Mem Martins, em Sintra, André Ventura tem 42 anos e é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e doutorado em Direito Público pela Universidade de Cork, na Irlanda.

Desempenhou funções como jurista, professor universitário, consultor, inspetor na Autoridade Tributária e comentador desportivo.

O seu trajeto político começou no PSD, partido pelo qual foi eleito vereador da Câmara Municipal de Loures em 2017, após uma campanha que ficou marcada por declarações sobre a comunidade cigana que causaram polémica.

Em 2018, acabou por se desfiliar do PSD, em rutura com o então líder do partido, Rui Rio, e em outubro renunciou ao mandato de vereador em Loures, cerca de um ano depois de ter sido eleito.

É presidente do partido Chega, que fundou em 2019, e exerce funções como deputado à Assembleia da República desde esse ano. Em 2024 foi eleito conselheiro de Estado pelo Parlamento.

Nas eleições legislativas de 2025, o Chega ultrapassou o Partido Socialista e tornou-se a segunda maior força no Parlamento português, com 60 deputados.

c/ Lusa