Arábia Saudita ativa alerta aéreo em Riade pela primeira vez desde agravamento do conflito no Iémen
Fortes explosões foram reportadas hoje em Riade, após as autoridades sauditas terem emitido um alerta aéreo pela primeira vez na capital do país desde o escalar do conflito contra rebeldes Huthis pró-iranianos no Iémen.
O reino saudita tem sido alvo, nos últimos dias, de ataques crescentes dos rebeldes Huthis, apoiados pelo Irão, que controlam grande parte do território iemenita e registaram recentemente avanços significativos face ao Governo iemenita reconhecido pela comunidade internacional e apoiado por uma coligação militar liderada por Riade.
Trata-se da primeira vez que um alerta aéreo é ativado na própria capital saudita desde o agravamento do conflito, que acrescenta instabilidade à economia mundial já afetada por quase sete meses de guerra no Médio Oriente.
"A zona encontra-se sob ameaça aérea hostil", indicava uma mensagem enviada para os telemóveis dos habitantes de Riade pouco antes das 03:00 locais (01:00, hora de Lisboa), apelando à população para permanecer no interior das habitações, segund a agência France-Presse.
As autoridades sauditas ainda não comentaram as explosões nem esclareceram a origem da ameaça referida nos avisos emitidos durante a noite em várias regiões do país. Riade tem vindo a acusar os Huthis de intensificarem os ataques ao país nos últimos dias.
Na quarta-feira, as autoridades sauditas afirmaram que os rebeldes visaram Meca num ataque, classificando a alegada ação como um ataque "cobarde" contra a cidade mais sagrada do islão, visitada anualmente por milhões de peregrinos. A denúncia provocou forte reação no mundo árabe e muçulmano.
Os Huthis rejeitaram as acusações, afirmando que apenas visam instalações petrolíferas e bases militares, longe dos locais sagrados, em resposta ao apoio saudita ao Governo iemenita.
Os rebeldes relatam diariamente dezenas de ataques de retaliação conduzidos pela Arábia Saudita desde a ofensiva relâmpago lançada no início de setembro.
Os Huthis controlam atualmente toda a costa iemenita do Mar Vermelho, reforçando a sua posição sobre o estratégico estreito de Bab el-Mandeb, uma das principais rotas marítimas entre a Europa e a Ásia através do Canal de Suez.
A guerra no Iémen começou em 2014, quando os Huthis assumiram o controlo da capital, Sana, e de outras regiões do país, desencadeando uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita em março de 2015.
Uma trégua alcançada em 2022 colapsou em julho, quando os rebeldes desafiaram o controlo saudita do espaço aéreo iemenita ao autorizarem a aterragem de uma aeronave iraniana no país.
A recente conquista da costa do Mar Vermelho pelos Huthis gerou preocupações internacionais, numa altura em que o comércio marítimo global já enfrenta perturbações devido ao bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irão desde o início da guerra no Médio Oriente.
Apesar da escalada militar, os navios porta-contentores e os petroleiros continuam a atravessar o estreito de Bab el-Mandeb, depois de os rebeldes Huthis terem afirmado que apenas visam embarcações ligadas à Arábia Saudita.
Contudo, registou-se uma redução do tráfego marítimo na última semana, após a rápida ofensiva dos Huthis sobre ilhas localizadas naquela via marítima estratégica.
Segundo Dimitris Ampatzidis, responsável de risco e conformidade marítima da empresa de monitorização Kpler, entre 26 e 35 navios por dia transitaram pelo estreito esta semana, abaixo da média diária de 35 a 40 embarcações registada nas oito semanas anteriores.
Muitas empresas de transporte marítimo abandonaram esta rota após os ataques dos Huthis contra navios associados a Israel, iniciados em 2023. Em contrapartida, embarcações ligadas à Rússia e à China continuam a utilizar a passagem sem grandes dificuldades.
Na semana passada, segundo o portal norte-americano Axios, os Estados Unidos recusaram um pedido saudita para realizar ataques contra posições dos Huthis.
Contudo, Washington aprovou na quinta-feira a venda ao reino de 48 aviões de combate F-35, num negócio avaliado em 24,3 mil milhões de dólares (20,7 mil milhões de euros).
De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, a aquisição destina-se a permitir que Riade "dissuada ameaças atuais e futuras", embora a entrega das aeronaves não esteja prevista para breve.
Segundo os dados mais recentes das Nações Unidas, a retoma dos combates no início de setembro já provocou pelo menos 112 mil deslocados internos no Iémen, enquanto quase 3.000 pessoas procuraram refúgio em Djibuti.
Numa declaração divulgada na noite de sexta-feira, os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas reiteraram a condenação dos ataques dos Huthis contra a Arábia Saudita e das ameaças à navegação no Mar Vermelho e no estreito de Bab el-Mandeb.
O órgão condenou igualmente "nos termos mais veementes a contínua escalada militar dos Huthis no Iémen" e advertiu que o agravamento do conflito poderá deteriorar ainda mais a já grave situação humanitária no país.
Os membros do Conselho apelaram também a uma "cooperação prática" para impedir que os rebeldes obtenham armas, treino militar, financiamento e outro tipo de apoio necessário para prosseguir os ataques.