Guterres condena "expansão e aceleração implacáveis" de colonatos israelitas
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, condenou hoje a "expansão e aceleração implacáveis" dos colonatos israelitas na Cisjordânia, que diz porem em causa a viabilidade do Estado Palestiniano.
A expansão dos colonatos está a contribuir para a maior crise de deslocados no território ocupado desde 1967, segundo um relatório consultado pela agência France-Presse (AFP).
No documento trimestral sobre a situação na Cisjordânia ocupada por Israel desde 1967, António Guterres alerta para o crescimento contínuo dos postos avançados, que servem como precursores da instalação de colonatos, "em paralelo com o aumento da violência dos colonos e as restrições ao acesso dos palestinianos às suas terras" na Cisjordânia ocupada.
"Estes acontecimentos estão a alimentar tensões, consolidando ainda mais a ocupação ilegal israelita, minando o direito dos palestinianos à autodeterminação e ameaçando a viabilidade de um Estado palestiniano totalmente independente, soberano e contíguo", advertiu.
O secretário-geral da ONU alertou em concreto para o projeto do colonato E1, nas proximidades de Jerusalém Oriental, que "representa uma ameaça existencial à solução de dois Estados" entre Israel e a Palestina, ao planear a divisão da Cisjordânia ao meio.
Guterres expressou também preocupado com a escala da deslocação de palestinianos na Cisjordânia, "onde comunidades inteiras, incluindo comunidades beduínas, estão a ser deslocadas, por vezes repetidamente" pela ocupação israelita, acompanhada de uma escalada de violência atribuída ao exército e colonos extremistas.
"A violência dos colonos, as restrições de acesso, as demolições e as operações de segurança prolongadas intensificaram-se nos últimos anos, provocando a maior crise de deslocações na Cisjordânia desde 1967", insistiu.
O relatório condena o aumento da violência por parte dos colonos israelitas, "frequentemente em estreita proximidade e com o apoio das forças de segurança israelitas", e, além disso, "raramente" são responsabilizadas pelos seus ataques.
Numa declaração conjunta antes de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a situação na Cisjordânia, os países europeus com assento neste órgão, incluindo França e Reino Unido, que são membros permanentes, apelaram igualmente hoje a Israel para que ponha fim à expansão dos seus colonatos na Cisjordânia.
"Apelamos ao Governo israelita para que cesse a expansão dos colonatos e dos poderes administrativos, assegure a responsabilização pela violência dos colonos e investigue as denúncias contra as forças israelitas", afirma a declaração subscrita por França, Reino Unido, Grécia, Dinamarca e Letónia.
O debate no órgão de manutenção da paz da ONU centra-se no cumprimento de uma resolução que condena explicitamente as atividades de colonização no território palestiniano ocupado e insta Israel a respeitar as suas obrigações perante o Direito Internacional.
"No entanto, o Governo israelita continua a consolidar o seu controlo sobre o território palestiniano ocupado", criticou o texto lido pelo embaixador francês em Nova Iorque.
O grupo de cinco europeus manifestou "profunda preocupação" com os acontecimentos na Cisjordânia nos últimos meses e rejeitou "todas as medidas destinadas a alterar a composição demográfica, o caráter e o estatuto do território palestiniano ocupado".
A declaração destaca também que os planos de Israel preveem a divisão da Cisjordânia em duas partes e agravarão o isolamento de Jerusalém Oriental, o constituiria um "ataque deliberado e direto à viabilidade e à continuidade de um Estado palestiniano independente e soberano".
Os países europeus exigiram que Israel permita a entrada da ONU e da sua agência para os refugiados palestinianos (UNRWA), cujas atividades foram proibidas pelas autoridades israelitas, e das organizações não-governamentais internacionais para realizar operações humanitárias.
Do mesmo modo, sublinharam a necessidade de um processo político para encontrar uma solução duradoura para o conflito, na qual ambos os dois Estados possam coexistir.
Cerca de 60 palestinianos, entre os quais 14 menores, foram mortos em ataques de soldados, polícias ou colonos israelitas na Cisjordânia desde o início do ano, segundo números do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
A violência no território disparou desde os ataques do grupo islamita palestiniano Hamas contra Israel, em 07 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza.
Desde então, o número de mortos ultrapassa os 1.116 em operações militares de Israel e ataques atribuídos a colonos extremistas.
Ao mesmo tempo, Israel tem intensificado os seus planos de construção de novos colonatos e restrições de circulação da população palestiniana na Cisjordânia, a par de desalojamentos forçados em Jerusalém Oriental.