Iraque abre processo contra prisioneiros do Estado Islâmico transferidos da Síria
O Iraque anunciou hoje que vai iniciar processos contra os prisioneiros do grupo `jihadista` Estado Islâmico (EI) transferidos do nordeste da Síria pelas forças armadas norte-americanas, que temem vulnerabilidades de segurança na região.
Washington adiantou na quarta-feira que transferiu 150 membros do EI detidos numa prisão em Hassakeh, na Síria, "para um local seguro no Iraque", especificando que até 7.000 prisioneiros poderão ser afetados.
"Os terroristas não iraquianos permanecerão no Iraque apenas temporariamente", frisou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em comunicado, instando "os países a assumirem as suas responsabilidades e a repatriarem os seus cidadãos", em linha com a posição dos EUA desde a derrota do EI em 2019.
Dezenas de países, incluindo estados ocidentais, recusam-se a repatriar os seus cidadãos.
As autoridades iraquianas, que confirmaram na quinta-feira ter recebido um grupo inicial de 150 prisioneiros iraquianos e estrangeiros, anunciaram os procedimentos legais e a transferência dos detidos "para instalações prisionais apropriadas".
"Todos os suspeitos, independentemente da sua nacionalidade ou posição dentro da organização terrorista, estão sujeitos exclusivamente à autoridade do sistema judicial iraquiano, e os nossos procedimentos legais ser-lhes-ão aplicados sem exceção", declarou o Supremo Conselho Judicial em comunicado.
Os Estados Unidos decidiram transferir os prisioneiros do Estado Islâmico numa altura em que os confrontos entre o Exército sírio e as forças curdas, que controlavam os centros de detenção desde a derrota do EI em 2019, estão a aumentar as preocupações com falhas na vigilância.
Na terça-feira, as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas pelos curdos, anunciaram que foram "forçadas a retirar" de al-Hol, o maior campo de detenção de familiares de jihadistas, de forma a defender as suas regiões no nordeste, ameaçadas pelo exército sírio.
O Exército entrou na quarta-feira no, que alberga cerca de 24.000 pessoas, incluindo 15.000 sírios e aproximadamente 6.300 mulheres e crianças estrangeiras de 42 nacionalidades.
Damasco, que se juntou recentemente à coligação antijihadista, declarou estar preparada para assumir a supervisão das prisões e dos campos, ao abrigo de um acordo que estipula que a administração curda responsável por esta questão seria integrada nas instituições estatais.
No seu auge, o EI controlava vastos territórios na Síria e no Iraque, submetendo as populações de ambos os lados da fronteira a um regime de terror.
No passado, o Iraque foi criticado por centenas de julgamentos sumários, confissões obtidas sob tortura e representação legal ineficaz, de acordo com os defensores dos direitos humanos.
Os tribunais iraquianos já condenaram centenas de pessoas à morte e à prisão perpétua, incluindo muitos combatentes estrangeiros, alguns dos quais tinham sido transferidos da Síria.
Em 2024, após o término da missão de averiguação dos factos das Nações Unidas sobre estes crimes, o Iraque criou um Centro Nacional de Cooperação Judiciária Internacional, encarregado de documentar os crimes do grupo `jihadista` e de garantir a coordenação com os vários países envolvidos.