ONU alerta que Iémen voltou a viver guerra "em grande escala"
A ONU alertou hoje que o Iémen voltou a viver uma guerra "em grande escala", agudizando a crise humanitária e fazendo mais de 200 mil deslocados, e instou as partes a retomarem negociações para "evitar uma maior desestabilização" regional.
Numa sessão do Conselho de Segurança, o enviado especial das Nações Unidas para o Iémen, Hans Grundberg, advertiu hoje que os confrontos se alastraram e que os civis, em particular as mulheres e as crianças, "voltam a sofrer as consequências da violência".
"Nas últimas semanas, o Iémen regressou a uma guerra de grande escala, com hostilidades prolongadas por múltiplas frentes", disse.
As forças governamentais iemenitas, apoiadas por uma coligação liderada pela Arábia Saudita, lançaram esta semana uma contraofensiva de grande escala e anunciaram a retoma de posições nas imediações do estreito de Bab el-Mandeb, após avanços dos rebeldes Huthis, apoiados pelo Irão, em Mocha e na costa ocidental.
Grundberg condenou os ataques dos insurgentes contra as infraestruturas civis e energéticas da Arábia Saudita, incluindo os recentes bombardeamentos contra os aeroportos de Abha e Riade, que fizeram vítimas, e apelou aos Huthis para cessarem estas ações.
O diplomata alertou que o conflito iemenita está cada vez mais ligado às tensões regionais e às ameaças à navegação comercial no Mar Vermelho.
O subsecretário-geral adjunto para os Assuntos Humanitários da ONU, Mohamed Yahya, que representou o responsável humanitário Tom Fletcher, informou que mais de 200 mil pessoas foram deslocadas dentro do Iémen desde o início de agosto, o maior volume de novas deslocações desde a trégua de 2022.
Além disso, cerca de 4.000 pessoas atravessaram o estreito de Bab el-Mandeb para procurar refúgio no Djibuti e na Somália.
Desde o início da escalada, pelo menos 46 civis morreram e mais de 130 ficaram feridos, segundo dados do Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Mais de metade dos mortos e cerca de um terço dos feridos eram crianças.
Na Arábia Saudita, segundo informou hoje a Autoridade Geral de Aviação Civil (GACA), dois ataques dos Huthis contra as instalações do Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, e uma aeronave da companhia Saudi Arabian Airlines mataram pelo menos três cidadãos sauditas e feriram várias pessoas de diferentes nacionalidades.
Os incidentes ocorreram na quinta-feira, quando as instalações aeroportuárias foram alvo de uma primeira agressão, seguida de um ataque a uma aeronave da companhia aérea saudita. Os serviços de emergência e as autoridades competentes intervieram de imediato, seguindo os protocolos estabelecidos, de acordo com o comunicado da GACA.
O Saudia Group, conglomerado estatal de aviação a que pertence a companhia aérea afetada, informou que uma das vítimas mortais foi o capitão Hamud Ali Alkalzami, reconhecido pelos "seus contributos ao longo do seu percurso na companhia aérea nacional e pela marca indelével que deixou nos seus colegas".
Os ataques causaram também danos materiais nas instalações e bens atingidos. A autoridade aeronáutica informou que mantém a coordenação com os órgãos de segurança para avaliar as consequências dos incidentes e aplicar as medidas necessárias para proteger os passageiros e os funcionários dos aeroportos, bem como para preservar a segurança da aviação civil do país.
Neste sentido, a GACA indicou que as operações aeroportuárias foram retomadas e que o tráfego aéreo voltou à normalidade após a atuação das equipas de emergência.
O episódio representa o ataque mais mortífero na Arábia Saudita desde que o país e os seus aliados no Iémen lançaram, no passado fim de semana, uma grande ofensiva militar contra Huthis, no meio da escalada das hostilidades na região.
O aeroporto internacional da capital saudita já foi palco de outros ataques nos últimos dias.
No início desta semana, um cidadão sudanês morreu noutro incidente ocorrido nas instalações, evidenciando a deterioração da situação de segurança numa das principais infraestruturas de transporte do reino.