Opositor israelita processa mulher de Netanyahu por "teorias da conspiração"
O opositor Yair Golan vai processar a mulher do primeiro-ministro israelita por alegadas "teorias da conspiração" promovidas por Sara Netanyahu, sugerindo que o ex-general sabia previamente dos ataques do grupo islamita palestiniano Hamas em 07 de outubro de 2023.
O líder do partido de esquerda Democratas interpôs um processo por difamação e incitamento à violência, condenando "teorias da conspiração engendradas por mentes maliciosas", com o objetivo de prejudicar a sua dignidade e reputação, segundo documentos judiciais citados hoje pela agência France-Presse (AFP), a menos de dois meses das eleições legislativas em Israel.
Em resposta às declarações de Sara Netanyahu, Golan exige uma indemnização de 2,5 milhões de shekels (cerca 700 mil euros), de acordo os documentos judiciais.
No final de agosto, a mulher do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, sugeriu, durante uma entrevista a um canal televisivo próximo do Governo, que o antigo general e atual político opositor estava ao corrente dos ataques executados pelo Hamas no sul de Israel, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza.
Yair Golan já estava "vestido e pronto" ao amanhecer de 07 de outubro de 2023, "enquanto outros não sabiam de nada, incluindo o primeiro-ministro", afirmou Sara Netanyahu na entrevista, embora sem o acusar explicitamente de cumplicidade.
"Afinal, quem é o primeiro-ministro para saber que uma guerra está prestes a começar? Para quê dar-lhe conhecimento?", questionou sarcasticamente.
Estas declarações motivaram uma série de reações, quando o próprio chefe do Governo, Benjamin Netanyahu, enfrenta acusações sobre a atuação do Governo, antes, durante e depois dos ataques do Hamas, que fizeram cerca de 1.200 mortos e 251 reféns, segundo as autoridades israelitas.
Vários opositores pediram a sua demissão esta semana, após a publicação de um artigo no jornal Haaretz a descrever que Netanyahu foi alertado pelos Emirados Árabes Unidos para um ataque iminente do Hamas dez dias antes do 07 de Outubro.
Em resposta, o líder israelita alegou que estava ser vítima de calúnias e que vai processar o diário, o jornalista que assinou a notícia e "outras entidades", que não identificou.
Já Yair Golan recebeu elogios pelas suas ações naquela manhã, em que relatou ter conduzido o seu carro, por sua iniciativa e com a sua arma pessoal, por volta das 08:00 da manhã, para o festival de música Nova, onde as milícias palestinianas tinham iniciado um ataque uma hora e meia mais cedo.
Este caso ilustra a agressividade que envolve a campanha para as eleições parlamentares israelitas de 27 de outubro, nas quais Netanyahu joga a continuidade do seu Governo de coligação com a extrema-direita e o seu próprio futuro político, num país profundamente dividido e traumatizado pelo pior massacre de sempre em Israel.
Segundo a imprensa israelita, antes de anunciar o processo por difamação contra Sara Netanyahu, Yair Golan enviou-lhe uma carta exigindo que corrigisse as suas declarações e pedisse desculpa, além de doar uma soma substancial aos sobreviventes do festival Nova.
A mulher do primeiro-ministro não só não aceitou esta exigência, como ameaçou processar o adversário político do marido.
A generalidade das sondagens para as eleições legislativas, nas quais o 07 de Outubro é um tema central, dá o partido de oposição Yashar, liderado pelo antigo chefe das forças armadas Gadi Eisenkot, ligeiramente à frente do Likud, de Benjamin Netanyahu.
No entanto, nem os dois partidos, nem sequer o bloco pró-governamental ou de oposição alcançam uma maioria que permita o controlo dos 120 lugares do Knesset (parlamento).
Os Democratas, de Yair Golan, tem figurado no quarto lugar nos estudos de opinião, elegendo cerca de uma dezena de deputados, atrás do Yashar e do Likud, bem como do Juntos, a aliança de oposição dos antigos primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid.
Só depois surgem os partidos que têm sido próximos do Likud de Netanyahu, incluindo as forças de extrema-direita e os ultraortodoxos.
Em resposta aos ataques de 07 de outubro de 2023, Israel lançou uma operação militar em grande escala na Faixa de Gaza, que provocou mais de 73 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelo Hamas, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.
O enclave palestiniano encontra-se sob cessar-fogo desde outubro do ano passado, mas ambos os lados acusam-se mutuamente de sucessivas violações da trégua e ainda não chegaram a acordo para as próximas etapas do processo de paz.