Petrolíferas dos EUA lucram 116 mil milhões de euros com guerra no Irão

Petrolíferas dos EUA lucram 116 mil milhões de euros com guerra no Irão

Parte dos lucros está a ser utilizada para reduzir a dívida, reforçar os balanços financeiros e remunerar os acionistas através de dividendos e da recompra de ações.

Filipe Alexandre Gonçlaves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Sodiq Adelakun via Reuters

As principais empresas petrolíferas dos Estados Unidos acumularam mais de 116 mil milhões de euros em lucros entre abril e setembro, beneficiando da subida dos preços internacionais da energia provocada pela guerra no Irão, enquanto os consumidores enfrentam um aumento significativo dos custos dos combustíveis e de outros bens essenciais. 

A estimativa, divulgada pelo jornal The New York Times, resulta da análise dos resultados financeiros de 51 grandes empresas norte-americanas de petróleo e gás. 
O valor, equivalente a cerca de 130 mil milhões de dólares, representa quase o triplo dos lucros registados pelas mesmas empresas no período homólogo de 2025, quando não ultrapassaram os 42 mil milhões de euros (47 mil milhões de dólares).

Os ganhos do setor contrastam com o impacto económico do conflito nas famílias. Segundo uma análise do Climate Solutions Lab, da Universidade Brown, os consumidores norte-americanos gastaram mais 131 mil milhões de euros em gasolina e gasóleo desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro. O custo adicional representa mais de 980 euros por família.

"Os produtores de petróleo bruto lucram com os preços mais elevados do petróleo, enquanto as refinarias conseguem margens excecionais com a escassez de gasóleo e de outros combustíveis”, explicou Naser al-Tamimi, investigador do Instituto de Estudos Políticos Internacionais (ISPI), em Milão, citado pela Al Jazeera.

O especialista acrescentou que os danos nas refinarias do Médio Oriente e da Rússia, as interrupções nos transportes marítimos através do estreito de Ormuz e as tensões comerciais associadas às sanções agravaram a escassez de combustíveis. 

Em contrapartida, as instalações norte-americanas, relativamente protegidas do conflito, e o acesso a petróleo bruto a preços mais baixos reforçaram a posição das empresas dos Estados Unidos.

Os resultados das maiores companhias do setor refletem esta tendência. A ExxonMobil mais do que duplicou os lucros no terceiro trimestre, enquanto a Chevron quase triplicou os resultados no mesmo período, impulsionadas sobretudo pelo desempenho das operações de refinação.

Também a britânica Shell registou um lucro de 10,8 mil milhões de euros no terceiro trimestre, mais do dobro do valor alcançado no período homólogo.

A francesa TotalEnergies seguiu a mesma tendência, com os lucros trimestrais a ultrapassarem os 7,3 mil milhões de euros.

Apesar dos resultados expressivos, as empresas não estão a direcionar necessariamente os ganhos adicionais para o aumento da produção ou para a expansão das suas infraestruturas. 

Parte significativa do dinheiro está a ser utilizada para reduzir a dívida, reforçar os balanços financeiros e remunerar os acionistas através de dividendos e da recompra de ações.
 
"Os preços em todos os mercados expostos a este choque global de oferta, incluindo os Estados Unidos, continuarão elevados também no próximo ano, e os consumidores continuarão a sentir esta pressão sobre os preços, a menos que os governos intervenham", alertou Florence Schmit, estratega sénior de energia do Rabobank, citada pela Al Jazeera.

A pressão não se limita aos combustíveis. O aumento dos custos energéticos está também a repercutir-se nas cadeias de abastecimento, nos transportes e na alimentação. O Banco Mundial prevê uma subida de 23% nos preços das matérias-primas este ano, enquanto a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) registou, em setembro, um aumento de 1,5% nos preços mundiais dos alimentos.

Para os analistas, a manutenção de preços elevados poderá acabar por penalizar o crescimento económico mundial e aumentar o risco de uma recessão, com consequências para o consumo e para a procura de petróleo.

Geoffrey Miller, analista geopolítico e editor do boletim Gulf States Insights, considera que o conflito «criou o maior choque de oferta nos mercados globais de petróleo e de produtos refinados em anos», proporcionando às empresas norte-americanas condições particularmente favoráveis para transformar a instabilidade internacional em lucros.
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