Três anos do 7 de outubro em Israel. "Sinto que não vou poder voltar a ser o que era"

Três anos do 7 de outubro em Israel. "Sinto que não vou poder voltar a ser o que era"

O desabafo é de uma sobrevivente do ataque do Hamas, no sul de Israel, há três anos. É também o lamento de milhares de palestinianos desde o dia 7 de outubro de 2023.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Ex-reféns e familiares de vítimas exigem inquérito independente às falhas que permitiram o ataque do Hamas. Foto: Ammar Awad - REUTERS

Foi então que combatentes palestinianos atacaram o sul de Israel, num local onde decorria um festival de música eletrónica. O movimento matou 1.200 pessoas e mais de 251 pessoas foram raptadas. Este ataque desencadeou o que a ONU considera ser um genocídio levado a cabo por Israel na Faixa de Gaza. Nos últimos três anos, foram mortos mais de 70 mil palestinianos.

É nas imediações do Parlamento de Israel que se juntam familiares de vítimas e um grupo de ex-reféns que exigem um inquérito estatal independente sobre as falhas de segurança que levaram ao ataque do Hamas. 

Estes elementos do "Conselho de Outubro" participam, esta quarta-feira, numa cerimónia em memória das vítimas.

Foto: EPA

Em vários pontos de Israel sucedem-se as cerimónias em memória das vítimas. Sendo as primeiras cerimónias desde que todos os reféns do Hamas foram libertados ou os restos mortais foram recuperados. Numa praia de Telavive foram colocadas 1200 figuras perto de grandes letras hebraicas que formam a frase "Fracasso Total". Um protesto de manifestantes antigoverno de Netanyahu.
Ainda em Telavive, na Praça Habima, outros manifestantes exibem cartazes com a inscrição em hebraico "6h29, hora de acordar" — em referência à hora de início dos ataques liderados pelo Hamas a 7 de outubro de 2023. 

Foto: Reuters

Nos locais invadidos pelo Hamas, no sul de Israel, no local do festival Nova, dezenas de pessoas reuniram-se para recordar os mortos e as pessoas que foram raptadas durante o ataque de 7 de outubro de 2023. Os familiares das pessoas assassinadas prestaram homenagem às 6h29 (3h29 em Lisboa), rodeados de retratos das vítimas.
Homenagem idêntica decorreu no kibutz Kfar Aza, perto da fronteira com Gaza, onde 64 residentes foram mortos e 18 raptados.

As cerimónias decorrem em contexto de pré-campanha eleitoral em Israel e sob fortes medidas de segurança. 

Foto: EPA

A menos de 20 dias das eleições, a taxa de rejeição do primeiro-ministro israelita oscila entre os 57 por cento e os 60 por cento.

Há menos de um mês, a oposição israelita exigiu uma investigação a Benjamin Netanyahu sobre os acontecimentos que antecederam os ataques de 7 de outubro. Esta exigência surgiu após a revelação de que o primeiro-ministro de Israel teria sido alertado dez dias antes que o ataque do Hamas era eminente
No dia em que se cumprem três anos do ataque do Hamas, Portugal expressa solidariedade com o povo israelita.

Foto: Reuters

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros dá conta disso numa mensagem na rede social X. "Passam hoje três anos sobre o mais grave massacre terrorista antissemita depois da Shoah", escreve Paulo Rangel. Na mensagem, o ministro português sublinha que o 7 de outubro de 2023 não pode ser esquecido e que "o antissemitismo tem de ser sempre condenado e combatido".
O que aconteceu desde esse ataque do Hamas até agora está a alimentar muitas manifestações pró-Palestina. Por exemplo, em Melbourne, na Austrália, foram colocadas papoilas no relvado da Biblioteca Estadual de Victoria.

Foto: EPA

Já a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou que as autoridades israelitas perpetuam um “genocídio” na Faixa de Gaza. “Israel está a asfixiar progressivamente Gaza e continua a perpetrar um genocídio”, denunciou a MSF em comunicado na segunda-feira, dia 5.
“A ‘linha amarela’ não pode ser considerada, simplesmente, uma linha no mapa. Foi convertida num mecanismo de cerca e limpeza étnica, ao mesmo tempo que afasta as comunidades das infraestruturas, dos cuidados de saúde, de água e outros elementos essenciais que necessitam para sobreviver”, declarou a responsável na MSF por responder às emergências em Gaza, Amande Bazerolle.

Há cada vez mais habitantes de Gaza a correrem o risco de serem atingidos a tiro por as forças israelitas e a enfrentarem mais dificuldades para acederem à assistência médica dos MSF e outras organizações, que tiveram de interromper o transporte de bens essenciais como a água. Além do material e equipamento de saúde, Israel restringiu também o fornecimento de óleo para motor e peças de reposição, o que também está a causar impacto em infraestruturas de apoio aos hospitais, centros de saúde e ambulâncias, paralisando o seu funcionamento, com frequentes avarias dos geradores de eletricidade.
A MSF prevê que a destruição de mais de 80 por cento das infraestruturas em Gaza, assim como a violência e a deslocação contínua, as doenças físicas e psicológicas na Faixa de Gaza impedirão qualquer recuperação significativa no enclave nos próximos anos. Pelo contrário, “são necessárias gerações” só para recuperar os danos causados nos últimos três anos.

Foto: Reuters

A ONU considera ser um genocídio o que o Governo de Israel está a infligir aos palestinianos. O apuramento objetivo de dados sobre o conflito é difícil, os meios de comunicação foram afetados e muita informação vem das partes envolvidas no conflito.

Ainda assim, o Conselho Dinamarquês para Refugiados contabiliza cerca de 1,8 milhão de pessoas (86 por cento da população palestiniana), tiveram de ser deslocadas das suas casas, pelo menos uma vez. 

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, em setembro, 65 por cento das famílias palestinianas vivia em tendas ou abrigos improvisados. 

A agência palestiniana WAFA afirma que, desde 7 de outubro de 2023, morreram 74.018 pessoas na Palestina. A 10 de outubro de 2025 foi acertado um cessar-fogo, mas mais 1.400 palestinianos morreram desde esse dia. As forças israelitas ocupam atualmente 70 por cento do território palestiniano.
Até agosto, mais de metade dos 36 hospitais de Gaza estava a funcionar parcialmente, de acordo com o balanço da Organização Mundial de Saúde (OMS). 

A OMS regista também 817 ataques a instalações médicas, 36 a hospitais e 386 a ambulâncias. 

Foto: Reuters

No balanço de agosto, a OMS revelou que cerca de 50 mil mulheres grávidas não tinham acesso a serviços essenciais. A OMS contabiliza 804 pessoas em subnutrição, só em 2026. Um milhão de pessoas foi diagnosticada com problemas de saúde mental.
Em abril, a UNICEF avançou que cerca de 98 por cento das escolas em Gaza estavam danificadas nos ataques israelitas. Cerca de 700 mil crianças, dos quatro aos 17 anos, deixaram de ir à escola desde 2023. 

Foto: Reuters

A Faixa de Gaza acumula cerca de 60 milhões de toneladas de destroços, segundo a UNICEF.
O conflito em Gaza já matou 247 jornalistas, feriu 174 e outros 118 estão detidos, avança o Comité Para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).  "Israel está a realizar o esforço mais mortal e deliberado para matar e silenciar jornalistas que o CPJ já documentou. Jornalistas palestinianos estão a ser ameaçados e assassinados pelas forças israelitas, sendo detidos e torturados arbitrariamente em retaliação pelo seu trabalho. Israel destruiu sistematicamente a infraestrutura da comunicação social em Gaza e endureceu a censura em toda a Cisjordânia e Israel. Dentro de Gaza, jornalistas relatam assédio e intimidação por parte do Hamas", documenta o CPJ.

c/ agências
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