Regime de Teerão sugere julgamentos sumários e execuções de manifestantes 

O chefe do poder judicial iraniano sugeriu hoje que os manifestantes detidos nos protestos das últimas semanas no país serão sujeitos a julgamentos sumários e execuções, tratamento que o Presidente norte-americano ameaçou levar a retaliações. 

Lusa /

Enquanto ativistas alertam que os enforcamentos dos milhares de detidos nas manifestações poderão ocorrer em breve, o responsável judicial da República Islâmica, Gholamhossein Mohseni-Ejei, defendeu tratamento "rápido" dos casos, num vídeo partilhado online pela televisão estatal iraniana. 

"Se queremos fazer um trabalho, devemos fazê-lo agora. Se queremos fazer algo, temos de o fazer rapidamente", disse Mohseni-Ejei.  

"Se demorar dois ou três meses, não terá o mesmo efeito. Se queremos fazer alguma coisa, temos de a fazer rapidamente", adiantou.  

Os comentários representam um desafio direto a Trump, que numa entrevista à CBS na terça-feira alertou o regime islamita de Teerão para as consequências das execuções. 

"Se o fizerem, tomaremos medidas muito duras", disse o Presidente norte-americano. 

Trump tem alertado repetidamente para uma possível ação militar norte-americana devido ao assassínio de manifestantes pelas forças segurança, meses depois dos bombardeamentos de instalações nucleares iranianas em junho, na guerra de 12 dias iniciada por Israel contra a República Islâmica. 

Um diplomata árabe do Golfo disse à Associated Press (AP) sob anonimato que os principais governos do Médio Oriente têm desencorajado a administração Trump de iniciar uma guerra com o Irão, temendo "consequências sem precedentes" para a região, que se poderiam transformar numa "guerra em grande escala".  

O Irão ameaçou realizar um ataque preventivo, alegando, sem apresentar provas, que Israel e os Estados Unidos orquestraram os protestos.  

As autoridades organizaram hoje um funeral coletivo para cerca de 100 membros das forças de segurança mortos nas manifestações.  

Dezenas de milhares de pessoas compareceram, ostentando bandeiras iranianas e fotografias do ayatollah Ali Khamenei.   

Segundo a agência AP, a população permanece intimidada, enquanto agentes de segurança à paisana circulam por alguns bairros, embora a polícia anti-distúrbios e membros da força paramilitar voluntária Basij, ligada à Guarda Revolucionária, parecessem ter regressado aos seus quartéis. 

A Iran Human Rights (IHRNGO) elevou hoje para 3.428 mortes registadas nos protestos que abalam o Irão há mais de duas semanas, alertando que são casos que conseguiu verificar e que o número real deverá ser superior. 

Em comunicado no seu `website`, a organização não-governamental (ONG), com sede em Oslo, indicou que a maioria das mortes (3.379) foi registada entre 08 e 12 de janeiro, segundo fontes consultadas do Ministério da Saúde e Educação Médica da República Islâmica, a que somam vários milhares de feridos.  

A IHRNGO alertou para "o risco de execuções em massa de manifestantes após julgamentos espetaculares", apelando mais uma vez à comunidade internacional para que atue de forma "a prevenir as atrocidades e a proteger o povo do Irão" da repressão das autoridades. 

"Após o massacre de manifestantes nas ruas nos últimos dias, o poder judicial da República Islâmica está a ameaçar os manifestantes com execuções em grande escala. A comunidade internacional deve levar estas ameaças extremamente a sério", observou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHRNGO, citado no comunicado. 

A ONG assinalou também que acima de 10 mil pessoas foram detidas desde o início dos protestos, iniciados em Teerão e que se espalharam desde então por mais de 190 cidades em todas as 31 províncias do país. 

Do total de 3.428 mortes hoje contabilizadas em 15 províncias, a IHRNGO destacou que estes são apenas os casos verificados diretamente pela organização ou através de duas fontes independentes e corroborados por documentação de hospitais e morgues.  

A organização observou ainda que os relatos apontam para que a maioria dos mortos tinha menos de 30 anos e que pelo menos 15 eram menores. 

Os balanços de mortes nos protestos no Irão variam conforme as organizações, mas todos apontam para a ocorrência de uma repressão em grande escala. 

A Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos (HDRANA), sediada nos Estados Unidos, indicou hoje pelo menos 2.571 mortes, enquanto a Iran International, uma emissora multilingue por satélite com sede em Londres, apontou na terça-feira o número de 12 mil vítimas mortais, "com base nos dados disponíveis e na verificação de informações obtidas de fontes fidedignas, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional e o gabinete presidencial". 

A estação televisiva norte-americana CBS noticiou na terça-feira, a partir de duas fontes iranianas, que o número pode chegar aos 20 mil. 

Todas as organizações iranianas e internacionais destacam porém a dificuldade de alcançar a dimensão real da repressão dos protestos, face à ausência de números oficiais e ao bloqueio total da Internet no país desde a noite de quinta-feira.  

O Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país. 

As autoridades iranianas receberam inicialmente com compreensão os protestos, mas entretanto endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram entretanto relatos de condenações à pena de morte e execuções extrajudiciais de manifestantes detidos.  

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