Acordo entre Israel e EAU não muda planos de anexação, diz Netanyahu

por Andreia Martins - RTP
O acordo com os EAU estabelece a suspensão da ocupação de novos territórios na Cisjordânia. Netanyahu diz que nada muda e que os planos se mantêm. Abir Sultan - Reuters

O Presidente dos Estados Unidos anunciou na quinta-feira que Israel e os Emirados Árabes Unidos chegaram a acordo para o estabelecimento de relações diplomáticas bilaterais. Este entendimento, alcançado com a mediação dos Estados Unidos, determina que Telavive suspenda "de imediato" os planos anexação dos territórios palestinianos, mas o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, já veio dizer que a anexação continua em cima da mesa.

Os Emirados Árabes Unidos tornaram-se na quinta-feira no primeiro país do Golfo e o terceiro do mundo árabe – após o Egito e a Jordânia - a normalizar relações diplomáticas com Israel. O acordo, anunciado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, prevê que o Governo israelita suspenda futuras anexações de territórios palestinianos.

No entanto, apenas algumas horas depois de ter sido anunciado, as partes envolvidas parecem revelar diferentes perceções sobre o entendimento.


Se por um lado os Emirados Árabes Unidos insistem que o acordo vem “parar de imediato a anexação”, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu declarava que apenas tinha concordado em “adiar” a anexação de territórios e prometeu “não desistir do direito às nossas terras”.

“Não existe qualquer mudança nos planos de estender a nossa soberania na Judeia e Samaria, em plena coordenação com os Estados Unidos”, disse o chefe de Governo israelita numa declaração televisiva em hebraico, recorrendo aos nomes bíblicos da Cisjordânia.
Vitória para Trump e Netanyahu?

Apesar destas reações díspares, o acordo entre a monarquia do Golfo e Israel foi apresentada na quinta-feira como uma vitória importante para a política externa do Presidente norte-americano, Donald Trump, quando faltam menos de três meses para as eleições presidenciais no país.

“Todos consideravam que este era um acordo impossível. Quarenta e nove anos depois, Israel e Emirados Árabes Unidos vão normalizar as relações diplomáticas. Vão ter Embaixadas e embaixadores, vão cooperar em várias áreas, desde o turismo, educação, saúde, comércio e segurança”, frisou o Presidente norte-americano na quinta-feira, a partir da Sala Oval.

Também na política interna israelita, o acordo poderá ser relevante para Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro tem sido alvo investigações na justiça e disputou três eleições nos últimos anos, incapaz de assegurar uma vitória conclusiva. No seguimento do acordo anunciado quinta-feira, até os principais partidos da oposição congratularam o chefe de Governo.

Tal como noutras decisões de política externa no Médio Oriente desde o início do mandato, as negociações deste acordo foram seguidas de perto pelo genro de Donald Trump, Jared Kushner. O conselheiro de Donald Trump disse na quinta-feira que outros países do mundo árabe poderão em breve seguir o exemplo dos Emirados Árabes Unidos.

“Acho que este acordo faz com que isso seja mais inevitável, mas vai exigir muito trabalho, diálogo e construção de confiança. (…) Espero que este acordo facilite as coisas para outros. Vamos ver como corre”, frisou Kushner.

No Twitter, Benjamin Netanyahu enfatizou os esforços de aproximação do Governo, ao longo dos últimos anos: "Tenho razões para estar muito otimista de que o anúncio de hoje com os Emirados Árabes Unidos será seguido por mais nações árabes a juntarem-se ao nosso círculo de paz".


“Vendidos por amigos”

Nos últimos anos, Israel tem estabelecido contacto com outros países do mundo árabe, com destaque para a Arábia Saudita, Oman e Bahrain. Para além de interesses económicos e diplomáticos, esta aproximação imprevisível tem também origem em questões securitárias e na crescente influência regional do Irão, considerado um inimigo comum por árabes e israelitas.

Ainda que muitos antecipem uma “nova era” para a relação entre Israel e o mundo árabe, os palestinianos queixam-se de abandono e traição. Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, condenou o acordo alcançado e pediu uma reunião de emergência da Liga Árabe.

O responsável palestiniano disse mesmo que este acordo é uma “agressão” e “traição” contra a sua causa.

Também o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, veio criticar o entendimento, considerando que constitui “um prémio pela ocupação israelita e pelos crimes cometidos”.

"Este acordo não serve, de todo, a causa palestiniana, mas sim a narrativa sionista. Este acordo encoraja a ocupação de Israel, que continua a sua negação dos direitos do povo palestiniano e dá continuidade aos seus crimes contra o nosso povo", declarou Hazem Qasem, porta-voz do Hamas, pedindo que não se estabeleçam acordos com um "invasor".

Hanan Ashrawi, membro do comité executivo da Organização para a Libertação da Palestina, considera que este acordo é equivalente a ser “vendido por amigos”.

“Que vocês nunca sofram a agonia de vos roubarem o país; que vocês nunca sintam a dor de viver em cativeiro, sob ocupação; que vocês nunca testemunhem a demolição das vossas casas ou o assassinato de entes queridos. Que vocês nunca sejam vendidos por ‘amigos’”, escreveu no Twitter.
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