EM DIRETO
Depressão Marta a caminho de Portugal. A evolução do estado do tempo ao minuto

Administração Trump aponta ao "apagamento civilizacional" da Europa

Administração Trump aponta ao "apagamento civilizacional" da Europa

Um documento assinado pelo presidente dos EUA alerta para os perigos que a Europa enfrenta, dando como exemplo os "problemas" levantados pela UE ou as "políticas migratórias" que estão a "transformar o continente". Louva, por outro lado, a ascensão dos "partidos patrióticos europeus".

Andreia Martins - RTP /
Foto: Kevin Lamarque - Reuters

Com 33 páginas, o texto atualizado da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgado esta sexta-feira, dá grande relevo à situação na Europa faz um diagnóstico sombrio do futuro no Velho Continente.

Para além de destacar os problemas económicos, incluindo a queda do PIB ou as "regulações nacionais e transnacionais", Washington considera que "o declínio económico é ofuscado pela perspetiva real e mais austera de um apagamento civilizacional". 
“Em tudo o que fazemos, colocamos a América em primeiro lugar”, escreveu Donald Trump no prefácio do documento, que diz ser “um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuam a ser a maior e mais bem-sucedida nação da história da humanidade”.
“Entre os maiores problemas que a Europa enfrenta, incluem-se as atividades da União Europeia e de outros organismos transnacionais que minam a liberdade política e a soberania, as políticas migratórias que estão a transformar o continente e a criar conflitos, a censura da liberdade de expressão e a supressão da oposição política, as taxas de natalidade em queda livre e a perda de identidades nacionais e de autoconfiança”, lê-se no documento. 

A Administração Trump apontou ainda que, caso estas tendências se mantenham, o continente ficará "irreconhecível em 20 anos ou menos”. Considerou ainda que “está longe de ser óbvio” que “certos países europeus” consigam manter a economia e Forças Armadas “suficientemente fortes para continuarem a ser aliados fiáveis”, sem nomear países concretos. 

Queremos que a Europa se mantenha europeia, recupere a sua autoconfiança civilizacional e abandone o foco falhado na asfixia regulamentar”, aponta a nova Estratégia de Segurança Nacional, documento que é atualizado todos os anos.
"Efeitos perversos" do conflito na Ucrânia

Na visão de Trump e a sua Administração, a falta de confiança europeia é visível sobretudo “na relação (…) com a Rússia”.

“Os aliados europeus gozam de uma significativa vantagem em poder militar sobre a Rússia em quase todos os aspetos, exceto nas armas nucleares”, resume o relatório Mas em resultado da guerra da Rússia na Ucrânia, as relações dos europeus estão “profundamente deterioradas” e muitos europeus veem na Rússia “uma ameaça existencial”.
Em novembro, os Estados Unidos apresentaram uma proposta de plano de paz que previa grandes cedências territoriais a Moscovo, a renúncia de Kiev à NATO e a redução das tropas ucranianas. 
A Administração Trump reconhece que a gestão das relações europeias irá exigir “um significativo envolvimento diplomático dos EUA” de forma a evitar um conflito à larga escala com a Rússia. 

O documento aponta como “interesse fundamental” dos Estados Unidos a negociação de uma “cessação rápida” do conflito na Ucrânia como meio de “estabilizar as economias europeias, evitar a escalada ou expansão não intencional da guerra e restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia”. 

Por fim, a cessação das hostilidades permitiria “a reconstrução da Ucrânia” de forma a “garantir a sua sobrevivência como um Estado viável”, lê-se no documento.

A Administração Trump olha ainda com preocupação para os “efeitos perversos” da guerra na Ucrânia no resto da Europa, alertando sobretudo para a “dependência externa” da Alemanha. 
Em fevereiro, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, fez declarações polémicas durante uma visita à Europa. Em Munique, criticou as restrições ao discurso de ódio na Europa, considerando-as censura, e desafiou o país, então à beira de eleições federais, a deixar cair a cerca sanitária que afasta a extrema-direita do poder. 
O documento vinca o “desacordo” da liderança norte-americana perante as “expetativas irrealistas para a guerra, baseadas em governos minoritários instáveis”, alguns dos quais “atropelam princípios básicos da democracia para suprimir a oposição”. 

O documento faz mesmo referência à “subversão dos processos democráticos” e salienta que os europeus não podem encetar novas reformas “se estiverem presos em crises políticas”.Ascensão de "partidos patrióticos" vista com "grande otimismo"
Não obstante todas as críticas, a Europa continua a ser vista como “vital” para os Estados Unidos, a nível “estratégico” mas também “cultural”. 

“O comércio transatlântico continua a ser um dos pilares da economia global e da prosperidade americana. Os sectores europeus, da indústria à tecnologia e à energia, continuam a ser dos mais robustos do mundo”, resume a Administração Trump, ao fim de um ano marcado pelas ameaças de sanções norte-americanas em vários mercados.

O documento estratégico salienta ainda a “investigação científica de ponta” e “instituições culturais de renome mundial”. 

“Não podemos dar-nos ao luxo de descartar a Europa — fazê-lo seria contraproducente para o que esta estratégia visa alcançar”, reconhece a Administração Trump, propondo-se a “continuar a defender a democracia genuína, a liberdade de expressão e a celebração sem reservas do carácter e da história individuais das nações europeias”. 

“A crescente influência dos partidos patrióticos europeus é realmente um motivo de grande otimismo”, aponta ainda o referido documento, sem nomear forças partidárias.
“Queremos trabalhar com países alinhados que desejam restaurar a sua antiga grandeza”, lê-se no relatório. 
A Administração Trump destaca como grande prioridade “permitir que a Europa se sustente por si própria” e “assumindo a responsabilidade primária pela sua própria defesa”, sem o domínio de “qualquer potência adversária”. 

E quanto à NATO, os Estados Unidos consideram neste documento que é “mais do que plausível” que em algumas décadas “certos membros da NATO se tornem maioritariamente não europeus”. Por isso, é “uma questão em aberto” se estes países vão ver o seu lugar no mundo ou a sua aliança com os Estados Unidos “da mesma forma” desde a assinatura da carta da Aliança Atlântica. 

Sobre o futuro da própria aliança, os Estados Unidos parecem acolher um dos grandes desígnios de Moscovo, já que pretendem “acabar com a perceção” e “travar a realidade da NATO como uma aliança em constante expansão”.
Tópicos
PUB