Afeganistão. Colapso do sistema de saúde põe milhares de crianças em risco

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Jorge Silva - Reuters

Mergulhado numa crise humanitária, o Afeganistão enfrenta agora o colapso do sistema de saúde, com o encerramento de milhares de estabelecimentos e a falta de profissionais, medicamentos e equipamentos. A organização não-governamental (ONG) Save The Children estima que o colapso do sistema de saúde possa resultar na morte de milhares de crianças por mês, à medida que se aproxima o inverno.

Desde que os talibãs tomaram o poder do Afeganistão, o país, devastado por décadas de guerra, foi atingido por uma tempestade perfeita de crises que o encaminham para a desgraça. Além da guerra, o Afeganistão enfrenta agora o colapso do sistema de saúde.

Relutante em financiar o Governo dos talibãs, a comunidade internacional suspendeu a transferência de fundos monetários e muitas ONG, que asseguravam em grande parte o funcionamento do sistema de saúde, ficaram sem dinheiro ou tiveram de interromper as operações por razões de segurança.

Como consequência, mais de dois mil estabelecimentos de saúde encerraram no país, cerca de 23 mil profissionais de saúde não são pagos há seis meses ou tiveram de deixar trabalhar e os hospitais têm falta de medicamentos e equipamentos médicos.

“As coisas básicas simplesmente não existem”, disse à CNN Bahman Shahi, funcionário do serviço de saúde e educação ACASUS no Afeganistão.

Mary-Ellen McGroarty, diretora nacional do Programa Alimentar Mundial, disse à CNN que "nunca antes vira uma crise a desdobrar-se a este ritmo e escala".

"Estamos a testemunhar uma nova profundidade de miséria à medida que a seca e a crise económica aumentam os preços dos alimentos e dos combustíveis", acrescentou.

A secção das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários disse que as instituições humanitárias no Afeganistão “estão numa corrida contra o tempo para ajudar a salvar a vida das pessoas afetadas pela crise e fornecer mantimentos antes do inverno”.

O colapso do sistema de saúde é particularmente preocupante numa altura em que se enfrenta uma pandemia. As infeções por Covid-19 estão a aumentar novamente no Afeganistão, um país onde apenas um por cento da população foi vacinada.

Vida de milhares de crianças em risco
Além do colapso do sistema de saúde, o Afeganistão está a ser afetado por uma escassez de alimentos devido à situação económica, agravada por uma seca grave, com cerca de 18 milhões de afegãos a necessitar de assistência humanitária urgente.

De acordo com a Save the Children, milhões de crianças gravemente desnutridas precisam de tratamento com urgência, sendo que muitas correm o risco de morrer se não forem tratadas imediatamente.

“Atualmente, dois milhões de crianças com desnutrição aguda com menos de cinco anos não têm acesso a tratamento”,
 alertou Staniczai Mansoor, conselheiro técnico da Save the Children no Afeganistão.

Entre os mais vulneráveis perante a crise de saúde do Afeganistão estão mulheres e crianças. Mesmo antes da tomada de poder dos talibãs, a ONG estimava já que metade das crianças com menos de cinco anos e um quarto das mulheres grávidas precisariam de tratamento para a malnutrição. Agora, a Save the Children teme que o colapso do sistema de saúde resulte na morte de milhares de crianças por mês, à medida que se aproxima o inverno.
Ajuda não é suficiente
A comunidade internacional prometeu 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros) em ajuda às organizações humanitárias no Afeganistão, de acordo com a ONU, embora não tenha dito quanto seria atribuído à ajuda de emergência.


A CNN aponta que pouca dessa ajuda foi direcionada aos mais necessitados. A Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas disse esta semana que o apelo urgente lançado no mês passado de 606 milhões de dólares para os mais vulneráveis no Afeganistão foi financiado em apenas 35 por cento.

O Fundo Global e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estão a tentar colmatar estas lacunas fornecendo 15 milhões de dólares (13 milhões de euros) para ajudar a manter algumas das unidades de saúde abertas no Afeganistão.

Peter Sands, diretor executivo do Fundo Global, diz que o financiamento ajudará a "garantir que as populações mais vulneráveis - principalmente mulheres e meninas - continuem a ter acesso seguro a serviços essenciais de saúde".

Já para Bahman Shahi, estas medidas permitirão, na melhor das hipóteses, “tapar alguns buracos”, já que a comunidade internacional permanece relutante em transferir fundos para o Governo dos talibãs.

c/agências
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