Alain Gresh e o conflito no Médio Oriente. "Enquanto houver ocupação, haverá resistência"

por José Manuel Rosendo - RTP

Alain Gresh acompanha e escreve sobre o Médio Oriente há cerca de 50 anos. Foi diretor do Le Monde Diplomatique, com o qual continua a colaborar, e é agora diretor do Orient XXI, jornal online sobre o Médio Oriente e também do Afrique XXI. Tem vários livros publicados, principalmente sobre o mundo árabe e o mundo islâmico. As opiniões que expressa afastam-no dos palcos dos media dominantes. Ele sabe disso e ri-se quando lhe perguntamos como responde à acusação de ser pró-palestiniano e "islamo-gauchiste". Mas responde.

Num artigo na edição de novembro do jornal Le Monde Diplomatique, Alain Gresh afirma que nos escombros fumegantes da Faixa de Gaza está a crescer a próxima geração de combatentes palestinianos, mais determinada do que a anterior, com o coração cheio de raiva e um ódio inextinguível.

A pergunta impõe-se: é impossível acabar com o Hamas? Gresh lembra que já em 2006, a vitória do Hamas nas eleições palestinianas foi a expressão do fracasso do processo de paz e é esse fracasso que dá poder ao Hamas. A Fatah, força política que domina a Autoridade Palestiniana apostou nas negociações e na diplomacia e essa aposta falhou. E acrescenta que o terrorismo não surge do nada, mas sim do impasse político e da ocupação.

“A não resolução do problema cria a base da radicalização e do ódio. Israel diz que os palestinianos crescem no ódio a Israel, mas os palestinianos, diariamente – estamos a ver isso agora na Cisjordânia – são confrontados com a brutalidade da repressão israelita. É isso que cria o ódio, não é a ideologia. E enquanto tivermos esta situação de ocupação, teremos forma de resistência”.

Lembra também o aviso feito pelo antigo presidente francês, Charles de Gaulle, durante uma conferência de imprensa após a vitória de Israel na guerra de 1967: “’Israel organiza a ocupação nos territórios (palestinianos) que controla; a ocupação não se pode concretizar sem prisões arbitrárias e expulsões, o que dá lugar a uma resistência, a que Israel chama de terrorismo’. Ele resumiu tudo”. Foi há 56 anos.
Hamas, terrorista?
Alain Gresh discorda da classificação de terrorista aplicada ao Hamas pela União Europeia e pelos Estados Unidos e lembra que a ONU e muitos outros países não enveredaram por esse caminho. Desde logo porque essa classificação impede os contactos e eventuais negociações e também porque “nenhuma organização tem como objetivo o terrorismo".

"Pode ser uma organização comunista, socialista, fascista… têm um projeto de sociedade, mas ninguém tem o terrorismo como projeto. O terrorismo é um método de luta”.

Quanto ao que o Hamas fez no ataque de 7 de outubro, não tem dúvidas.

"Há um aspeto militar, significa que mataram 350 soldados e tomaram o controlo de meia dezena de bases militares, daí ser uma operação militar, com crimes e ações que podemos qualificar de terroristas porque houve ataques contra civis. Não estou dentro da cabeça do Hamas, mas o objetivo, posso dizer, foi o de recolocar a questão palestiniana no coração da política, e conseguiram", considera.

Por outro lado, havia também o objetivo de "quebrar a aproximação entre Israel e os países árabes, algo que em parte também conseguiram".

"Há uma certa lógica política mesmo que, evidentemente, condenemos as atrocidades cometidas. Se pensarmos que as ações contra civis são ações de terror, o que dizer da morte de 15.000 civis, em Gaza, entre os quais há 5.000 ou 6.000 crianças? O problema quando utilizamos a expressão terrorismo, massacre, etc., estamos na diabolização do outro. Se defendemos o Direito Internacional Humanitário é preciso que se aplique a todos”, defende.

Quanto à comparação do Hamas à organização Estado islâmico, feita por Benjamin Netanyahu logo após o ataque de 7 de outubro, e acompanhada por vários líderes internacionais, Alain Gresh considera que não faz sentido.

“Recordemos que foi (Ariel) Sharon [antigo primeiro-ministro de Israel] em 2001, que dizia aos americanos que eles tinham Bin Laden e Israel tinha (Yasser) Arafat. Há sempre essa tentativa de diabolizar. O jornal que eu dirijo, Orient XXI, fez um longo artigo para explicar que a comparação entre o Hamas e o Estado Islâmico não faz qualquer sentido. O Hamas não é uma organização internacional, é mobilizada exclusivamente pela questão palestiniana, é nacionalista, com um verniz islâmico, porque se trata de uma sociedade em que o Islão tem muito peso, mas o único objetivo é a libertação da Palestina e não o de levar a guerra para os Estados Unidos ou para a Europa", argumenta. 
A Palestina vista de fora
A intervenção da chamada comunidade internacional também merece a crítica de Alain Gresh. Por um lado a inação, durante décadas, que permitiu a Israel criar e expandir colunatos, “a Cisjordânia já não é um território contínuo, é uma espécie de arquipélago de pequenas aldeias e cidades palestinianas cercadas por colonatos e de terras controladas pelos israelitas”.

Por outro lado há um paradoxo: “Os ocidentais não param de proclamar a sua solidariedade para com Israel ao mesmo tempo que Israel recusa a solução política e diplomática que os mesmos ocidentais defendem. Hoje, não é o Hamas o principal obstáculo a uma solução política, é o governo de Israel e di-lo abertamente. Há 20 ou 25 anos poderíamos dizer que Israel admitia um Estado palestiniano, mas hoje dizem claramente que não querem um Estado palestiniano. Netanyahu mostrou na ONU um mapa da região, tal como ele a sonha, onde não existe Palestina e Israel ocupa todo o território”.

Sobre esta guerra na Faixa de Gaza, o antigo diretor do Le Monde Diplomatique diz que poderia esperar-se mais do secretário-geral da ONU, mas admite que António Guterres tem estado bem, atendendo ao melindre do cargo.

Já sobre a chamada comunidade internacional e em particular os países ocidentais, lembra algo que considera absurdo.

“O que se passou em 2006 após a vitória (eleitoral) do Hamas foi alucinante. A União Europeia e os ocidentais fizeram pressão sobre os palestinianos para fazerem eleições. Eles fizeram e foram as eleições mais livres que alguma vez foi possível imaginar. Foi o que disseram todos os observadores. Mas foi o Hamas que venceu e então o que disseram os ocidentais? Está bem, vocês votaram, mas como votaram mal nós cortamos todas as relações com vocês. Imagine-se o que isto significa quando queremos defender os valores da democracia”, refere.
Não há solução à vista
Neste momento, Alain Gresh considera que os Acordos de Oslo estão mortos. Há caminho feito, mas a situação é muito diferente.

“O problema é com quem negociamos e o que negociamos. Hoje, existe um governo em Israel que recusa a negociação. É preciso lembrar isto. Um Governo que diz claramente que a Palestina não existe. É gente que está à direita dos fascistas. São racistas, é gente que pensa que os judeus em Israel têm mais direitos do que os árabes. É verdadeiramente uma ideologia racista que os países europeus recusam em todos os outros países, mas que aceitam a este governo de Israel”.

Prever o que pode acontecer na Faixa de Gaza é tremendamente difícil e depende de inúmeros factores e protagonistas, sendo a posição de Israel a que já ficou referida nesta entrevista.

Do lado palestiniano, o presidente da Autoridade Palestiniana parece estar num beco sem saída: “Mahmood Abbas já não tem o respeito e não tem qualquer autoridade (…) politicamente qual é o problema? Mahmood Abbas não tem uma solução. Diz que é preciso negociar e regressar aos Acordos de Oslo, mas o problema é que não tem interlocutor”.

Alain Gresh acredita que “ o Hamas pensa que poderá substituir a OLP (Organização de Libertação da Palestina) e ser o representante dos palestinianos. Penso que isso não acontecerá, mas pode explicar algumas das suas acções para poderem dizer: nós somos a direcção do movimento nacional palestiniano”.
Pró-palestiniano?
Finalmente, respondendo às críticas com que tentam estigmatizá-lo, Alain Gresh, tem a resposta pronta: “Quando dizem que sou pró-palestiniano digo que não penso que os palestinianos sejam um povo à parte, melhores que os israelitas ou do que outros. Sou pelo Direito Internacional e o Direito Internacional diz que há uma ocupação e um povo que luta contra a ocupação. Os palestinianos dizem muitas vezes, quando os acusam de ser antissemitas – que se os colonos fossem chineses seriam combatidos da mesma forma".

Quanto a ser islamo-esquerdista, Alain Gresh realça que esse é "um conceito que não significa nada".

"É apenas uma forma de diabolizar pessoas que pensam que há islamofobia na sociedade ocidental e que precisa de ser combatida. Penso que actualmente o racismo essencial na sociedade ocidental é o racismo anti-muçulmano, sendo que o muçulmano não é uma raça. Sem desenvolver muito o assunto, a vantagem de alguém atacar o Islão é de poder dizer que é contra uma religião, não contra uma raça, e ao mesmo tempo isso não significa um ataque aos árabes. Na realidade, hoje, é a mesma coisa. Ao promover a luta contra o Islão, promove-se uma política racista, uma política anti-árabe, particularmente em França, algo que vem da colonização da Argélia e que continua presente", conclui. 
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