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Aleksander Dvornikov. Putin entrega comando da guerra na Ucrânia a general "carniceiro da Síria"
Para tentar virar o rumo do conflito na Ucrânia, o presidente russo chamou Aleksandr Dvornikov, um militar da velha guarda, de 60 anos e a quem chama "herói", atual comandante do Distrito Militar do Sul do Exército russo e líder das operações militares da Rússia na Síria entre 2015 e 2016, onde consolidou a reputação de procurar a vitória a qualquer preço.
As tropas sob o seu comando ficaram conhecidas por abusos generalizados contra as populações civis sírias e foram acusadas frequentemente de crimes contra a humanidade. A NBC chamou-lhe o “carniceiro da Síria”. Militar de carreira, Dvornikov começou a destacar-se ao comandar um pelotão de infantaria em 1982, lutou na segunda guerra da Chechénia e assumiu vários postos de comando em toda a Rússia antes de lhe ser entregue o comando combinado aéreo e terrestre das tropas russas na Síria, entre 2015 e 2016. Depos disso foi nomeado comandante do Distrito Militar do Sul.
Nascido a 22 de agosto de 1961, em Ussuryisk, 98 quilómetros a norte de Vladivostok e a 60 quilómetros tanto da fronteira com a China como do Oceano Pacífico, o coronel-general é considerado “velha escola” e nacionalista das pontas do cabelo às unhas dos pés.
É ainda fiel militarmente à ideologia soviética que via sem problemas as perdas civis massivas como forma de conquistar e manter terreno. As suas proezas militares já lhe valeram diversas medalhas, algumas entregues pelo próprio Putin.
Um "típico general russo"
Para o tenente-general na reserva Mark Hertling, ex-comandante em chefe das tropas norte-americanas na Europa e no 7º exército, Dvornikov é um “típico general russo” que “frequentou todas as escolas certas”. E está convicto de que vai aplicar o mesmo tipo de táticas verificadas desde o início da invasão da Ucrânia.
“É um indivíduo que vai prosseguir aquilo a que temos vindo a assistir nas últimas semanas”, afirmou Hertling à CNN. O general “conhece muito bem a região”, uma vez que comanda o Distrito Militar do Sul do exército russo que engloba a Chechénia, a Ossétia do Norte e a Crimeia e, “pela forma como comandou operações no passado”, podem-se esperar “muitas execuções, ataques a civis, destruição de alvos civis e caos entre as populações”, táticas usadas por Dvornikov tanto na Síria como em Grozny.
“Vai-lhe ser pedido sucesso até à data limite de nove de maio com a grande parada militar russa” em que se comemora o Dia da Vitória sobre a Alemanha na II Guerra Mundial, afirmou Hertling. “Se o vai conseguir ou não, logo se verá, pois ele não tem muitas tropas”, acrescentou. De lembrar que os separatistas russos, apoiados militarmente e financeiramente por Moscovo, tentaram em vão desde 2014 assumir o controlo do leste da Ucrânia.
Sob Dvornikov, o comando e o controlo global das operações invasivas russas deverão “melhorar”, afirmou à BBC um responsável ocidental sob anonimato, até pela grande experiência adquirida pelo general na Síria.
O cumprimento da missão de conquista do Donbass, no leste da Ucrânia, antes de avançar sobre Kiev, é muito mais incerto, referiu ainda, “a menos que a Rússia consiga mudar de táticas”. A Ucrânia não é a Síria e os ucranianos estão mais preparados e armados do que os rebeldes sírios.
Além disso, a Rússia ainda não conquistou a supremacia aérea de que goza na Síria. Há aliás relatos de que cinco pilotos russos veteranos da guerra síria foram abatidos na Ucrânia.
"Herói da Federação Russa"
Para Vladimir Putin este é o homem certo para a tarefa ucraniana. Não é a primeira vez que o escolhe para uma missão espinhosa.
Em 2015, o presidente russo confiou-lhe a intervenção de Moscovo para evitar a derrota das forças sírias leais ao presidente Bashar al-Assad pelos rebeldes apoiados pelo ocidente e pelas nações sunitas, com o presidente russo a justificar a intervenção com o combate aos "terroristas" de Idlib.
Neste período, as forças armadas russas testaram no terreno diverso armamento. “Cerca de 320 armas” revelou em 2021 o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu.
Foi esta frieza perante o destino dos alvos que permitiu também a Dvornikov ordenar o bombardeamento impiedoso de cidades inteiras, como Alepo. A falta de escrúpulos valeu-lhe o título “Herói da Federação Russa” e a promoção a general outorgada pelo próprio Putin em 23 de junho de 2020. Comanda desde 2016 o Distrito Militar do Sul do exército russo, que engloba o Mar Negro e a Crimeia. De acordo com responsáveis norte-americanos, incluindo o conselheiro para a Segurança Nacional Jake Sullivan, terá sido Dvornikov a ordenar o ataque à estação ucraniana de Kramatorsk, cuja autoria é negada por Moscovo e que fez pelo menos 52 mortos, na maioria mulheres, crianças e idosos, além de 300 feridos.
O almirante na reserva James G. Stavridis acredita que a nomeação de Dvornikov anuncia uma guerra ainda mais sangrenta e cruel na Ucrânia, que poderá durar “meses, se não anos”.
Na Síria, a primeira ação de Dvornikov foi estabelecer uma base aérea na costa noroeste, de onde partiram bombardeiros que arrasaram cidades e vilas em toda a província de Idlib, quase sem oposição devido às baterias anti-aéreas ali instaladas pelas forças russas.
A queda da segunda maior cidade síria, Alepo, ficou a dever-se essencialmente aos ataques aéreos russos a partir da base de Hmmeim, e que de forma rotineira arrasaram hospitais, escolas, filas para o pão e outros pilares essenciais à vida quotidiana.
A queda da segunda maior cidade síria, Alepo, ficou a dever-se essencialmente aos ataques aéreos russos a partir da base de Hmmeim, e que de forma rotineira arrasaram hospitais, escolas, filas para o pão e outros pilares essenciais à vida quotidiana.
Dvornikov é ainda responsável por ataques contra o Estado Islâmico no leste da Síria. A propaganda russa misturou os alvos, rebeldes e islamitas, considerando-os um só, com Moscovo a negar sempre os ataques às posições civis como meio de aterrorizar as populações e submetê-las.
A intervenção russa liderada por Dvornikov virou a guerra a favor de Assad, sem grande escrutínio das táticas russas, e valeu ao responsável as boas graças de Putin, que espera agora igual sucesso.