Mundo
Aliança entre Trump e Bolsonaro poderá afectar as eleições no Brasil
Uma reportagem do New York Times expõe como Donald Trump e os seus aliados estão a procurar replicar a sua estratégia eleitoral nas eleições do Brasil de 2022, ao ajudarem a difundir a tese de fraude eleitoral, já muito defendida por Bolsonaro. A mesma estratégia levou ao assalto ao Capitólio nos EUA, que provocou cinco mortos. No Brasil, especialistas alertam que a situação poderá ficar ainda mais “fora do controlo”.
Com as sondagens desfavoráveis e debaixo de uma investigação aos alegados crimes cometidos durante a pandemia, o presidente do Brasil não perde tempo e já questiona a legitimidade das eleições do próximo ano, tendo já ameaçado não entregar a faixa presidencial caso as eleições sejam fraudulentas.
Qualquer semelhança com as eleições nos Estados Unidos de 2020 não é pura coincidência, já que, segundo o New York Times (NYT), Donald Trump está a ajudar Jair Bolsonaro a replicar a sua estratégia, que consistiu em alegar fraude eleitoral para tentar reverter o resultado das eleições presidenciais de 2020, que deram a vitória ao seu rival democrata, Joe Biden.
Segundo o jornal norte-americano, Trump e os seus aliados têm vindo a ajudar Bolsonaro a difundir as suas reivindicações, ao rotularem os seus rivais políticos de criminosos e comunistas e ao tentarem ajudar a semear a dúvida sobre o processo eleitoral brasileiro, principalmente com o auxílio de redes sociais conservadoras.
Durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no Brasil, um evento político organizado pelos conservadores norte-americanos que decorre todos os anos nos EUA, o filho do ex-presidente dos EUA, Donald Trump Jr., disse aos elementos do público que, se eles não acreditavam que os chineses pretendem minar as eleições no Brasil, então “não têm prestado atenção”.
Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump, apelidou o rival de Bolsonaro, o ex-presidente Lula da Silva, de “transnacional, criminoso marxista” e rotulou-o como “o esquerdista mais perigoso do mundo”.
Após a sua apresentação, Bannon declarou: “Bolsonaro vai ganhar”, exceto "se as eleições forem roubadas pelas máquinas”.
Os comentários de Bannon e de Trump Jr. foram traduzidos para português e partilhados no Facebook. Foram vistos mais de 330 mil vezes.
A influência das redes sociais conservadoras
O NYT destaca ainda o papel das redes sociais conservadoras, administradas por aliados de Trump, na disseminação de notícias falsas relacionadas com fraude eleitoral no Brasil. Entre as principais encontram-se Gettr e Parler – duas redes sociais que cresceram exponencialmente no Brasil depois de prometerem ser um portal de notícias sem filtros para as pessoas que acreditam que as vozes conservadoras estão a ser silenciadas nas redes sociais mais conhecidas, como o Facebook e Twitter.
O presidente executivo da Gettr, Jason Miller, foi porta-voz de Donald Trump e afirmou ao NYT que a atividade do presidente Bolsonaro e dos seus filhos na rede social dera um grande impulso ao negócio. A aplicação, que foi criada há apenas quatro meses, já conta com cerca de 500 mil utilizadores no Brasil, o que corresponde a 15% dos seus utilizados e ao seu segundo maior mercado, depois dos EUA.
O Brasil é também o segundo principal mercado da Parler. Ambas as empresas patrocinaram a CPAC no Brasil.
“No Brasil, isto pode ficar fora de controlo”
Nas últimas semanas, o presidente brasileiro tem repetido a tese infundada de fraude eleitoral nas eleições anteriores, apesar de admitir que não existem provas. No Brasil, o voto é eletrónico e apesar de não existirem indícios de fraude desde que foi implementado, em 1996, Bolsonaro tem insistido que este sistema possibilita resultados fraudulentos e defende o voto impresso.
Diego Aranha, um informático especialista nos sistemas eleitorais do Brasil, afirma que o sistema brasileiro torna as eleições mais vulneráveis a ataques, mas ressalva que não existem, até hoje, evidências de fraude. “Bolsonaro transformou uma questão técnica numa arma política”, defende.
O presidente do Brasil tem reiterado que não haverá disputa eleitoral em 2022 se não existirem “eleições limpas”. "Eu entrego a faixa presidencial para qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não! Não podemos enfrentar eleições no ano que vem com essa urna que não é aceite em país nenhum do mundo”, disse o presidente brasileiro em julho deste ano.
Mas Bolsonaro, que é apelidado de "Donald Trump da América do Sul", já tinha alertado para as consequências da fraude eleitoral logo após a invasão ao Capitólio nos EUA, a 6 de janeiro, que foi o resultado das várias acusações de fraude eleitoral por parte de Trump. O presidente brasileiro alertou que o Brasil “teria um problema maior” se não mudasse os próprios sistemas eleitorais.
“Bolsonaro já está a colocar na cabeça das pessoas que não aceitará o resultado das eleições caso perca”, disse David Nemer ao NYT, um professor brasileiro da Universidade da Virgínia que estuda a extrema-direita do país. “No Brasil, isto pode ficar fora do controlo”, alertou Nemer, ao sugerir que se tal vier a ocorrer, as consequências poderão ser piores do que o Ataque ao Capitólio nos EUA, que provocou cinco mortos. “O que me preocupa é o quão frágeis são as nossas instituições democráticas”, acrescenta Nemer.
Para o presidente brasileiro, o apoio dos Estados Unidos neste assunto chega numa altura crucial, uma vez que se encontra cada vez mais isolado no cenário mundial e no próprio país, com as sondagens a mostrarem resultados que não lhe são favoráveis. De acordo com as sondagens mais recentes, Lula da Silva é o claro favorito nas presidenciais de 2022, com intenção de voto perto de 50%, enquanto Bolsonaro não passa dos 30%.
Para além disso, Bolsonaro ficou com a sua imagem manchada após a política adotada durante a pandemia, que foi a causa de morte de mais de 610 mil brasileiros. O presidente do Brasil foi mesmo indiciado em nove crimes pela comissão parlamentar de inquérito do senado à Covid-19.
O nome Trump é, por isso, “um grito de guerra” para a direita no Brasil, afirma o NYT.
Qualquer semelhança com as eleições nos Estados Unidos de 2020 não é pura coincidência, já que, segundo o New York Times (NYT), Donald Trump está a ajudar Jair Bolsonaro a replicar a sua estratégia, que consistiu em alegar fraude eleitoral para tentar reverter o resultado das eleições presidenciais de 2020, que deram a vitória ao seu rival democrata, Joe Biden.
Segundo o jornal norte-americano, Trump e os seus aliados têm vindo a ajudar Bolsonaro a difundir as suas reivindicações, ao rotularem os seus rivais políticos de criminosos e comunistas e ao tentarem ajudar a semear a dúvida sobre o processo eleitoral brasileiro, principalmente com o auxílio de redes sociais conservadoras.
Durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no Brasil, um evento político organizado pelos conservadores norte-americanos que decorre todos os anos nos EUA, o filho do ex-presidente dos EUA, Donald Trump Jr., disse aos elementos do público que, se eles não acreditavam que os chineses pretendem minar as eleições no Brasil, então “não têm prestado atenção”.
Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump, apelidou o rival de Bolsonaro, o ex-presidente Lula da Silva, de “transnacional, criminoso marxista” e rotulou-o como “o esquerdista mais perigoso do mundo”.
Após a sua apresentação, Bannon declarou: “Bolsonaro vai ganhar”, exceto "se as eleições forem roubadas pelas máquinas”.
Os comentários de Bannon e de Trump Jr. foram traduzidos para português e partilhados no Facebook. Foram vistos mais de 330 mil vezes.
A influência das redes sociais conservadoras
O NYT destaca ainda o papel das redes sociais conservadoras, administradas por aliados de Trump, na disseminação de notícias falsas relacionadas com fraude eleitoral no Brasil. Entre as principais encontram-se Gettr e Parler – duas redes sociais que cresceram exponencialmente no Brasil depois de prometerem ser um portal de notícias sem filtros para as pessoas que acreditam que as vozes conservadoras estão a ser silenciadas nas redes sociais mais conhecidas, como o Facebook e Twitter.
O presidente executivo da Gettr, Jason Miller, foi porta-voz de Donald Trump e afirmou ao NYT que a atividade do presidente Bolsonaro e dos seus filhos na rede social dera um grande impulso ao negócio. A aplicação, que foi criada há apenas quatro meses, já conta com cerca de 500 mil utilizadores no Brasil, o que corresponde a 15% dos seus utilizados e ao seu segundo maior mercado, depois dos EUA.
O Brasil é também o segundo principal mercado da Parler. Ambas as empresas patrocinaram a CPAC no Brasil.
“No Brasil, isto pode ficar fora de controlo”
Nas últimas semanas, o presidente brasileiro tem repetido a tese infundada de fraude eleitoral nas eleições anteriores, apesar de admitir que não existem provas. No Brasil, o voto é eletrónico e apesar de não existirem indícios de fraude desde que foi implementado, em 1996, Bolsonaro tem insistido que este sistema possibilita resultados fraudulentos e defende o voto impresso.
Diego Aranha, um informático especialista nos sistemas eleitorais do Brasil, afirma que o sistema brasileiro torna as eleições mais vulneráveis a ataques, mas ressalva que não existem, até hoje, evidências de fraude. “Bolsonaro transformou uma questão técnica numa arma política”, defende.
O presidente do Brasil tem reiterado que não haverá disputa eleitoral em 2022 se não existirem “eleições limpas”. "Eu entrego a faixa presidencial para qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não! Não podemos enfrentar eleições no ano que vem com essa urna que não é aceite em país nenhum do mundo”, disse o presidente brasileiro em julho deste ano.
Mas Bolsonaro, que é apelidado de "Donald Trump da América do Sul", já tinha alertado para as consequências da fraude eleitoral logo após a invasão ao Capitólio nos EUA, a 6 de janeiro, que foi o resultado das várias acusações de fraude eleitoral por parte de Trump. O presidente brasileiro alertou que o Brasil “teria um problema maior” se não mudasse os próprios sistemas eleitorais.
“Bolsonaro já está a colocar na cabeça das pessoas que não aceitará o resultado das eleições caso perca”, disse David Nemer ao NYT, um professor brasileiro da Universidade da Virgínia que estuda a extrema-direita do país. “No Brasil, isto pode ficar fora do controlo”, alertou Nemer, ao sugerir que se tal vier a ocorrer, as consequências poderão ser piores do que o Ataque ao Capitólio nos EUA, que provocou cinco mortos. “O que me preocupa é o quão frágeis são as nossas instituições democráticas”, acrescenta Nemer.
Para o presidente brasileiro, o apoio dos Estados Unidos neste assunto chega numa altura crucial, uma vez que se encontra cada vez mais isolado no cenário mundial e no próprio país, com as sondagens a mostrarem resultados que não lhe são favoráveis. De acordo com as sondagens mais recentes, Lula da Silva é o claro favorito nas presidenciais de 2022, com intenção de voto perto de 50%, enquanto Bolsonaro não passa dos 30%.
Para além disso, Bolsonaro ficou com a sua imagem manchada após a política adotada durante a pandemia, que foi a causa de morte de mais de 610 mil brasileiros. O presidente do Brasil foi mesmo indiciado em nove crimes pela comissão parlamentar de inquérito do senado à Covid-19.
O nome Trump é, por isso, “um grito de guerra” para a direita no Brasil, afirma o NYT.