Alta tensão em Hamburgo para a Cimeira do G20

Desde 2008 que uma Cimeira mundial como a da próxima sexta-feira e sábado, em Hamburgo, não gerava um tal clima de tensão, tanto entre as delegações como na rua. E os confrontos já começaram.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Manifestantes frente ao edifício Rote Flora em Schanzenviertel antes da cimeira do G20 em Hamburgo Hannibal Hanschke - Reuters

A violência na rua tem ocorrido no desmantelamento à força, com recurso a canhões de água e a gás irritante, de campos de tendas montados por centenas de activistas em parques públicos.

Domingo deram-se os primeiros confrontos, nas margens do rio Elba, que deveria ser o campo base e que albergava já cerca de 600 pessoas.

Os activistas tentaram depois aparentemente instalar-se num parque de Altona, tendo começado a bloquear as estradas no bairro de Sankt-Pauli. Nas tendas estava pintado o desafio "Yes we camp" ('sim acampamos'). Durante algumas horas puderam descansar mas, pouco antes da meia-noite de terça-feira e sob violento protesto, foram dispersados pelas autoridades.

A polícia de Hamburgo usou canhões de água para dispersar centenas de activistas que tentavam acampar sem autorização num parque da cidade, antes da cimeira do G20 Foto: Reuters

"Não é uma concentração legal mas sim um acampamento selvagem num parque", justificou a polícia. A instalação de um campo de manifestantes na cidade já tinha sido objeto de uma batalha jurídica antes do G20.As autoridades esperam a presença de cerca de100 mil manifestantes, dos quais sete mil a oito mil extremistas de esquerda, extremamente violentos. Estão destacados 20 mil agentes para garantir a segurança.

Terça-feira, a polícia alemã anunciou a apreensão, dentro e nos arredores de Hamburgo, de facas, de bastões de basebol, de máscaras de gás e de recipientes, que iriam ser alegadamente cheias de líquidos inflamáveis e usados durante os protestos.

A polícia reconhece contudo que esta será apenas uma pequena parte das armas que deverão ter sido armazenadas para usar nos distúrbios.

Um aspecto do material apreendido pela polícia de Hambuirgo dias antes da cimeira do G20 Foto: Reuters

"Há provas de que os atos de violência que esperávamos à volta da Cimeira do G20 se irão realizar", referiu o comissário chefe da polícia de Hamburgo, Ralf Martin Meyer.

As forças armadas alemãs proibiram entretanto os militares de andarem fardados fora das horas de serviço ou nas idas e vindas para os quartéis, enquanto durar o G20, por recear que possam ser alvos de ataques espontâneos.

As autoridades não esperam, contudo, nenhum ataque terrorista organizado nem de cariz islamita.

O ministro da Administração Interna da Alemanha, Thomas de Maiziere, afirmou, durante uma visita à cidade antes do G20, que todos os protestos pacíficos são bem-vindos e autorizados numa democracia mas que os manifestantes violentos não podem invocar o direito à liberdade de assembleia e serão reprimidos.

O ministro alemão da Administração Interna, Thomas de Maiziere, reuniu-se com as chefias de segurança e da cidade de Hamburgo dias antes da cimeira do G20 Foto: Reuters

"Nenhum manifestante pode determinar se e quando os líderes de Estados e de Governo se reúnem na Alemanha a convite da Chanceler", afirmou Maiziere, garantindo que a cimeira não será afetada pelos protestos.

Ameaça norte-coreana e Turquia
Não é só na rua que o ambiente pode aquecer. Entre as delegações, anunciam-se vários pontos de fricção e conflito. Desde logo, a nível bilateral.

O mais recente teste com mísseis da Coreia do Norte, que esta terça-feira, numa provocação evidente aos Estados Unidos no seu dia da Independência, lançou pela primeira vez e com sucesso, um míssil balístico intercontinental, poderá vir a dominar todas as conversas.

Tanto a Coreia do Sul como os Estados Unidos lançaram já eles próprios, mísseis para o Mar do Japão, numa demonstração de força e uma escalada de violência na região é abertamente admitida.

A China apelou entretanto Pyongyang a respeitar as resoluções da ONU que obrigam o regime a parar com os testes.

Os encontros entre o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já prometeu uma resposta firme à Coreia do Norte, com o Presidente chinês Xi Jinping, aliado tradicional do regime norte-coreano, anunciam-se assim difíceis, agravados ainda pela recente passagem de um navio de guerra norte-americano no Mar da China.
Trump deverá reunir-se com o Presidente Vladimir Putin. Moscovo já disse que Putin espera relançar o diálogo sobre a luta conjunta contra o terrorismo islamita na Síria e explicar a Trump a sua estratégia na Ucrânia.
Esta quarta-feira, numa publicação na sua conta oficial da rede Twitter, Donald Trump deixou um sinal negativo quanto a uma eventual futura  cooperação com Pequim quanto a Pyongyang, ao apontar o dedo ao crescimento económico entre os dois países.

"O comércio entre a China e a Coreia do Norte cresceu quase 40 por cento no primeiro trimestre", escreveu o Presidente dos EUA.

"Assim se vê como a China coopera connosco. Mas tiínhamos de tentar", acrescenta.

Outro foco de tensão poderá ser o confronto entre a Chanceler alemã Angela Merkel e o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Desde um alegado golpe de Estado na Turquia, em julho de 2016, que acabou por servir de pretexto para Erdogan reforçar o seu poder, que as relações entre os dois países se têm agravado.

Erdogan tentou fazer campanha junto da grande comunidade turca alemã mas foi impedido pelas autoridades locais e federais alemãs.

Na semana passada foi a vez de Berlim a irritar Ancara, ao impedir o Presidente turco de se dirigir aos seus conterrâneos à margem do G20. Ao fim da manhã de quarta-feira os dois Governos anunciaram uma reunião bilateral entre Merkel e Erdogan durante a cimeira.

A chanceler alemã Angela Merkel, na recepção aos primeiros líderes que irão participar na cimeira do g20, dias 7 e 8 de julho, em Hamburgo, Foto: Reuters
Clima...
As mudanças climáticas são outro ponto crítico na agenda, sobretudo depois dos Estados Unidos se terem retirado do acordo de Paris, dia 1 de junho. Uma decisão que forçou a Alemanha a assumir as rédeas do problema e apresentar um "plano de ação" para colocar em prática o documento concluído em finais de 2015 e alegadamente destinado a conter o aumento da temperatura média global.

O Japão tem sido um aliado alemão nesta luta e ainda esta quarta-feira, o primeiro-ministro Shinzo Abe escreveu no jornal alemão Handelsblatt que, "o aquecimento global já começou a manifestar-se na Terra, que sustenta toda a vida humana, através de várias crises durante um longo período temporal."

As mudanças climáticas irão influenciar as futuras gerações e cabe à actual assumir responsabilidade para as evitar, defendeu Abe. "Por isso, precisamos de agir rapidamente", concluiu o governante japonês.
   
A própria chanceler apresenta contudo pés de barro nesta questão, como denunciou no fim de semana a Greenpeace, durante uma ação contra um navio de carga chinês de transporte de carvão em Hamburgo.
... e Comércio
Quanto à liberalização do Comércio Mundial, ameaçada aparentemente de morte pela atitude protecionista da nova administração americana, poderá, pelo contrário, receber um novo alento, se Donald Trump mantiver a atitude adotada na cimeira do G7 em Taormina, durante a qual o Presidente norte-americano pareceu aceitar uma fórmula genérica de liberalização comercial mundial.

Numa recente reunião da OCDE em Paris, Trump mostrou-se menos conciliador, nomeadamente com ataque ao excedente comercial alemão, que considerou excessivo.

Num comunicado de segunda-feira, a Casa Branca anunciou ainda pretender colocar em cima da mesa "a sobre-capacidade mundial no aço", de forma a defender a siderurgia americana das investidas do aço chinês de baixo preço.

Os Europeus pretendem por seu lado conseguir um ambicioso acordo comercial que ponha fim às veleidades protecionistas americanas.
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