Argentina apela a "transição democrática genuína" e Panamá apoia Gonzalez

A Argentina apelou hoje a uma "transição democrática genuína" na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, enquanto o Panamá apoiou um governo liderado por Edmundo González, considerado vencedor das presidenciais de 2024. 

Lusa /

Numa reunião do Conselho de Segurança, o embaixador da Argentina nas Nações Unidas, Francisco Tropepi, manifestou o apoio do seu governo à captura do líder do "regime ilegítimo" venezuelano no sábado em Caracas por forças norte-americanas, afirmando que a região enfrenta agora um novo cenário que apresenta um duplo desafio: "apoiar uma transição democrática genuína na Venezuela e contribuir para a restauração duradoura da paz e da segurança". 

A Argentina, adiantou, "está pronta e disposta a colaborar", comprometida com "a plena restauração da ordem institucional e do Estado de Direito na Venezuela, garantindo sempre a liberdade, a dignidade humana e a prosperidade".  

"Estes acontecimentos representam um passo decisivo contra o narcoterrorismo que afeta a região e, ao mesmo tempo, abrem um novo capítulo que permitirá ao povo venezuelano recuperar plenamente a democracia, o Estado de Direito e o respeito pelos direitos humanos, em conformidade com os princípios do direito internacional", adiantou. 

Além disso, afirmou que espera que a detenção de Maduro permita "o fim da opressão exercida durante anos pelo regime autoritário que mergulhou o povo venezuelano na pobreza e obrigou oito milhões de venezuelanos a fugir do país". 

"O regime de Nicolás Maduro não só representou uma ameaça direta aos cidadãos venezuelanos através da violação sistemática dos direitos humanos, da apropriação dos recursos do país e da destruição das instituições democráticas, mas também a toda a região, liderando e exportando as suas redes de narcotráfico e crime organizado", acrescentou o representante argentino. 

O Governo venezuelano é agora liderado Delcy Rodríguez, até agora vice-presidente e nomeada Presidente interina pelo Supremo Tribunal Federal. 

O Presidente o dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Rodríguez terá o seu apoio desde que se "comporte", pondo de parte eleições em breve porque a Venezuela "é um desastre" e precisa ser "preparada".

Na mesma reunião, o embaixador do Panamá nas Nações Unidas, Eloy Alfaro, pediu a formação de um "governo interino com prazo determinado" na Venezuela, para permitir que a presidência seja assumida pelo líder da oposição, Edmundo González Urrutia.

Tal como outros países da região e a generalidade dos países ocidentais, o Panamá considera que González ganhou a Maduro as eleições de julho de 2024, em que as autoridades militares controladas pelo regime declararam Maduro como vencedor. 

O Panamá, cujo mandato de dois anos como membro não permanente do Conselho de Segurança termina em 2026, "faz um apelo claro e firme por um futuro plenamente democrático para a Venezuela a curto prazo", afirmou na ONU o embaixador do país centro-americano. 

O Governo panamiano, liderado pelo presidente José Raúl Mulino, não reconhecerá "qualquer autoridade que não seja a do Presidente eleito", González Urrutia, pois isso "equivaleria a legitimar a fraude eleitoral, normalizar o autoritarismo e minar o princípio universal das eleições livres como fonte de legitimidade", reiterou Alfaro. 

González Urrutia obteve "uma vitória indiscutível com 70% dos votos a 28 de julho de 2024", disse Alfaro, sublinhando que os registos eleitorais que confirmam a sua vitória estão sob custódia no Panamá.  

Lembrou ainda que a líder da oposição, María Corina Machado, vencedora do Prémio Nobel da Paz de 2025, "foi impedida pelo regime de ser candidata presidencial, apesar de ter ganho as primárias com 93% dos votos a 22 de outubro de 2023". 

"A popularidade de ambos os candidatos tem aumentado nos últimos meses, incluindo entre os setores policial e militar. O governo eleito tem as equipas e os programas de trabalho prontos para serem implementados imediatamente, para garantir uma transição ordenada que assegure o Estado de direito, o respeito pelos direitos humanos e a confiança", afirmou. 

O representante panamiano acrescentou que "qualquer tentativa de estabelecer um governo permanente chefiado por figuras do aparelho repressivo, como Delcy Rodríguez, constituiria uma continuação do sistema e não uma transição genuína". 

Os Estados Unidos lançaram no sábado "um ataque em grande escala contra a Venezuela" para capturar e julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.

Maduro e a mulher prestaram hoje breves declarações num tribunal de Nova Iorque para responder às acusações de tráfico de droga, corrupção e branqueamento de capitais e ambos declararam-se inocentes. A próxima audiência está marcada para 17 de março.  

A vice-presidente executiva Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina do país com o apoio das Forças Armadas.

A comunidade internacional dividiu-se entre a condenação ao ataque dos Estados Unidos a Caracas e saudações pela queda de Maduro.

A União Europeia defendeu que a transição política na Venezuela deve incluir os líderes da oposição María Corina Machado e Edmundo González, enquanto o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que a ação militar dos EUA poderá ter "implicações preocupantes" para a região, mostrando-se preocupado com a possível "intensificação da instabilidade interna" na Venezuela.

(Lusa)

Tópicos
PUB