Argentina distancia-se de condenação de regime de Ortega por fraude eleitoral

A Argentina evocou hoje, na Assembleia da Organização dos Estados Americanos (OEA), o princípio de não-ingerência em assuntos internos para evitar condenar a reeleição de Daniel Ortega na Nicarágua, distanciando-se de países que consideraram fraudulento este processo eleitoral.

Lusa /

"Esta postura do atual Governo argentino representa um afastamento do que tem sido a tradição da política externa argentina. Não é a primeira vez, mas nunca foi tão obsceno", disse à Lusa o ex-chanceler argentino, Jorge Faurie (2017-2019).

O processo eleitoral na Nicarágua foi marcado pela prisão de 39 opositores, incluindo sete candidatos à Presidência, assim como jornalistas e empresários.

Considerando fraudulento pelos países da União Europeia, Estados Unidos e outros países e organizações, o processo eleitoral foi reconhecido por Cuba, Venezuela, Bolívia, Rússia e Irão, antes da Argentina.

No segundo dia da reunião virtual da Assembleia Geral da OEA, a Argentina deu um passo que, na prática, se traduz num apoio tácito à ditadura de Daniel Ortega, ao argumentar que questionar as eleições na Nicarágua representa uma intromissão nos assuntos internos de outro país.

Para suavizar a posição, o governo argentino apontou uma "preocupação" com a prisão de políticos opositores ao regime, mas, na hora de votar pela suspensão da Nicarágua por violar a Carta Democrática Interamericana, a Argentina deverá optar pela abstenção, reconhecendo, implicitamente, um novo mandato de Ortega.

"É claro que o respeito pela não-intervenção, acompanhada pelo diálogo entre os nossos governos, não pode ignorar a violação dos direitos humanos. Em particular, os direitos políticos num contexto de eleições", ponderou o chanceler argentino, Santiago Cafiero, durante o seu discurso.

"Se o governo argentino tem preocupação com os Direitos Humanos, deveria claramente questionar o governo de Ortega e, ao mesmo tempo, deveria contestar as fraudulentas eleições. É uma tragédia que este governo argentino não condene o que acontece na Nicarágua, na Venezuela e em Cuba", critica Faurie, ex-embaixador argentino em Portugal (2002-2013).

O ex-ministro das Relações Exteriores da Argentina faz parte de 40 ex-chanceleres que, numa carta, manifestaram a sua "profunda preocupação com a farsa eleitoral do dia 7 de novembro".

"No exercício arbitrário do poder, o governo Ortega ignorou todos os princípios estabelecidos na Carta Democrática Interamericana e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos", acusaram.

Os 34 países do continente americano (menos Cuba) devem votar a violação da Carta Democrática Interamericana numa votação prevista para esta sexta-feira (12). Para uma suspensão, são necessários 18 votos.

O diretor para as Américas da ONG Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, também criticou que "o caso Nicarágua rompa com a tradição da política exterior argentina em defesa dos valores democráticos e dos Direitos Humanos".

"Trata-se de uma abdicação, por parte do atual governo argentino, daquela que tem sido uma política exterior consistente e coerente da Argentina desde a recuperação da democracia no país (1983). Agora, isso inverte-se com o caso Nicarágua", lamentou.

Vivanco classificou a postura argentina como "um disparate" porque evidencia uma incoerência: evita condenar as manobras de Ortega para se perpetuar no poder, como a prisão dos sete candidatos da oposição à Presidência, mas diz-se preocupado com a prisão desses opositores.

Em nota, a ONG Amnistia Internacional também questionou a Argentina por avalizar as eleições na Nicarágua e recordou que "a defesa dos Direitos Humanos está acima do princípio de não-intervenção em assuntos internos de outro país".

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