Atirador preparava mais um ataque em Toulouse

Mohammed Merah preparava-se para voltar a matar e o alvo era um soldado francês, segundo afirmou às autoridades religiosas judaica e muçulmana o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, durante um encontro em Toulouse. Uma representante da comunidade judaica referiu mesmo que o atirador "tinha previsto voltar a matar esta manhã." Merah é francês de origem argelina e diz que agiu para vingar a morte de "crianças palestinianas" e as ações militares de França no Afeganistão. Três das suas vítimas mortais foram soldados e, destes, dois cumpriram missões no Afeganistão.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Longas horas de espera em Toulouse. Medidas severas de segurança rodeiam o local onde se entrincheirou o suspeito de sete homicídios em 10 dias. Yoan Valat

Durante a homenagem aos soldados assassinados, Nicolas Sarkozy afirmou em Toulouse, que o assassino quis "pôr a República (francesa) de joelhos", ao matar três militares numa "execução terrorista" e quatro judeus. Mas ela "não cedeu", acrescentou o Presidente francês.

A expressão "colocar de joelhos" terá sido usada pelo próprio suspeito, durante negociações para a sua rendição.

Mohammed Merah está cercado num apartamento de Toulouse há várias horas e responde a tiro às tentativas da polícia de entrar no local. Suspeita-se que tenha consigo um verdadeiro arsenal.

A zona foi evacuada e está sob fortes medidas de segurança. Os jornalistas são mantidos à distância, impedidos de captar quaisquer imagens.

Merah afirmou inicialmente que se iria render entre as 14h00 e as 14h30 de quarta-feira e a sua entrega às autoridades chegou a ser noticiada.

O suspeito adiou depois "para a noite" a sua rendição. Mas não deverá atacar nem provocar nenhum ataque. Merah não tem um perfil suicida e "prefere matar e manter-se vivo", afirmou o procurador de França, François Molins.
Operação iniciou-se às 03h00 da madrugada.
Segundo o procurador da República francesa, Mohammed reivindicou já os três ataques, que fizeram sete mortos em 10 dias.

Afirma ainda que agiu sempre sozinho e que "pretendia voltar a agir" e abater um novo soldado, já identificado. Planeava ainda assassinar dois funcionários da polícia da cidade de Toulouse.

Não mostra arrependimento e lamenta apenas não ter conseguido matar mais ninguém, afirma ainda o procurador.

François Molins revelou que, durante a noite de terça-feira, a polícia tentou falar com o suspeito, o irmão e a mãe de ambos.

A segunda tentativa de comunicar com Mohammed, cerca das 3h00 da madrugada, correu mal. Merah disparou sobre os agentes quando eles iam abrir a porta do apartamento.

Segundo o jornal Le Monde, Mohammed Merah terá usado uma kalashnikov para disparar sobre os polícias, dois dos quais ficaram feridos. Iniciaram-se então o cerco e as negociações.
Primeira pista foi a mãe
O Procurador revelou ainda que durante a investigação foram examinados mais de sete milhões de dados telefónicos e 700 conexões de internet.

No fim de semana, o nome da Sra Adiri chamou a atenção dos investigadores, por ser mãe de dois rapazes já conhecidos da polícia, um dos quais, Mohammed Merah, tinha sido condenado 15 vezes pelo Tribunal para a Infância de Toulouse.

A pista dos dois irmãos acelerou na terça-feira, com a análise de vídeos e do perfil de Mohammed enquanto ainda era menor. Mohammed apresentava um perfil de "auto-radicalização salafista típico" e após duas viagens ao Afeganistão, havia sido interpelado pela polícia francesa.
Terceira pista
A terceira peça do puzzle encaixou quando a investigação foi informada por um concessionário da Yamaha de Toulouse, de que tinha sido contactado por um dos irmãos Merah. Este queria saber como poderia desativar o sistema de localização incluído numa scooter que queria pintar.

O autor dos ataques tinha sempre usado uma scooter preta roubada no início de março, para se aproximar das vítimas rapidamente, disparar e fugir em seguida.

O paradeiro de Mohammed Merah foi determinado durante a manhã de terça-feira. A polícia localizou depois durante a tarde, o irmão do suspeito, Abdel Kader.

Ao comentar as negociações em curso para a rendição do suspeito, o ministro francês do interior afirmou que "ele é falador". Claude Guéant acrescentou que Mohammed "explicou com pormenor o seu itinerário" aos polícias, tendo igualmente telefonado a uma jornalista de France24 para reivindicar as mortes.

O suspeito tem comunicado através de um telemóvel que lhe foi entregue pelos agentes mas, não é possível saber se tem outros meios de comunicação consigo no apartamento onde se entrincheirou.
"Especulação"
Mohammed Merah alegou pertencer à al Quaida e ter recebido treino no Waziristão, uma província afegã. Afirmou ainda que queria protestar contra a lei de proibição do véu islâmico em França e contra a participação militar francesa no Afeganistão.

Motivos alegadamente políticos, segundo o ministro francês do interior, Claude Guéant, desmentido entretanto pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Alain Juppé, que classifica tais comentários de "especulação."

"Este indivíduo diz ser da Al Quaida. E dois dos soldados mortos serviram efetivamente no Afeganistão. Estes são os factos. Quanto à sua interpretação, é preciso esperar," afirmou Juppé.
Suspeito de sete assassínios
A mãe, o irmão e a namorada destes foram detidos e a sua prisão preventiva pode durar seis dias, no quadro de investigações anti-terroristas. Durante as buscas, a polícia descobriu ainda explosivos no carro do irmão de Mohammed, que será igualmente seguidor da ideologia muçulmana salafista.

Mohammed Merah é o principal suspeito de ter assassinado sete pessoas, desde dia 11 de março.

A primeira vítima foi um soldado paraquedista, emboscado em Toulouse e vitimado com um tiro na cabeça. Dia 15, três soldados de um outro regimento foram alvejados à queima roupa ao início da tarde em Montalban, a 50 quilómetros de Toulouse, tendo dois tido morte imediata enquanto o terceiro permanece em estado grave.

Quatro dias depois, numa escalada de violência, o atirador atirou sobre várias pessoas à porta de uma escola judaica, matando três crianças e um professor, cujos corpos foram hoje a sepultar em Israel.
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