Mundo
Audição a Snowden apanha Merkel na pior altura
O cenário de uma possível audição do ex-colaborador da NSA (Agência Nacional de Segurança norte-americana) Edward Snowden em solo alemão está a intrometer-se nos intrincados meandros da negociação conduzida por Angela Merkel para a formação do seu próximo governo. Há uma semana o deputado dos verdes Hans-Christian Ströbele, que integra o grupo parlamentar de controle para os Serviços Secretos, encontrou-se na Rússia com Snowden, de quem escutou o desejo de prestar depoimento na Alemanha. Hipótese que encosta à parede uma chanceler que apesar de escutada insiste em preservar “as relações transatlânticas”.
O assunto da audição alemã a Edward Snowden é retomado esta quarta-feira nas páginas electrónicas do jornal francês Le Monde, num artigo que vê neste dossier “um pesadelo para Merkel”.
Após meses a fugir do assunto Snowden, a chanceler vê-se subitamente envolvida no escândalo como uma das vítimas da NSA, revelação que não podia apanhar Angela Merkel em pior altura - a chefe do executivo alemão procura a todo o custo fechar as negociações com o SDP para a equipa do seu terceiro governo.
Snowden à disposição de Berlim
Os alemães, que estavam relativamente arredados do assunto, são agora puxados para o interior de um escândalo que poderá resultar numa investigação do próprio Bundestag, o que obrigaria, por todos os motivos, a ouvir um Edward Snowden que a isso já se disponibilizou. Na cabeça dos alemães deve estar ainda a revelação do ex-analista americano, em Julho passado, à revista Der Spiegel, do facto de que os serviços secretos alemães conheciam o Prism, o esquema global de espionagem dos Estados Unidos: “[A NSA] estava em conluio com os alemães”, garantiu Snowden.
Visitado em Moscovo pelo deputado ecologista Hans-Christian Ströbele, Snowden acrescentou à sua disponibilidade para falar com os alemães (sobre o Prism mas também sobre as escutas à chanceler Merkel) uma condição: que a audiência seja marcada na Alemanha e que Berlim garanta a sua segurança.
Mas, dese logo, decidir ouvir Snowden quer na Rússia quer na Alemanha é um ponto que abre vias em si minadas por desconfianças e conflitos a nível diplomático. O responsável do SPD Thomas Oppermann já fez saber que “não se pode convocar o senhor Snowden à Alemanha sem que possamos excluir totalmente a hipótese da sua extradição [para os Estados Unidos, onde seria julgado por traição]”.
Uma viagem de Edward Snowden à Alemanha determinaria a imediata cessação do visto de permanência na Rússia.
Neste contexto, Snowden não rejeita a possibilidade de receber asilo político das autoridades de Berlim, mas trata-se de uma solução que não parece aquecer o coração de Merkel, receosa das consequências que isso traria para a relação entre a Alemanha e os Estados Unidos.
Entre o mau e o pior
Restaria assim a entrevista na Rússia, uma alternativa que colocaria nas mãos do Presidente Vladimir Putin a determinação das condições em que se daria o encontro dos responsáveis alemães com o ex-colaborador.
Por outro lado, qualquer destes cenários parece minado, já que ambos conduzem à ideia de que o Governo de Angela Merkel estaria disposto a enfrentar os norte-americanos e Merkel já fez saber que – apesar de ter sido uma as vítimas diretas da espionagem norte-americana – os alemães não podem esquecer que o eixo fundamental da questão é a “primordial importância da relação do país com Washington”.
Asilo na Alemanha fora de questão
A hesitação de Merkel em afrontar os americanos ficou clara quando há dois dias garantiu que não haverá concessão de asilo político ao ex-analista da NSA, seja qual for o cenário definido para a eventual entrevista com os parlamentares alemães.
Trata-se aliás da segunda recusa, já que, num primeiro momento, quando Snowden fez as primeiras revelações sobre o programa Prism e lançou um pedido de asilo político a vários países, Berlim pronunciou-se negativamente. Este argumento foi desfiado no início da semana também pelo porta-voz da chanceler, Steffen Seibert, quando lembrou que, nessa altura, “os ministérios do Interior e do Exterior chegaram por consenso à conclusão de que os pré-requisitos para um acolhimento não estavam preenchidos".
O cenário não é contudo o mesmo dessa primeira formalização do pedido de asilo. Inicialmente, Angela Merkel reprovou a forma como Snowden deu a conhecer o esquema de espionagem, defendendo que o colaborador da NSA deveria ter-se dirigido às autoridades do seu próprio país. Mas agora é a própria chanceler que se vê apontada como um dos alvos da NSA, cujo telemóvel estará sob vigilância há mais de uma década. São desenvolvimentos que colocam o epicentro do dossier Snowden a pairar sobre a Alemanha e põem a sua líder entre a espada e a parede. E é neste contexto que os interesses de parceria com os Estados Unidos parecem para já sobrepor-se a todos os outros valores.
Após meses a fugir do assunto Snowden, a chanceler vê-se subitamente envolvida no escândalo como uma das vítimas da NSA, revelação que não podia apanhar Angela Merkel em pior altura - a chefe do executivo alemão procura a todo o custo fechar as negociações com o SDP para a equipa do seu terceiro governo.
Snowden à disposição de Berlim
Os alemães, que estavam relativamente arredados do assunto, são agora puxados para o interior de um escândalo que poderá resultar numa investigação do próprio Bundestag, o que obrigaria, por todos os motivos, a ouvir um Edward Snowden que a isso já se disponibilizou. Na cabeça dos alemães deve estar ainda a revelação do ex-analista americano, em Julho passado, à revista Der Spiegel, do facto de que os serviços secretos alemães conheciam o Prism, o esquema global de espionagem dos Estados Unidos: “[A NSA] estava em conluio com os alemães”, garantiu Snowden.
Visitado em Moscovo pelo deputado ecologista Hans-Christian Ströbele, Snowden acrescentou à sua disponibilidade para falar com os alemães (sobre o Prism mas também sobre as escutas à chanceler Merkel) uma condição: que a audiência seja marcada na Alemanha e que Berlim garanta a sua segurança.
Mas, dese logo, decidir ouvir Snowden quer na Rússia quer na Alemanha é um ponto que abre vias em si minadas por desconfianças e conflitos a nível diplomático. O responsável do SPD Thomas Oppermann já fez saber que “não se pode convocar o senhor Snowden à Alemanha sem que possamos excluir totalmente a hipótese da sua extradição [para os Estados Unidos, onde seria julgado por traição]”.
Uma viagem de Edward Snowden à Alemanha determinaria a imediata cessação do visto de permanência na Rússia.
Neste contexto, Snowden não rejeita a possibilidade de receber asilo político das autoridades de Berlim, mas trata-se de uma solução que não parece aquecer o coração de Merkel, receosa das consequências que isso traria para a relação entre a Alemanha e os Estados Unidos.
Entre o mau e o pior
Restaria assim a entrevista na Rússia, uma alternativa que colocaria nas mãos do Presidente Vladimir Putin a determinação das condições em que se daria o encontro dos responsáveis alemães com o ex-colaborador.
Por outro lado, qualquer destes cenários parece minado, já que ambos conduzem à ideia de que o Governo de Angela Merkel estaria disposto a enfrentar os norte-americanos e Merkel já fez saber que – apesar de ter sido uma as vítimas diretas da espionagem norte-americana – os alemães não podem esquecer que o eixo fundamental da questão é a “primordial importância da relação do país com Washington”.
Asilo na Alemanha fora de questão
A hesitação de Merkel em afrontar os americanos ficou clara quando há dois dias garantiu que não haverá concessão de asilo político ao ex-analista da NSA, seja qual for o cenário definido para a eventual entrevista com os parlamentares alemães.
Trata-se aliás da segunda recusa, já que, num primeiro momento, quando Snowden fez as primeiras revelações sobre o programa Prism e lançou um pedido de asilo político a vários países, Berlim pronunciou-se negativamente. Este argumento foi desfiado no início da semana também pelo porta-voz da chanceler, Steffen Seibert, quando lembrou que, nessa altura, “os ministérios do Interior e do Exterior chegaram por consenso à conclusão de que os pré-requisitos para um acolhimento não estavam preenchidos".
O cenário não é contudo o mesmo dessa primeira formalização do pedido de asilo. Inicialmente, Angela Merkel reprovou a forma como Snowden deu a conhecer o esquema de espionagem, defendendo que o colaborador da NSA deveria ter-se dirigido às autoridades do seu próprio país. Mas agora é a própria chanceler que se vê apontada como um dos alvos da NSA, cujo telemóvel estará sob vigilância há mais de uma década. São desenvolvimentos que colocam o epicentro do dossier Snowden a pairar sobre a Alemanha e põem a sua líder entre a espada e a parede. E é neste contexto que os interesses de parceria com os Estados Unidos parecem para já sobrepor-se a todos os outros valores.