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Aviso a Donald Trump. Locais culturais do Irão devem ficar a salvo de ataques

Aviso a Donald Trump. Locais culturais do Irão devem ficar a salvo de ataques

A Unesco lembrou aos Estados Unidos os compromissos assinados de respeitar e proteger locais de interesse cultural e civilizacional mesmo em caso de conflito militar, reagindo à ameaça feita pelo Presidente norte-americano de bombardear alvos culturais no Irão, no caso de Teerão atacar interesses ou cidadãos norte-americanos.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um aspecto da entrada da mesquita do bazar histórico de Tabriz Reuters

A diretora-geral da organização das Nações Unidas, Audrey Azoulay, deu voz ao repúdio manifestado na maioria do mundo ocidental pelas ameaças de Donald Trump, e lembrou que o país ao qual este preside "ratificou duas convenções" - de 1945 e de 1972 - sobre a proteção de bens culturais e de património mundial, subscritas tanto pelos Estados Unidos como pelo Irão

Um comunicado da Unesco refere que Azoulay se reuniu com o embaixador iraniano junto da agência para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas, ao lado de quem lembrou os termos dos acordos.

"A Convenção de 1972 prevê nomeadamente que cada uma das partes/Estados se compromete a não adotar deliberadamente nenhuma medida suscetível de prejudicar direta ou indiretamente o património cultural e natural que se situe nos territórios de outros estados subscritores desta convenção", refere o texto publicado esta segunda-feira.

A diretora-geral lembrou ainda "os termos da resolução do Conselho de segurança 2347 adotada por unanimidade em 2017, que condena os atos de destruição do património cultural", acrescenta o texto.O Irão possui cerca de 20 locais classificados como património cultural pela Unesco, incluindo a antiga cidade persa de Persepolis, a cidade Bam, o velho bazar de Tabriz com a sua mesquita e as mesquitas de Isfahan.

A destruição de locais históricos é um crime de guerra à luz das leis internacionais.

O Governo britânico, que disse "não chorar" pela morte de Soleimani, criticou as ameaças de Trump e garantiu que o Reino Unido nunca irá apoiar ataques a locais importantes de patromónio cultural.

Fazendo eco da diretora-geral da Unesco, o porta-voz do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, lembrou a existência de convenções internacionais a proteger aqueles locais. "É a convenção de Haia de 1945 para a proteção de propriedade cultural em caso de conflito armado", lembrou aos jornalistas.

Há precisamente um ano, a 1 de janeiro de 2019, Estados Unidos e Israel abandonaram definitivamente a Unesco, concluindo um processo iniciado dois anos antes, em outubro de 2017, denunciando o sentimento anti-israelita da organização.
52 alvos
O Presidente norte-americano defendeu o seu direito a atingir o património cultural iraniano, se Teerão retaliar pela morte do general Qassem Soleimani.

Sábado à noite, na rede social Twitter, após expor as suas razões para mandar abater o general Soleimani, Donald Trump escreveu que os Estados Unidos possuem uma lista de "52 alvos iranianos", numa referência aos 52 norte-americanos feitos reféns na embaixada dos EUA em Teerão durante 444 dias, entre 1979-1981.

"Que sirva de AVISO que, se o Irão atacar quaisquer americanos ou interesses americanos, temos 52 alvos iranianos", sublinhou, antes de prosseguir noutro tweet.


"Alguns de muito alto nível & importantes para o Irão & a cultura iraniana, e estes alvos, e o próprio Irão, SERÃO ATINGIDOS MUITO RAPIDAMENTE E MUITO DURAMENTE", ameaçou Trump.

No dia seguinte, a bordo do avião presidencial Air Force One, o Presidente explicou o seu ponto de vista.

"Eles podem matar a nossa gente. Podem torturar e mutilar a nossa gente. Podem usar bombas de beira de estrada e fazer explodir a nossa gente. E nós não podemos tocar no seu património cultural? Não funciona assim", declarou Donald Trump, de acordo com um comunicado.

O Presidente iraniano respondeu a Trump 24 horas depois, utilizando igualmente a rede Twitter.

Hassan Rouhani lembrou a Trump os 290 iranianos mortos quando um tiro de de um vaso de guerra norte-americano abateu um airbus do Irão sobre o Estreito de Ormuz. "Nunca ameacem a Nação iraniana!" concluiu.
Tensão nuclear
Também domingo, dia 5 dejaneiro, e igualmente na rede Twitter, o Presidente norte-americano lembrou o poderia militar dos Estados Unidos, prometendo utilizá-lo sem pestanejar.
"Os Estados Unidos acabaram de gastar Dois Biliões de Dólares em Equipamento Militar. Somos o maior e de longe os MELHORES do mundo! Se o Irão atacar uma base americana, ou qualquer americano, iremos envia-lhes algum desse belo equipamento novinho em folha... e sem hesitar!", escreveu Trump.

A destruição de património cultural iraniano empalidece face à possibilidade de o Irão usar o seu programa atómico - que sempre assumiu ter objetivos pacíficos -para adquirir armas nucleares.

A ameaça militar de Trump coincidiu aliás com o anúncio de Teerão, domingo, de que vai deixar de lado todas as limitações ao enriquecimento de urânio, aceites no âmbito do Acordo sobre o seu programa nuclear, em troca do fim de sanções económicas e do regreeso à comunidade internacional.

Teerão prometeu voltar atrás nesta decisão, caso os EUA retirem as sanções recentemente impostas, e garantiu que irá continuar a cooperar com a AIEA - a Agência Internacional que vigia o desenvolvimento nuclear mundial.Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia deverão reunir-se na próxima sexta-feira em Bruxelas, de emergência, para avaliar a possibilidade de salvar o Acordo.

O texto sobre o programa nuclear iraniano foi assinado em 2015 entre o Irão e seis potências mundiais, incluindo a Rússia, a China e os Estados Unidos - estes últimos sob presidência de Barack Obama.

Em 2018, Donald Trump afirmou que o Irão não estava a cumprir os termos acordados e, em abril de 2019, denunciou definitivamente o texto, abandonando o Acordo e voltando a impor sanções.

Desde então, a tensão entre Teerão e Washington agravou-se todos os meses.
Conselhos da NATO
Esta segunda-feira o Presidente norte-americano garantiu no Twitter que "O IRÃO NUNCA TERÁ UMA ARMA NUCLEAR", sem mais explicações.

O Presidente norte-americano recebeu entretanto um apoio fulcral à sua estratrégia, enquanto o Irão foi aconselhado a deixar-se de ameaças de retaliação pela morte de Soleimani.

Numa reunião de emergência da Organização do Tratado do Atlântico Norte, NATO, o secretário-geral da organização afirmou que todos os membros da Aliança apoiam as ações dos Estados Unidos no Médio Oriente, colocando implicitamente um selo de aprovação no ataque de sexta-feira que vitimou Soleimani.

Oficialmente, a Organização distanciou-se na operação. "Essa foi uma decisão norte-americana. Não foi uma decisão tomada pela coligação internacional ou pela NATO. Mas todos os aliados estão preocupados com as acções desestabilizadoras do Irão na zona", explicou Stoltenberg.

Jens Stoltenberg apelou, contudo, à "contenção e desescalada", ecoando a maioria dos líderes ocidentais. 

"Estamos unidos na condenação do apoio do Irão a diversos grupos terroristas", afirmou Stoltenberg. "Na reunião de hoje, os aliados apelaram à contenção e à desescalada. Um novo conflito não interessa a ninguém. por isso, o Irão deve evitar mais violência e provocações", disse o secretário-geral da NATO. 

Questionado sobre se alguns Aliados também pediram contenção aos Estados Unidos, Stoltenberg insistiu que os 29 "expressaram preocupação com as atividades destabilizadoras do Irão na região do Médio Oriente, incluindo apoio a grupos terroristas", bem como com o programa de mísseis iraniano, e são unânimes em considerar que Teerão "nunca deve adquirir uma arma nuclear".

A NATO anunciou ainda que vai suspender durante algum tempo as suas operações de treino no Iraque.

c/ Lusa
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