Barrada pela chuva onda vermelha que queria empurrar Lula para a última dança
A forte chuva impediu o helicóptero que levaria Lula da Silva de descolar para Juiz de Fora, mas não conseguiu arrefecer o entusiasmo da onda vermelha na cidade mineira disposta a lutar pela sua última dança.
"Em Juiz de Fora, o coração é vermelho. O coração é Lula", resumiu à Lusa Wanderson, de 41 anos, confiante no `tetra` de Lula da Silva, de 80 anos, candidato à reeleição. Pela lei brasileira, um presidente não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo.
Desde as 14:00 locais (18:00 em Lisboa) de quarta-feira, milhares de apoiantes foram chegando à avenida Francisco Bernardino, de bandeiras e camisas alusivas ao Partido dos Trabalhadores e a Lula da Silva.
O vermelho foi tomando conta do espaço, num ambiente de festa que lembrava o Carnaval.
Os êxitos "Lula lá" e "Vermelho", de Fafá de Belém, alternavam com "Era só mais um Silva", o novo jingle inspirado no funk carioca, a tocar repetidamente.
Faltam três dias para a primeira volta das eleições presidências e as sondagens mostram praticamente um empate técnico entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
"É um momento histórico que a gente está vivendo, é a última eleição dele", contou à Lusa Bruncilene, empunhando uma bandeira que representava Lula da Silva ao longo das suas vitórias presidenciais de 2002, 2006, 2022 e a que agora almeja: 2026.
A mineira de 82 anos, que vota em Lula desde a primeira candidatura à Presidência da República, em 1989, olha para a bandeira e lê com orgulho: "Passado, presente e futuro. A história continua".
Embora o voto seja facultativo para quem tem mais de 70 anos, Bruncilene disse que não lhe passava pela cabeça deixar de votar. A preocupação com a disputa apertada também leva outros apoiantes a mobilizar o círculo próximo.
"Tenho conseguido muitos amigos da minha idade para votar", contou à Lusa Manoela, mineira de 73 anos.
A mineira de Juiz de Fora, acompanhada pela neta de 28, lembrou ainda a fama do estado de Minas Gerais de `acertar` sempre no vencedor.
Desde a redemocratização e do regresso das eleições presidenciais diretas ao Brasil em 1989, o candidato mais votado em Minas Gerais venceu sempre a eleição presidencial no Brasil.
Sobre uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, Bruncilene admite que "o medo é real", ainda por mais devido a "essa ameaça dos Estados Unidos", disse, numa alusão à proximidade ideológica com o Presidente norte-americano, Donald Trump, e às denúncias de possíveis ingerências nestas eleições.
A mesma preocupação foi expressa à Lusa por Luiz Fernando, de 37 anos, que classificou Flávio Bolsonaro como "um perigo para a democracia" e afirmou que o candidato "vai entregar o Brasil aos Estados Unidos".
Com o avançar da tarde, o sol abrasador deu lugar a nuvens escuras. A chuva caiu com força por volta das 16:30 (20:30 em Lisboa), meia hora depois da hora prevista para a chegada de Lula.
O Presidente brasileiro ainda não tinha aparecido, mas os apoiantes já estão habituados aos recorrentes atrasos nos atos políticos e de campanha.
À boa maneira mineira, povo conhecido nacionalmente pela extrema simpatia, a chuva foi enfrentada em conjunto: os apoiantes ajudavam-se a improvisar abrigo com bandeiras e sacos de plástico, dividiam-se os guarda-sóis, e mesmo debaixo do aguaceiro, os milhares presentes teimavam em não abandonar o local.
"Em 2022 também choveu demais e Lula venceu!", disse um dos oradores com megafone, tentando contrariar o cansaço das pessoas com o passar do tempo e com o avolumar das chuvas.
Mas o tempo não deu tréguas: um temporal alagou ruas da cidade e trouxe rajadas de vento superiores a 70 quilómetros por hora, impedindo Lula de chegar a Juiz de Fora.
O avião do Presidente ainda chegou a aterrar no Aeroporto Regional da Zona da Mata, em Goianá, a cerca de 40 quilómetros da cidade, mas o mau tempo impediu a descolagem do helicóptero que o levaria até ao ato de campanha, e o, com isso, Lula da Silva regressou a Brasília.
Por volta das 19:00 (23:00 em Lisboa) foi dada a notícia de que Lula da Silva não vinha mais, e os apoiantes foram desmobilizando, tristes por não não o terem visto nem participado na sua última dança.
Apesar disso, a festa continuou um pouco por toda a cidade.