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Benoît Hamon. Quem é e que hipóteses tem de chegar ao Eliseu?
Confrontados entre duas escolhas bem distintas, os socialistas franceses escolheram a opção mais à esquerda. Benoît Hamon venceu largamente e barrou o caminho a Manuel Valls, o ex-primeiro-ministro que abandonou o Governo para tentar chegar ao Eliseu. Começam agora as difíceis missões de Benoît Hamon: unir o partido, unir a esquerda e conseguir um lugar na segunda volta.
As sondagens começaram por afastá-lo dos lugares cimeiros e da possibilidade de vencer as Primárias mas, tal como tinha acontecido nas Primárias da Direita, a surpresa acabou por surgir. Benoît Hamon venceu a primeira volta, deixando para trás o também ex-ministro socialista Arnaud Montebourg.
Na segunda volta, Hamon levou a melhor sobre o seu ex-primeiro-ministro Manuel Valls. Com 58,78 por cento dos mais de dois milhões de votos registados, o candidato da ala esquerda acedeu à vaga socialista para concorrer ao Eliseu.
A vitória de Benoît Hamon encaminha o partido para a esquerda. Desde cedo que militou para esse lado, frequentemente ao lado de Arnaud Montebourg e Vincent Peillon, que também concorreram às primárias. O posicionamento político de Hamon fica bem marcado na manchete desta segunda-feira do diário Libération: “Une gauche de gauche”, ou seja “Uma esquerda de esquerda”.
Reportagem de Rosário Salgueiro – RTP
Hamon não é novo nos corredores do PS francês. O candidato de 49 anos foi eurodeputado, defensor do Não no referendo à constituição europeia de 2005 e porta-voz do Partido Socialista a partir de 2008.
Integrou o Governo de François Hollande em 2012 como ministro-adjunto para a Economia Social, integrando a equipa do atual comissário europeu Pierre Moscovici.
Com a mudança de primeiro-ministro em abril de 2014, Benoît Hamon passou a ministro da Educação, mas não por muito tempo. Sai ao fim de quatro meses, em desacordo com a política seguida pela dupla Valls e Hollande. O mesmo Manuel Valls que derrotou agora nas chamadas Primárias da Cidadania.
Juntamente com Arnaud Montebourg, Hamon pretendia que Paris se apresentasse como alternativa ao pensamento da direita alemã de Angela Merkel, deixando de privilegiar a redução do défice e apostando no crescimento económico e na procura.
Saiu do Governo em 2014 mas manteve-se por perto. Anunciou no verão de 2016 a candidatura às Primárias da esquerda, na defesa de uma “alternativa de esquerda”, do “progresso social e ecológico”, por uma “República humanista”. A aposta seduziu o eleitorado socialista, resta agora tentar conquistar o povo francês.
As propostas de Hamon
Durante a campanha, Benoît Hamon não poupou nas críticas ao mandato de François Hollande. Acusou a esquerda de ter fracassado “no fundamental: a redução das desigualdades”. Apesar de ser do mesmo partido do Presidente francês, os objetivos são bem distintos.
Benoît Hamon quer instaurar um Rendimento Básico Universal no valor de 600 euros e que seria entregue a todos os jovens que tenham entre 18 e 25 anos. O candidato quer ainda que a existência do Rendimento Básico Universal seja alvo de uma discussão no país.
No olhar que lança à Europa, Hamon apresenta-se contra o TTIP e o CETA e a favor de um salário mínimo europeu. O candidato promete ainda defender a “anulação da dívida acumulada desde 2008 dos Estados membros mais endividados”, insistindo na necessidade de “desapertar o nó que sufoca os países do Sul”.
O agora candidato socialista pretende limitar o uso do artigo 49.3 da Constituição apenas a textos orçamentais. Foi através deste princípio que Manuel Valls conseguiu ver aprovada a reforma laboral sem voto no Parlamento, temendo o voto desfavorável de deputados socialistas. Entre os opositores encontrava-se precisamente Benoît Hamon.
A revogação da reforma laboral é mesmo um dos seus objetivos, assim como um aumento de dez por cento do salário mínimo nacional. Hamon quer ainda encorajar a redução da carga horária semanal, cuja regra atualmente são as 35 horas.
O ex-ministro da Educação fez também da ecologia uma arma de campanha. O jornal Le Monde assinala que o pretendente socialista ao Eliseu é defensor de uma fiscalidade verde, nomeadamente no que diz respeito às taxas de IVA. Pretende lutar contra os maus tratos a animais, acabar com o gasóleo no país até 2025 e reduzir a produção de energia nuclear.
Liberal nos costumes, Hamon pretende legalizar a eutanásia, o consumo de canábis e alargar a Procriação Médica Assistida às mulheres solteiras e casais homossexuais.
Esperança na segunda volta?
Apesar da vitória de domingo, as sondagens não são nada favoráveis ao candidato. Os números revelados por Le Figaro indicam que Hamon ficará em quarto lugar na primeira volta das Presidenciais, atrás da nacionalista Marine Le Pen, do conservador François Fillon e do ex-ministro Emmanuel Macron.
O candidato socialista falharia assim o acesso à segunda volta das eleições marcadas para abril e maio deste ano.
A missão não se apresenta fácil para Benoît Hamon com duas árduas missões: unir o partido e unir uma esquerda francesa que apresenta uma multiplicidade de candidatos. O primeiro objetivo passa por impedir a fuga de votos para o mais liberal Emmanuel Macron.
Macron foi ministro da Economia de Manuel Valls e partilha com ele uma visão mais social-liberal, distinta da corrente esquerdista defendida por Benoît Hamon.
O segundo objetivo passa pela procura de pontes com os candidatos mais à esquerda. No discurso de vitória, Hamon abriu a porta à cooperação com Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda, e com o ecologista Yannick Jadot.
Segundo os números revelados por Le Figaro, os três candidatos apresentam juntos 27 por cento de votos. A união da esquerda em torno de um único candidato poderia evitar uma fragmentação de votos e dar novo fôlego à luta por um lugar na segunda volta.
A confirmar-se o atual tabuleiro eleitoral, as sondagens indicam que as Presidenciais se decidirão entre Marine Le Pen, François Fillon e Emmanuel Macron. Os números publicados por Le Figaro dão empate técnico entre Emmanuel Macron e François Fillon no segundo lugar, com ligeira vantagem para o candidato conservador.
Marine Le Pen chegaria em primeiro lugar na primeira volta mas seria vencida por qualquer um dos dois candidatos na derradeira votação. As eleições presidenciais realizam-se a 23 de abril e 7 de maio.
Na segunda volta, Hamon levou a melhor sobre o seu ex-primeiro-ministro Manuel Valls. Com 58,78 por cento dos mais de dois milhões de votos registados, o candidato da ala esquerda acedeu à vaga socialista para concorrer ao Eliseu.
A vitória de Benoît Hamon encaminha o partido para a esquerda. Desde cedo que militou para esse lado, frequentemente ao lado de Arnaud Montebourg e Vincent Peillon, que também concorreram às primárias. O posicionamento político de Hamon fica bem marcado na manchete desta segunda-feira do diário Libération: “Une gauche de gauche”, ou seja “Uma esquerda de esquerda”.
Reportagem de Rosário Salgueiro – RTP
Hamon não é novo nos corredores do PS francês. O candidato de 49 anos foi eurodeputado, defensor do Não no referendo à constituição europeia de 2005 e porta-voz do Partido Socialista a partir de 2008.
Integrou o Governo de François Hollande em 2012 como ministro-adjunto para a Economia Social, integrando a equipa do atual comissário europeu Pierre Moscovici.
Com a mudança de primeiro-ministro em abril de 2014, Benoît Hamon passou a ministro da Educação, mas não por muito tempo. Sai ao fim de quatro meses, em desacordo com a política seguida pela dupla Valls e Hollande. O mesmo Manuel Valls que derrotou agora nas chamadas Primárias da Cidadania.
Juntamente com Arnaud Montebourg, Hamon pretendia que Paris se apresentasse como alternativa ao pensamento da direita alemã de Angela Merkel, deixando de privilegiar a redução do défice e apostando no crescimento económico e na procura.
Saiu do Governo em 2014 mas manteve-se por perto. Anunciou no verão de 2016 a candidatura às Primárias da esquerda, na defesa de uma “alternativa de esquerda”, do “progresso social e ecológico”, por uma “República humanista”. A aposta seduziu o eleitorado socialista, resta agora tentar conquistar o povo francês.
As propostas de Hamon
Durante a campanha, Benoît Hamon não poupou nas críticas ao mandato de François Hollande. Acusou a esquerda de ter fracassado “no fundamental: a redução das desigualdades”. Apesar de ser do mesmo partido do Presidente francês, os objetivos são bem distintos.
Benoît Hamon quer instaurar um Rendimento Básico Universal no valor de 600 euros e que seria entregue a todos os jovens que tenham entre 18 e 25 anos. O candidato quer ainda que a existência do Rendimento Básico Universal seja alvo de uma discussão no país.
No olhar que lança à Europa, Hamon apresenta-se contra o TTIP e o CETA e a favor de um salário mínimo europeu. O candidato promete ainda defender a “anulação da dívida acumulada desde 2008 dos Estados membros mais endividados”, insistindo na necessidade de “desapertar o nó que sufoca os países do Sul”.
O agora candidato socialista pretende limitar o uso do artigo 49.3 da Constituição apenas a textos orçamentais. Foi através deste princípio que Manuel Valls conseguiu ver aprovada a reforma laboral sem voto no Parlamento, temendo o voto desfavorável de deputados socialistas. Entre os opositores encontrava-se precisamente Benoît Hamon.
A revogação da reforma laboral é mesmo um dos seus objetivos, assim como um aumento de dez por cento do salário mínimo nacional. Hamon quer ainda encorajar a redução da carga horária semanal, cuja regra atualmente são as 35 horas.
O ex-ministro da Educação fez também da ecologia uma arma de campanha. O jornal Le Monde assinala que o pretendente socialista ao Eliseu é defensor de uma fiscalidade verde, nomeadamente no que diz respeito às taxas de IVA. Pretende lutar contra os maus tratos a animais, acabar com o gasóleo no país até 2025 e reduzir a produção de energia nuclear.
Liberal nos costumes, Hamon pretende legalizar a eutanásia, o consumo de canábis e alargar a Procriação Médica Assistida às mulheres solteiras e casais homossexuais.
Esperança na segunda volta?
Apesar da vitória de domingo, as sondagens não são nada favoráveis ao candidato. Os números revelados por Le Figaro indicam que Hamon ficará em quarto lugar na primeira volta das Presidenciais, atrás da nacionalista Marine Le Pen, do conservador François Fillon e do ex-ministro Emmanuel Macron.
O candidato socialista falharia assim o acesso à segunda volta das eleições marcadas para abril e maio deste ano.
A missão não se apresenta fácil para Benoît Hamon com duas árduas missões: unir o partido e unir uma esquerda francesa que apresenta uma multiplicidade de candidatos. O primeiro objetivo passa por impedir a fuga de votos para o mais liberal Emmanuel Macron.
🇫🇷 #France | @TNS_Sofres poll for #Presidentielle2017: @benoithamon (4th) would fail to qualify for the 2nd roundhttps://t.co/ZgVCoO6kjG pic.twitter.com/vgws2ak2Qx
— Electograph (@Electograph) 29 January 2017
Macron foi ministro da Economia de Manuel Valls e partilha com ele uma visão mais social-liberal, distinta da corrente esquerdista defendida por Benoît Hamon.
O segundo objetivo passa pela procura de pontes com os candidatos mais à esquerda. No discurso de vitória, Hamon abriu a porta à cooperação com Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda, e com o ecologista Yannick Jadot.
Segundo os números revelados por Le Figaro, os três candidatos apresentam juntos 27 por cento de votos. A união da esquerda em torno de um único candidato poderia evitar uma fragmentação de votos e dar novo fôlego à luta por um lugar na segunda volta.
A confirmar-se o atual tabuleiro eleitoral, as sondagens indicam que as Presidenciais se decidirão entre Marine Le Pen, François Fillon e Emmanuel Macron. Os números publicados por Le Figaro dão empate técnico entre Emmanuel Macron e François Fillon no segundo lugar, com ligeira vantagem para o candidato conservador.
Marine Le Pen chegaria em primeiro lugar na primeira volta mas seria vencida por qualquer um dos dois candidatos na derradeira votação. As eleições presidenciais realizam-se a 23 de abril e 7 de maio.