Biden vence primárias no Michigan mas pode ter problemas por causa de apoio a Israel

por Cristina Sambado - RTP
Rebecca Cook - Reuters

O presidente dos EUA, Joe Biden, não enfrentou nenhum potencial adversário democrata nas primárias no Michigan. No entanto, a campanha que se formou algumas semanas antes das eleições para votar "não comprometido", em protesto contra o apoio contínuo à guerra de Israel em Gaza, assinala a ira que alguns eleitores árabes americanos e mais jovens do Estado sentem por Biden.

O grupo que pressiona os eleitores a escolherem o "não comprometido" - chamado Listen to Michigan - estabeleceu o objetivo de dez mil votos não comprometidos nas primárias. Com mais de metade dos votos apurados na noite de terça-feira, os "não comprometidos" tinham recebido 74 mil votos num total de mais de 580 mil - quase 13 por cento dos votos.

Para contextualizar, quando o então presidente Barack Obama concorreu sem contestação na corrida de 2012, cerca de 21 mil votaram "não comprometido" nas primárias do Michigan, com cerca de 194 mil votos no total - pouco mais de nove por cento dos eleitores. A campanha Listen to Michigan pretendia ser um aviso para Biden rever o seu apoio até agora inabalável à campanha de Israel em Gaza, que matou quase 30 mil palestinianos, antes das eleições gerais. A campanha é especialmente significativa em Michigan, dada a grande população árabe-americana do estado, um grupo que apoiou Biden fortemente em 2020.

Após o fecho das urnas e à medida que os resultados foram chegando, os membros da campanha Listen to Michigan reuniram-se num salão em Dearborn e declararam os resultados uma vitória para a sua campanha. Os participantes abraçaram-se e festejaram, muitos deles envergando o keffiyeh - o tradicional lenço preto e branco usado pelos homens no Médio Oriente.

Antes de passar o microfone a uma série de oradores da campanha, Abbas Alawieh, porta-voz da Listen to Michigan , guardou um momento de silêncio "por todas as vidas humanas que nos foram tiradas demasiado cedo com o dinheiro dos contribuintes americanos e com bombas".

"Obrigado às nossas organizações progressistas locais e nacionais e aos nossos eleitores de consciência, que usaram o nosso processo democrático para votar contra a guerra, o genocídio e a destruição de um povo e de uma terra", acrescentou Layla Elabed, que lançou a campanha no início de fevereiro.

O ex-congressista Andy Levin, um dos primeiros e mais proeminentes apoiantes locais da campanha para votar "sem compromisso", apelidou o movimento de "filho da necessidade" e afirmou que a afluência às urnas até à data foi "uma enorme vitória".

"Não há esperança de segurança e paz para o povo judeu sem segurança, paz, liberdade e justiça para o povo palestiniano", afirmou Levin, que foi fortemente aplaudido.

Mas não é claro qual a percentagem de eleitores "não comprometidos" que estão preparados para abandonar Biden nas eleições gerais de novembro, quando muito provavelmente enfrentará Donald Trump - que está a fazer campanha com a promessa de restabelecer e expandir a sua proibição de viagens a muçulmanos.
Peso da política externa nas eleições norte-americanas
Em declarações à agência Lusa, a norte-americana Daniela Melo que é professora na Universidade de Boston, afirmou que Biden pode ter “um problema sério” com quem protesta contra o apoio dos EUA ao governo de Netanyahu.

“Ao ultrapassar os 20 mil, o voto não comprometido torna-se uma questão nacional, a lição principal de amanhã”, Daniela Melo.

“O facto é que a política externa pode vir a ter um peso muito maior nesta eleição do que teve em eleições passadas, não só com a questão da Ucrânia, mas com a questão de Israel”, notou.

A cientista política explica que o “Estado do Michigan tem cerca de 20 mil eleitores de origem árabe. Mas também temos uma associação com o voto jovem, que está muito alinhado”.

“Tudo isto será interpretado como um grande desafio a Biden, porque ele tem margens muito pequenas para conseguir uma vitória”, disse, referindo que este é um dos Estados essenciais em novembro.Em 2016, Donald Trump venceu o Estado do Michigan por menos de 11 mil votos.

“O Michigan é um Estado difícil porque Biden precisa de vários grupos, é um estado bastante heterogéneo”, descreveu Daniela Melo. “Ele precisa dos trabalhadores de colarinho azul nas fábricas, do voto das mulheres urbanas, do voto jovem e do voto da população árabe, que até agora tinha sido sempre previsivelmente democrata”, apontou.

Apesar da pressão que Biden tem exercido sobre o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, devido à violência em Gaza, muitos eleitores democratas exigem o fim imediato do apoio a Israel e responsabilizam o presidente norte-americano.

“É um problema sério se o voto jovem, o voto árabe e o voto da ala mais progressista do partido se torna um voto de protesto e eles não aparecem nas urnas”, frisou Daniela Melo.
Falhou mais uma tentativa de cessar-fogo
Apesar de ter vencido as primárias por mais de 80 por cento, Joe Biden sai do Michigan com sinais preocupantes para as eleições gerais, numa altura em que falhou a mais recente tentativa de cessar-fogo no conflito Israel-Hamas que dura desde 7 de outubro.

Um dia antes das eleições primárias, Biden anunciou que um cessar-fogo poderia chegar na passada segunda-feira - mas tanto o Hamas como as autoridades israelitas negaram que as negociações tivessem progredido substancialmente.

Numa declaração feita na terça-feira à noite, Biden não abordou a campanha Listen to Michigan ou o número crescente de eleitores que votaram como "não comprometidos". Ao invés, elogiou o seu historial em matéria de trabalho e avisou: Trump está "a ameaçar arrastar-nos ainda mais para o passado enquanto persegue a vingança e a retaliação".
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