Birmânia bloqueia investigadora especial da ONU

Birmânia bloqueia investigadora especial da ONU

Yanghee Lee, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos na Birmânia, está impedida de se deslocar através do território até ao fim do seu mandato, anunciou a própria em comunicado esta segunda-feira.

Graça Andrade Ramos - RTP / Adicionar como fonte informativa
A relatora especial da ONU para os Direitos Humanos na Birmânia, Yanghee Lee Soe Zeya Tun -Reuters

As autoridades birmanesas recusaram igualmente toda e qualquer cooperação com Lee.

"Esta declaração de não cooperação com o meu mandato só pode ser encarada como uma forte indicação de que deve estar a acontecer algo terrível em Rakhine, assim como no resto do país", alertou Lee em Genebra.

A província de Rakhine, no norte da Birmânia junto ao Bangladesh, alberga a maior parte da população muçulmana birmanesa, na sua maioria pertence à etnia Rohingya.
Operações em Rakhine
Movimentos separatistas muçulmanos lutam há vários anos por direitos de cidadania, provocando uma resposta musculada por parte da junta militar que governa a Birmânia.

A 25 de agosto de 2017, militantes Rohingya atacaram 30 esquadras e uma base militar em Rahkine.

O exército lançou então aquilo que o Governo civil de Nepiedó chama "operações de limpeza" anti-terroristas legítimas, que levaram a população a abandonar em massa milhares de aldeias.Quase sete mil Rohingya terão morrido só entre agosto e setembro de 2017 na Birmânia, afirmaram a 14 de dezmbro último os Médicos sem Fronteiras. Desde o verão cerca de 650 mil pessoas passaram a fronteira para se refugiarem no vizinho Bangladesh, provocando uma das piores crises humanítárias da história recente.
 
Os monitores de Direitos Humanos relatam diversas atrocidades cometidas pelas tropas birmanesas, incuindo assassínios, violações em massa e fogo posto, durante as operações militares. 

A ONU e a maior parte das instâncias internacionais denunciam uma tentativa de genocídio e os EUA, que falam em "limpeza étnica", já ameaçaram o Governo em Nepiedó com sanções internacionais.

A presidente birmanesa e Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, tem enfrentado fortes críticas internacionais por não proteger os Rohingya.

O Governo birmanês, incluindo Suu Kyi, defende a legitimidade das ações militares e prometeu investigar todos as denúncias de abusos, desde que lhe sejam fornecidas provas.

O exército birmanês refere que todas as investigações internas às acusações exoneraram as suas tropas.

Segunda-feira, o comandante em chefe das tropas birmanesas em Rahkine anunciou a descoberta de uma vala comum com dez corpos junto ao cemitério de uma aldeia, Inn Din. Um médico, um juíz, um administrador local e a polícia já estão a investigar o caso, anunciaram os militares. 
Jornalistas presos
Yanghee Lee deveria visitar a Birmânia em janeiro para avaliar os Direitos Humanos no país, incluindo abusos contra os Rohingya no norte do país.

Iria igualmente acompanhar o caso de dois jornalistas da agência de notícias britânica Reuters, detidos a 12 de dezembro por posse de "informação obtida ilegalmente com intenção de a partilhjar com media estrangeiros", de acordo com o Ministério da Informação birmanês em Nepiedó.A cidade de Nepiedó é, desde 2005, a capital da Birmânia, em substituição de Rangum. Foi construída por razões estratégicas da Junta militar mas a maioria dos países ocidentais mantém as suas embaixadas na antiga capital.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo investigavam histórias sobre as operações militares em Rakhine e foram convidados para um encontro com dois polícias nos arredores de Rangum.

Foram então detidos, assim como dois polícias e encontram-se em parte incerta.

O Ministério da Informação divulgou uma imagem deles algemados e referiu que todos podem ser acusados de crimes ao abrigo da lei colonial britânica sobre Segredos Oficiais, que prevê penas de até 14 anos de prisão, apesar de ainda não terem sido acusados.

Vários países, as Nações Unidas e grupos de jornalistas exigem a sua libertação. "Nós e as suas famílias continuamos a não ter acesso às mais básicas informações sobre o seu bem-estar e a sua localização" afirmou o Editor Stephen J.Adler em comunicado.

"Wa Lone e Kyaw Soe Oo são jornalistas que cumprem um papel crucial na divulgação de notícias d interesse global e estão inocentes", acrescentou.
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