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Bola Tinubu eleito Presidente da Nigéria. Oposição contesta resultados e alega fraude
Podiam ter votado 87 milhões de eleitores, mas somente 25 milhões colocaram boletins válidos nas urnas, no passado fim-de-semana, para eleger um novo Presidente, em substituição de Mohamadu Buhari, além de uma nova Assembleia da Nigéria.
A participação, 29 por cento, foi extremamente baixa, até para o país de 200 milhões de habitantes, o maior de África e onde a abstenção é tradicionalmente elevada. Em 2019 tinham votado 35 por cento dos eleitores.
Este ano, o ato eleitoral foi afetado por problemas no funcionamento de um novo sistema anunciado como capaz de tornar o processo mais transparente, que obrigaram o escrutínio marcado para sábado a prolongar-se por domingo.
Amplamente divulgada pela Comissão Eleitoral Nacional Independente, INEC, antes do escrutínio, a tecnologia baseava-se num sistema eletrónico de identificação de eleitores via dados biométricos e deveria transmitir os resultados em direto das assembleias de voto para um portal seguro.
O volume de dados terá sido demasiado elevado para a frágil rede de telecomunicações da Nigéria.
Muitos eleitores ficaram impossibilitados de participar devido a problemas com as máquinas de leitura dos cartões. Os resultados tiveram ainda de ser contados à mão em centros geridos pelo Governo, como em eleições anteriores, dando azo a suspeitas de manipulação de resultados.
“O Presidente Buhari afirmou que iria realizar eleições livres e justas, mas o INEC virou tudo de pernas-para-o-ar”, criticou um condutor de riquexó, Nedu Chucwunata, à Agência Reuters.
Buhari, o Presidente cessante após dois mandatos sucessivos, felicitou o seu sucessor, considerando Bola Tinubu como “o melhor para o cargo”.
“Eleito pelo povo, ele é a melhor pessoa para o cargo. Irei agora trabalhar com ele e a sua equipa para garantir uma transmissão de poder ordeira”, garantiu Buhari em comunicado.
"Estou muito feliz"
Bola Tinubu, de 70 anos e candidato pelo partido atualmente no poder, o Congresso de Todos os Progressivos, APC, obteve 37 por cento [8.79 milhões}, dos votos expressos, de acordo com os resultados oficiais anunciados esta terça-feira.
O veterano Atiku Abubakar, de 76 anos, candidato do maior partido da oposição, o Partido Democrático Popular, PDP, conseguiu 29 por cento [6.98 milhões], enquanto Peter Obi, o candidato surpresa de 60 anos e favorito nas sondagens, apoiado pelo Partido Trabalhista, se ficou pelos 25 por cento ou 6.1 milhões de votos. Para vencer a eleição presidencial, um candidato tem de não só obter mais votos do que os seus opositores como ter 25 por cento da votação em pelo menos dois terços dos 36 estados da Nigéria. O vencedor declarado cumpriu ambas as condições.
"Tinubu, Bola Ahmed, do APC , tendo cumprido os
requisitos da lei, é declarado vencedor", disse o presidente da INEC, Mahmud
Yakubu, ao anunciar os resultados.
“Estou muito feliz por ter sido eleito Presidente da República Federal da Nigéria”, afirmou Bola Tinubu na capital nigeriana, Abuja, ao saber do anúncio da Comissão Eleitoral Nacional Independente, INEC. “Este é um mandato sério. Por isso aceito-o”, acrescentou perante o aplauso dos apoiantes.
“Felicito o INEC por organizar uma eleição credível, apesar do que por aí se diz. Os lapsos reportados foram relativamente escassos e foram imateriais no resultado final da eleição”, frisou ainda Tinubu, dirigindo-se aos adversários de forma conciliatória.
"Aproveito esta oportunidade para apelar aos meus colegas concorrentes para que nos deixem formar uma equipa", disse. "É a única nação que temos. É um país e temos de o construir juntos", acrescentou.
Horas após o anúncio dos resultados a situação mantinha-se pacífica no país, habituado à violência, entre apelos à calma por parte da oposição e num clima geral de desalento. Registavam-se apenas alguns protestos em Abuja, especialmente junto ao hotel onde se encontravam os observadores internacionais.
Contestação e acusações de fraude
Esta terça-feira a oposição política exigiu o cancelamento e a repetição das eleições.
Yusuf Datti Baba-Ahmed, vice candidato de Peter Obi, falou em fraude e já prometeu contestação aos resultados. “Iremos para os tribunais”, prometeu.
Também um porta-voz do PDP, Emma Ik Umeh, anunciou que “rejeitamos os resultados porque sentimos que as eleições não foram justas”.
“O INEC prometeu aos nigerianos que a eleição iria ser transmitida ao vivo no seu portal em tempo real e demorou muito até eles aparecerem”, acrescentou. “Temos em nosso poder provas de que estas eleições foram fraudulentas. Se formos ao portal do INEC, verificamos que os resultados em Lagos foram diferentes. Deram-nos resultados de Nasarawa, todo o sistema estava uma confusão”, apontou ainda Umeh.
Um porta-voz do Congresso de Todos os Progressivos lamentou a contestação nos tribunais.
“Preferíamos que não seguissem esse caminho, porque as eleições decorreram de forma livre e justa, como pudemos observar”, referiu Ali Mohammed Ali, à televisão do Qatar, Al Jazeera. “Iremos enfrentá-los em tribunal”, prometeu.
Quanto aos problemas verificados na votação, Ali considerou-os de pouca monta e sem impacto, pois, explicou, “tal como a INEC explicou, todos os resultados das assembleias de voto seriam inseridos no computador e um representante iria certificar a autenticidade do resultado e com apoio de fotografias. E todos os agentes reconheceram os resultados nas assembleias como genuínos”.
Já sobre as acusações de fraude e de conluio entre o partido no poder e a INEC, Ali descreveu-as como um fenómeno habitual na Nigéria.
Os partidos têm três semanas para contestar os resultados, mas o
Supremo Tribunal da Nigéria nunca reverteu uma eleição, apesar das contestações judiciais serem quase um proforma. Um escrutínio só
pode ser invalidado que ficar provado que a Comissão Eleitoral violou a
legislação e agiu de forma a comprometer os resultados.
"Detesto este país"
Muitos discordam da análise do APC. O Gabinete da Sociedade Civil da Nigéria, um grupo que monitorizou a eleição, afirmou que falhas logísticas graves, falta de transparência e problemas na votação a par de incidentes violentos, tornaram os resultados pouco credíveis.
“Isto é ainda mais frustrante porque as eleições se deram numa atmosfera marcada pelo compromisso notável das pessoas para com a democracia, mostrando interesse no processo eleitoral e esperando pacientemente para votar em circunstâncias difíceis”, reagiu o Gabinete.
A frustração impera entre muitos nigerianos que tinham apostado nas eleições para mudar um sistema bipartidário aparentemente incapaz de resolver os graves problemas do país, afetado pela violência generalizada e falta de segurança além de uma grave crise financeira.
“Aos olhos de Deus, o homem [Tinubu] não é o vencedor”, disse à Al Jazeera uma comerciante, Mercy Efong, em Awka, no estado de onde é originário Peter Obi, o mais jovem e popular dos três candidatos à presidência nigeriana este ano.
A desolação é sentida sobretudo entre os apoiantes mais jovens do candidato do Partido Trabalhista. Maioritariamente urbanos e educados, geraram uma campanha fervilhante sobretudo nas redes sociais, esperando com Peter Obi acabar com a partilha do poder entre o APC e o PDP, que têm alternado no poder desde o fim da ditadura militar nigeriana em 1996.
Cerca de 40 por cento da população da Nigéria tem menos de 35 anos, tendo vivido maioritariamente sob um regime democrático. Não se revê nos políticos da velha guarda. A sua situação laboral também está em crise, com o desemprego a subir em flecha nos últimos anos.
“Eles fizeram batota. Detesto este país”, reagiu Sam Nwajaku, pintor de 38 anos, em Onitsha, sudeste da Nigéria, terra natal de Obi, depois do anúncio dos resultados. “Vemos os velhos políticos de sempre que não têm qualquer interesse por nós” afirmou à Agência France Presse.
Obi, além do mais jovem candidato, é um homem de negócios bem-sucedido e igualmente o único cristão, católico fervoroso, que apostou tudo nas novas gerações.
Devido à sua enorme influência política, Bola Tinubu é por outro lado chamado, “padrinho” e “fazedor de reis”. Ao longo da sua carreira foi acusado de múltiplas suspeitas de corrupção, sem que nada se provasse e entre protestos de inocência.
Notoriamente, Obi, da etnia Igbo, venceu em Lagos, a metrópole comercial da Nigéria e considerada um bastião de Tinubu por ser o coração do seu grupo étnico, o Yoruba.
A missão de Tinubu
O Presidente eleito, muçulmano, foi governador de Lagos entre 1999 e 2007, tendo conseguido resolver alguns dos problemas da cidade, nomeadamente a violência, a recolha de lixo e os sistemas de tráfego.
A esperança dos seus apoiantes é que tenha êxito agora na expulsão dos grupos islamitas Boko Haram e Grupo Islâmico, que assolam e perseguem as populações cristãs do Norte, no desmantelamento de grupos armados dedicados à extorsão e violência no centro e no sul, e no domínio de movimentos secessionistas revoltosos no sul.
Tinubu tem ainda pela frente a espinhosa tarefa de inverter um sistema que tem impedido os lucros astronómicos da exploração petrolífera, a maior do continente, de chegar às populações, afetadas por falta de combustível e de dinheiro vivo, inflação galopante e pobreza endémica.
O Presidente eleito tem dado mostras de fragilidade em público, arrastando as palavras, respondendo com generalidades e faltando a diversos eventos, o que tem lançado dúvidas sobre as suas reais capacidades.
O bloco regional da África ocidental, ECOWAS, já apelou todos os partidos a moderarem a linguagem provocatória e a dar provas da máxima contenção, para evitar “exacerbar as tensões políticas, as divisões e a violência, nesta etapa crítica”.
Com agências