Bolsonaro e Haddad pedem voto útil para vencer amanhã

O candidato da extrema-direita continua a crescer nas sondagens, nos últimos dias da corrida às eleições presidenciais brasileiras. Jair Bolsonaro lidera com 39 por cento, seguido de Fernando Haddad com 25 por cento, de acordo com a mais recente sondagem do instituto Datafolha. Os dois principais candidatos fazem o apelo ao voto útil, ou seja a uma eleição na primeira volta. Os indígenas brasileiros temem a vitória de Bolsonaro, que tem defendido o desmatamento da Amazónia e o fim dos direitos especiais das comunidades locais.

RTP /
Os dois principais candidatos pedem uma eleição na primeira volta das presidenciais, que se realiza este domingo Reuters

Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal, reúne 35 por cento dos votos válidos, de acordo o Instituto Data Folha. É o valor mais elevado registado nesta corrida presidencial. Em segundo lugar, segue Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, com 22 por cento.

Ciro Gomes chega aos 13 por cento, Geraldo Alckmin aos nove por cento e Marina Silva obtém quatro por cento, de acordo com a sondagem. Os indecisos continuam a representar cinco por cento dos eleitores, enquanto os brancos/nulos desceram para seis por cento.

O instituto inquiriu 10.930 eleitores na quarta e quinta-feira. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Para calcular os votos válidos foram excluídos da amostra os votos brancos, nulos e dos eleitores que se declaram indecisos, um procedimento adotado pela justiça eleitoral para divulgar o resultado oficial.

Perante os resultados, os dois principais candidatos lançaram apelos ao voto útil, ou seja a uma eleição na primeira volta.

Num vídeo publicado na sua conta oficial do Facebook, esta sexta-feira, Bolsonaro pediu o apoio dos brasileiros que pretendem votos nos candidatos que já não têm hipóteses de vencer as eleições. “Com todo o respeito que eu tenho pelos outros candidatos, sem citar nomes, há bons candidatos, tudo bem, mas votar neles é levar-nos a uma segunda volta", apontou.

"Meus amigos, vamos evitar uma segunda volta", disse Bolsonaro, que está ainda a recuperar do ataque que sofreu no dia 6 de outubro, quando foi esfaqueado durante uma passeata na cidade de Juiz de Fora.

Também Fernando Haddad pediu, em momentos diferentes da campanha, para ganhar na primeira volta, conforme conta o enviado especial da Antena 1 ao Brasil, Nuno Amaral.

No entanto, são também Bolsonaro e Haddad que obtém a maior taxa de rejeição do eleitorado. Segundo as últimas sondagens, o antigo capitão do exército manteve a percentagem de 45 por cento e o ex-presidente da câmara de São Paulo registou 40 por cento de rejeição.

De acordo com analistas políticos citados pela agência Lusa, a ascensão de Jair Bolsonaro poderá não ser suficiente para impedir uma segunda volta. "Acho muito difícil, colocaria 80 por cento das chances de que haverá segunda volta (nas presidenciais do Brasil). Se houver segunda volta ela deve ser disputada pelo candidato Jairo Bolsonaro e Fernando Haddad", afirmou Wagner Romão.

Membro do Observatório Eleitoral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o especialista apontou que as pesquisas revelam uma certa estabilidade nesta altura da campanha.

"O Bolsonaro cresceu neste últimos dias, mas a tendência é que na primeira volta o resultado fique 30 por cento para o Bolsonaro e 20 por cento para Haddad", disse.

"O que está acontecendo é uma campanha muito forte nas listas de WhatsApp para que haja uma transferência de votos daqueles que escolheriam o Geraldo Alckmin , a Marina Silva ou mesmo o Ciro Gomes para o Bolsonaro", explicou.

Se nenhum candidato conseguir mais do que 50 por cento dos votos válidos, este domingo, haverá uma segunda volta para as eleições presidenciais, marcada para dia 28 de outubro.
Índios brasileiros temem vitória de Bolsonaro
Os dirigentes índigenas temem a vitória do candidato Jair Bolsonaro, que tem defendido o desmatamento da Amazónia e o fim dos direitos especiais das comunidades locais.

"Todos os indicadores apontam que caso (Bolsonaro) venha a ganhar a eleição os povos indígenas serão duramente afetados, duramente atacados, duramente agredidos justo com seus aliados", afirmou Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário, uma organização da Igreja Católica, em entrevista à agência Lusa.

Cleber Buzatto argumentou que as manifestações do candidato em diferentes ocasiões sobre o tema indígena mostram que Bolsonaro é contra as leis de proteção destas comunidades na Constituição do Brasil.

Entre "estas afirmações está, por exemplo, a (promessa) de que se ele for eleito não vai demarcar nenhum centímetro a mais de terras indígenas no país", apesar de existirem "800 procedimentos de demarcação de terra indígena" por decidir pelo governo.

Outro dos riscos da política de Bolsonaro é a sua ligação a deputados ligados ao agronegócio, um setor que há décadas atua no Congresso para diminuir a política de proteção dos índios brasileiros, denuncia Buzatto.

"O tema indígena tende a ser bastante prioritário numa eventual gestão Bolsonaro porque o leque de alianças que ele já formou comporta grupos económicos que aderiram à sua candidatura. A adesão da Frente Parlamentar Agropecuária, a chamada bancada ruralista, é um indicador de que a demarcação de terras indígenas será um foco", avaliou.

"É muito evidente que uma vitória do Jair Bolsonaro seria de todas (as campanhas que concorrem) a mais prejudicial. Sua eventual vitória é a que mais preocupa os povos indígenas e seus aliados", concluiu.
Brasil vai a votos este domingo
Um total de 147,3 milhões de brasileiros são chamados a votar este domingo para as eleições gerais, onde estão em causa as eleições presidenciais, para o parlamento (Câmara dos Deputados e Senado) e para representantes dos governos regionais.

As urnas de voto abrem às 08:00 e têm encerramento previsto para as 17:00 de cada fuso horário. As últimas urnas eletrónicas a fechar serão no estado do Acre, 21:00 em Lisboa.

Se houver uma falha na urna eletrónica e na impossibilidade de substituição por outra do mesmo tipo, é utilizado o sistema tradicional de voto.

No Brasil, o voto é obrigatório por lei para todos os alfabetizados com idades compreendidas entre os 18 e os 70 anos, estando cada cidadão sujeito a multa, caso não o faça.

Esta é já considerada uma das eleições mais atípicas das últimas décadas, com uma forte polarização política entre a extrema-direita e a esquerda, situação que foi bastante criticada pelos restantes candidatos às presidenciais, no último debate televisivo antes das eleições, que decorreu na quinta-feira.

c/ Lusa
PUB