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Brasil quer explicações por escrito sobre espionagem norte-americana
O chefe da diplomacia brasileira está à espera de explicações escritas, depois de ter convocado o embaixador dos Estados Unidos e dado a entender que a viagem agendada da presidente Dilma Rousseff aos EUA fica suspensa e vai depender dessas explicações. Na sequência das revelações de Snowden sobre a existência de escutas à presidente brasileira, o Itamaraty fala curto e grosso aos EUA - muito mais, em todo o caso, que a União Europeia ou países como a Alemanha e a Itália, que sofreram agravos semelhantes.
O ministro brasileiro dos Assuntos Exteriores, Luiz Albert Figueiredo está a aguardar uma resposta ao pedido de explicações que entregou formalmente na segunda feira ao embaixador acreditado em Brasília, Thomas Shannon. Na entrevista ficou claro que o embaixador seria apenas o emissário, mas que, desta vez, o ministro não quer ouvi-lo. Quer ler uma resposta, porque esta agora tem de ser escrita, e quer que traga uma assinatura de Washington: no mínimo a do patrão do Departamento de Estado, John Kerry, ou, melhor ainda, a do inquilino da Casa Branca.
Figueiredo quis significar ao embaixador que desta vez não bastarão explicações orais, como bastaram em Julho, ao saber-se que o Brasil foi um dos países mais espiados pela National Security Agency (NSA). Agora, trata-se de algo que formalmente se considera mais grave: a intercepção de comunicações pessoais da presidente Dilma Rousseff.
Espionagem: económica ou antiterrorista? A revelação levou a uma reunião de emergência e a declarações contundentes de vários ministros brasileiros. A interpretação mais benigna do frenesi informativo da NSA, aparentemente preferida pela presidente, foi a de se tratar de uma espionagem sobretudo económica, relacionada sobretudo com o facto pontual que é a negociação de concessões para a exploração do petróleo da plataforma continental brasileira - um negócio estimado em 15.000 milhões de dólares.
Já essa interpretação comparativamente benigna é, apesar de tudo, altamente embaraçosa para os EUA, visto que põe a nu uma espionagem económica, instrumentalizada por multinacionais do sector petrolífero - aquele precisamente que passava por ser o lobby mais forte sob a Administração Bush, e passava por estar contido nos tempos de Obama. E a espionagem económica desmentiria as explicações da Casa Branca sobre a espionagem como necessidade da "luta contra o terrorismo".
Preocupações com o "eixo bolivariano"A explicação menos benigna é, entretanto, a de uma espionagem "política", motivada pela inquietude da Administração Obama sobre uma eventual convergência de Dilma com os presidentes de esquerda na Bolívia, Venezuela e Equador, ou seja com o chamado "eixo bolivariano".
Mas, se a ideia é impedir essa convergência, a espionagem da NSA pode revelar-se contraproducente e, a acreditar no ministro Figueiredo, suscitar uma convergência ainda mais ampla: "Vamos conversar com os nossos colegas, tanto de países desenvolvidos como dos BRICS (Rússia, China, Índia e África do Sul] para avaliar como se defendem deste tipo de situação e que acções conjuntas se pode empreender para enfrentar um assunto grave como este".
Pressão brasileira em várias frentes Na parte que lhe diz respeito, o ministro resumiu a conversa de segunda feira com o embaixador dizendo que este "foi informado do que o Brasil está a exigir-lhe e tem de ser o Governo [dos EUA] a dar a resposta".
E acrescentou: "Na nossa conversa [o embaixador] entendeu o que se lhe disse, porque foi dito em termos muito claros". Explicou também que "ele comprometeu-se a entrar em contacto com a Casa Branca para notificá-la sobre a nossa conversa, e para nos enviarem por escrito as informações formais que o caso exige".
Outros dois ministros brasileiros intervieram também publicamente sobre este tema. Um foi o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que fustigou a "violação da soberania nacional" cometida pelos EUA e admitiu o recurso do Brasil a "organismos internacionais" que se pronunciem sobre o assunto.
A outra intervenção foi do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que não teve dúvida em afirmar: "As empresas que cooperem com essas operações terão a sua licença de operação cancelada". Com isto referia-se sobretudo a bancos e empresas telefónicas. O Governo brasileiro estuda entretanto a possibilidade de oferecer aos cidadãos um serviço de correio electrónico gratuito e cifrado.
Figueiredo quis significar ao embaixador que desta vez não bastarão explicações orais, como bastaram em Julho, ao saber-se que o Brasil foi um dos países mais espiados pela National Security Agency (NSA). Agora, trata-se de algo que formalmente se considera mais grave: a intercepção de comunicações pessoais da presidente Dilma Rousseff.
Espionagem: económica ou antiterrorista? A revelação levou a uma reunião de emergência e a declarações contundentes de vários ministros brasileiros. A interpretação mais benigna do frenesi informativo da NSA, aparentemente preferida pela presidente, foi a de se tratar de uma espionagem sobretudo económica, relacionada sobretudo com o facto pontual que é a negociação de concessões para a exploração do petróleo da plataforma continental brasileira - um negócio estimado em 15.000 milhões de dólares.
Já essa interpretação comparativamente benigna é, apesar de tudo, altamente embaraçosa para os EUA, visto que põe a nu uma espionagem económica, instrumentalizada por multinacionais do sector petrolífero - aquele precisamente que passava por ser o lobby mais forte sob a Administração Bush, e passava por estar contido nos tempos de Obama. E a espionagem económica desmentiria as explicações da Casa Branca sobre a espionagem como necessidade da "luta contra o terrorismo".
Preocupações com o "eixo bolivariano"A explicação menos benigna é, entretanto, a de uma espionagem "política", motivada pela inquietude da Administração Obama sobre uma eventual convergência de Dilma com os presidentes de esquerda na Bolívia, Venezuela e Equador, ou seja com o chamado "eixo bolivariano".
Mas, se a ideia é impedir essa convergência, a espionagem da NSA pode revelar-se contraproducente e, a acreditar no ministro Figueiredo, suscitar uma convergência ainda mais ampla: "Vamos conversar com os nossos colegas, tanto de países desenvolvidos como dos BRICS (Rússia, China, Índia e África do Sul] para avaliar como se defendem deste tipo de situação e que acções conjuntas se pode empreender para enfrentar um assunto grave como este".
Pressão brasileira em várias frentes Na parte que lhe diz respeito, o ministro resumiu a conversa de segunda feira com o embaixador dizendo que este "foi informado do que o Brasil está a exigir-lhe e tem de ser o Governo [dos EUA] a dar a resposta".
E acrescentou: "Na nossa conversa [o embaixador] entendeu o que se lhe disse, porque foi dito em termos muito claros". Explicou também que "ele comprometeu-se a entrar em contacto com a Casa Branca para notificá-la sobre a nossa conversa, e para nos enviarem por escrito as informações formais que o caso exige".
Outros dois ministros brasileiros intervieram também publicamente sobre este tema. Um foi o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que fustigou a "violação da soberania nacional" cometida pelos EUA e admitiu o recurso do Brasil a "organismos internacionais" que se pronunciem sobre o assunto.
A outra intervenção foi do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que não teve dúvida em afirmar: "As empresas que cooperem com essas operações terão a sua licença de operação cancelada". Com isto referia-se sobretudo a bancos e empresas telefónicas. O Governo brasileiro estuda entretanto a possibilidade de oferecer aos cidadãos um serviço de correio electrónico gratuito e cifrado.