"Brincar com o fogo". Xi e Biden trocam avisos sobre Taiwan em cimeira de poucos avanços

A cimeira virtual entre os dois líderes das maiores potências mundiais ficou marcada pelos alertas em relação à questão de Taiwan. O Presidente chinês avisou que qualquer apoio à independência do território por parte dos Estados Unidos seria "brincar com o fogo". Por sua vez, o Presidente norte-americano adiantou que Washington "opõe-se veementemente" às tentativas de Pequim em alterar o "status quo" no Estreito de Taiwan.

Andreia Martins - RTP /
Jonathan Ernst - Reuters

Intervir na questão de Taiwan seria “brincar com o fogo” e “quem brinca com o fogo queima-se”. São as palavras fortes de aviso por parte do Presidente chinês, que disse estar disposto a adotar “medidas decisivas” caso Taiwan insista na independência para lá das linhas vermelhas de Pequim.

"As autoridades de Taiwan tentaram repetidamente contar com os Estados Unidos para alcançarem a independência e algumas forças políticas nos Estados Unidos estão a tentar usar Taiwan para conter a China. Esta é uma tendência muito perigosa, que equivale a brincar com o fogo", alertou Xi Jinping, de acordo com um comunicado emitido pelo Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros.

Os dois líderes realizaram a primeira reunião, por videoconferência, desde que Joe Biden chegou à Casa Branca, no início deste ano. A questão de Taiwan acabou por dominar o diálogo, que se estendeu por três horas e meia, muito para além do previsto.

Nos últimos meses, o Presidente norte-americano vincou em duas ocasiões o compromisso dos Estados Unidos em defender Taiwan no caso de um ataque por parte da China. Nesta cimeira, Biden advertiu que os Estados Unidos "opõem-se veementemente" a qualquer "tentativa unilateral de mudar o status quo ou minar a paz e a estabilidade no estreito de Taiwan".

Ainda assim, o Presidente norte-americano garantiu que os EUA continuam comprometidos com a política de “uma China”, que reconhece apenas a existência um Estado chinês soberano. Frisou que ambos os países têm a responsabilidade de garantir que a rivalidade entre ambas as nações “não escala para um conflito aberto”.

Desde 1949 que a China e Taiwan vivem como territórios autónomos e num clima de tensão. Na altura, o governo nacionalista chinês refugiou-se na ilha após a derrota na guerra civil frente aos comunistas. Nos últimos anos, Pequim tem ameaçado avançar com o uso da força para travar a independência formal daquele território.
Conversa “franca e construtiva”, mas poucos resultados concretos

Apesar das palavras fortes na questão de Taiwan, o encontro virtual entre os dois líderes iniciou-se com um cumprimento caloroso. Xi Jinping disse estar feliz por rever “o seu velho amigo”, referindo-se aos antigos encontros entre ambos na altura em que Xi era o vice-presidente da República Popular da China e Joe Biden era o vice-presidente norte-americano durante a Administração Obama. Os media estatais chineses descreveram a conversação entre os dois líderes como “franca, construtiva, substantiva e frutífera”.

“O primeiro encontro virtual frente a frente entre os dois líderes durou três horas e meia depois de um início de conversa em tom amigável. Observadores chineses afirmaram que esta cimeira vai dar certezas nas relações bilaterais e enviar sinais de que os países estão prontos a cooperar em muitas áreas, apesar de não conseguirem evitar uma competição feroz”, escreve esta terça-feira o Global Times.

No entanto, “o facto de estarem a tentar gerir esta competição é, em si, um sinal positivo para o mundo”, adianta ainda o diário chinês na edição online.
“Parece-me que a nossa responsabilidade, enquanto líderes da China e dos Estados Unidos, é garantir que a competição entre os nossos países não acaba por se tornar num conflito, intencional ou não intencional”, afirmou Joe Biden.

Xi Jinping sublinhou neste encontro virtual que os dois países devem melhorar a “comunicação” e enfrentar vários desafios em conjunto.

“A humanidade vive numa aldeia global e todos juntos enfrentamos múltiplos desafios. A China e os Estados Unidos devem aumentar a comunicação e a cooperação”, disse o Presidente chinês.

Para além da questão de Taiwan, outros temas sensíveis marcaram a agenda desta reunião virtual de líderes. Longe da retórica inflamada e tom agressivo do antecessor, Donald Trump, o Presidente Joe Biden expôs ainda assim as preocupações dos Estados Unidos em relação à violação dos Direitos Humanos em Hong Kong da minoria uigur em Xinjiang. Por sua vez, Pequim acusou Washington de se intrometer nos assuntos de cariz interno.

Sobre o comércio, Joe Biden destacou a necessidade de “proteger os trabalhadores e indústrias norte-americanos do comércio e das práticas económicas desleais da República Popular da China”.

Xi Jinping respondeu que os Estados Unidos devem parar de “aproveitar-se do conceito de segurança nacional para oprimir as empresas chinesas”, adianta a Reuters.

Os dois líderes mantiveram ainda um diálogo importante sobre assuntos regionais, como a Coreia do Norte, Afeganistão e Irão, referem funcionários da Casa Branca citados pela Associated Press.

Um responsável norte-americano citado pelo jornal The Guardian refere que esta foi uma conversa “respeitosa, direta e aberta”, que permitiu uma interação substancial e superior às anteriores conversações por telefone. “Isto realmente proporcionou uma conversa diferente”, afirmou.

No entanto, a cimeira virtual ficou longe de alcançar resultados substantivos. “Não esperávamos avanços. Na verdade, o objetivo era desenvolver formas de administrar esta competição de forma responsável, garantindo que, à medida que avançamos, os Estados Unidos e China mantenham a estabilidade”, sublinhou o funcionário norte-americano.

“Temos uma sucessão de ações competitivas, mas somos capazes de manter as linhas de comunicação abertas. Trabalhamos com os nossos aliados e parceiros, confrontamos a China onde é necessário e, ao mesmo tempo, somos capazes de trabalhar em conjunto nos temas em que os nossos interesses se intersectam”, adiantou.

Para lá das palavras, o encontro terminou sem anúncios importantes ou uma declaração conjunta, longe de qualquer impacto definitivo ou significativo.

Parece que trocaram opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, mas não anunciaram decisões ou medidas políticas. Talvez algo ainda venha a ser revelado nos próximos dias, mas se não for, isto acabou por ser um recital das posições básicas de ambos os lados. Ambos parecem concordar que a relação tem de ter algumas grades de proteção e estabilidade, mas discordam sobre como chegar lá”, refere à agência Reuters Scott Kennedy, perito em assuntos da China no think-thank Center for Strategic and International Studies, em Washington.

Não obstante os parcos avanços, a conversa parece ser um sinal positivo para outros especialistas. Daniel Russel, antigo diplomata para questões asiáticas durante a Administração Obama, destacou que a cimeira entre os dois líderes foi alcançada ao fim de dez meses e, ainda que virtual, esta reunião poderá deixar a porta aberta a encontros futuros.

“Devemos pensar nisto não como uma espécie de cimeira pontual, mas como uma série de conversas importantes que podem levar a uma relação mais estável, enquanto os dois lados continuam a competir furiosamente”, adiantou à Reuters.
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