Cancro. Novas formas de tratamento ganham terreno à quimioterapia

por RTP
O novo centro vai produzir investigação alternativa ou complementar à quimioterapia Miguel A. Lopes/ Lusa

O tratamento de cancro, principalmente o da mama e do pulmão, integra, cada vez mais, outras técnicas como bloqueadores de estrogénio e medicamentos que atacam proteínas específicas na superfície dos tumores, em detrimento da quimioterapia.

Considerada durante décadas como “a regra, o dogma” para o tratamento do cancro da mama e de outros cancros, a quimioterapia está a ser utilizada cada vez menos, devendo a realização de testes genéticos revelar os casos em que este tipo de tratamento é benéfico, lê-se num artigo do jornal The New York Times, Cancer without chemotherapy: a total different world.

No entanto, a “oportunidade de evitar a quimioterapia não está distribuída uniformemente e depende com frequência do lugar em que o paciente está a ser tratado e do médico”, escreve a autora do artigo, Gina Kolata, que refere a crescente vontade dos oncologistas em reduzir tratamentos ineficazes, mas também em dar menos medicamentos por menos tempo.
As doenças oncológicas continuam a ser uma das principais causas de morte no mundo. Em Portugal, esta realidade também se verifica. Morreram 28.960 pessoas em 2018. Os cancros do pulmão, colorretal, do estômago, da próstata e da mama são os que mais mataram.

O médico oncologista Robert Vonderheide recorda as mudanças no tratamento do cancro com a prática de há duas décadas, quando cerca de 90 por cento das pacientes com cancro da mama eram tratadas com quimioterapia. “A grande discussão era: dás aos pacientes dois tipos de quimioterapia ou três? Agora estamos a caminhar para ver pacientes com cancro de pulmão avançado e dizer-lhes: Sem quimio”.

O princípio da mudança

A aprovação do primeiro medicamento direcionado para o cancro da mama Herceptin, há 15 anos, e a sua aplicação inicial complementar com o regime de quimioterapia para pacientes com uma proteína particular na superfície do tumor, foram os primeiros fatores de mudança no sentido da menor utilização da quimioterapia.

Na primeira fase, este medicamento intravenoso reduziu o cenário de recorrência para metade e o risco de morte por cancro da mama para um terço, “independentemente do tipo de quimioterapia utilizada”, disse Gabriel Hortobagyi, especialista em cancro da mama no Centro Oncológico MD, em Houston, citado pelo jornal The New York Times.

Em alguns ensaios, o medicamento começou a ser ministrado sem quimioterapia e provou ter resultados. “Isso começou a quebrar o dogma” de que a quimioterapia era essencial, apesar dos receios que a mudança de terapias oncológicas implica.

Vários estudos refletem as alterações na utilização da quimioterapia nos últimos anos. Entre 2013 e 2015, um estudo realizado com três mil mulheres revela que a quimioterapia utilizada na fase inicial do combate ao cancro da mama caiu de 26 para 14 por cento. Numa outra investigação, desta vez a incidir sobre a faixa etária de mulheres com mais de 60 anos, 35 por cento receberam quimioterapia em 2012 e 19 por cento em 2019.

Para isto contribuiu a indústria farmacêutica, que produz cada vez mais medicamentos direcionados para combater o cancro da mama, encontrando-se dezenas em ensaio clínico. Também o sequenciamento genético, cada vez mais rápido e mais barato, desempenhou um papel importante nesta mudança, permitindo que os médicos testem a resposta do tumor a um determinado fármaco.

Também a média da sobrevivência de mulheres com cancro da mama metastático tratadas com Herceptin cresceu de 20 meses para 57 meses. Para mulheres com tumores alimentados com estrogénio, a sobrevivência média aumentou de 24 meses na década de 1970 para 64 meses atualmente.

Apesar de os testes genéticos darem cada vez mais indícios sobre a eficácia, decidir sobre o tipo de tratamento a seguir requer coragem mesmo da parte dos médicos, em particular na fase mais avançada da doença.

“Está na natureza do oncologista estar constantemente preocupado tanto que esteja a sobremedicar ou a submedicar o paciente. Alguns casos deixam-me acordada à noite, em particular os casos em que os riscos e os benefícios da quimioterapia são muito aproximados, mas ainda assim os riscos parecem muito altos”, conta Susan Domcheck, especialista em cancro da mama, na Universidade da Pensilvânia.

Medicamentos de imunoterapia no novo centro em Portugal

O Centro do Cancro do Pâncreas Botton-Champalimaud, inaugurado esta segunda-feira, dará atenção especial ao estudo do perfil imunológico dos tumores do pâncreas e ao desenvolvimento de tratamentos inovadores nesta área

Segundo a fundação, pretende "investir especialmente no desenvolvimento de ensaios clínicos com novos medicamentos de imunoterapia e em vacinas antitumorais personalizadas", destacando-se ao nível dos ensaios a parceria com o Instituto Nacional de Saúde, dos Estados Unidos da América.

"O doente é uma peça essencial neste centro, queremos que seja um parceiro nisto. Por isso, tivemos também aqui uma preocupação, quer do ponto de vista da arquitetura, quer do ponto de vista da comodidade. Queremos que ele tenha a resistência, até do ponto de vista psicológico, para lidar com uma doença destas", explicou o responsável da Fundação Champalimaud, João Silveira Botelho.

O cancro do pâncreas é já a quarta causa de morte por cancro na Europa e estima-se que para as próximas duas décadas o número de novos casos possa aumentar em mais de 70 por cento. Em Portugal representa 2,8 por cento de todos os tipos de cancro, registando-se anualmente cerca de 1.700 novos casos.
A prevenção e a deteção antecipada do cancro são uma das prioridades políticas da Comissão Europeia, impulsionada pela presidente Ursula von der Leyen.




Taxas de sobrevivência para cancro do pulmão triplicam

Há 25 anos, quase todos os pacientes com cancro do pulmão eram tratados com quimioterapia, sentindo os efeitos associados: náuseas, fadiga, perda de cabelo, possíveis danos no coração e nos nervos de mãos e pés. Apesar do tratamento, a maior parte dos tumores, crescia e propagava-se. Menos de metade destes pacientes sobrevivia o próximo ano e nos próximos cinco anos, apenas cinco a 10 por cento resistiam.

A partir de 2010, estes números começam a inverter-se, com o aparecimento das terapias direcionadas. Existem vários medicamentos para os doentes com cancro do pulmão, que podem tratar um quarto dos pacientes. Quase metade dos pacientes que fizeram tratamento com um medicamento direcionado está viva após cinco anos. A taxa de tratamento dos cinco anos para os pacientes com cancro de pulmão avançado é agora de 30 por cento. No entanto, a quimioterapia ainda continua a ser a única opção para alguns pacientes.

A imunoterapia é outro tipo de tratamento de cancro do pulmão que foi desenvolvida nos últimos anos. Utiliza medicamentos para ajudar o sistema imunitário a atacar o cancro. Pode ser utilizada sozinha ou em complemento com a quimioterapia e é dada durante dois anos. A esperança de vida quase duplicou.

Cada vez mais, a quimioterapia como único tratamento inicial está a reduzir-se no Centro Oncológico Dana-Faber, nos Estados Unidos, um dos principais centros de pesquisa e de tratamento de cancro a nível mundial. Desde 2019, foram tratados apenas com quimioterapia 12 por cento dos pacientes, 21 por cento teve terapia direcionada como tratamento inicial e 85 por cento receberam imunoterapia apenas ou combinada com quimioterapia.
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