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Candidato anti-imigração perto de vencer eleições presidenciais na Áustria
Realiza-se este domingo a segunda volta das eleições presidenciais austríacas. Na corrida ao Palácio Imperial de Hofburg, em Viena, onde o presidente do país ocupa as suas funções, estão dois candidatos completamente improváveis. As últimas sondagens indicam como provável a vitória de Norbert Hofer, candidato da extrema-direita com ideais xenófobas e anti-imigração.
No próximo domingo, os olhos da Europa vão estar postos na Áustria. O pequeno país, no centro do Velho Continente, é mais um destino turístico do que uma força política reconhecida e tem uma população inferior à de Portugal (em 2015, o número não chegava aos 9 milhões). Mas poderá tornar-se no próximo laboratório da extrema-direita europeia.
Norbert Hofer, do Partido da Liberdade da Áustria, obteve 35 por cento dos votos na primeira volta das eleições, realizadas a 24 de abril. Se vencer a segunda volta, que se realiza no próximo domingo, dia 22 de maio, Hofer será o primeiro candidato do partido de extrema-direita a alcançar a Presidência da República.
Para os mais moderados, a esperança é agora depositada em Alexander Van der Bellen, do partido austríaco Os Verdes, que alcançou 21 por cento dos votos na primeira volta. Em França, por exemplo, quando Jean-Marie Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais, em 2002, vários partidos do espetro político uniram-se contra o candidato da Frente Nacional e Jacques Chirac obteve 82 por cento dos votos.

Alexander Van der Bellen foi líder dos Verdes entre 1997 e 2008. Foto: Heinz-Peter Bader - Reuters
Na Áustria, o apoio ao opositor de Hofer pelos restantes partidos parece não ser tão vigoroso. As últimas sondagens dão 53 por cento ao candidato de extrema-direita e 47 por cento a Van der Bellen.
Ao centro, resultados desastrososPela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial, os candidatos dos dois principais partidos não conseguem chegar à segunda volta.
Nas eleições da primeira volta, no mês passado, os dois principais partidos, coligados no poder há dez anos, obtiveram resultados desastrosos. Juntos, os candidatos dos partidos social-democrata e popular austríaco, que são as duas forças políticas do establishment austríaco, não ultrapassaram os 22 por cento dos votos na primeira volta, em abril.
Na Áustria, o presidente é eleito por voto popular. Geralmente resignado a funções mais simbólicas ou cerimoniais, é o mais alto representante do país e chefe máximo das Forças Armadas. Na política interna, e apesar do carácter habitualmente representativo associado ao cargo, o chefe de Estado dispõe de vários poderes que lhe permitem alterar por completo as mais importantes instituições de poder.
Se assim entender, o presidente austríaco pode destituir o Governo, dissolver o Parlamento e ainda apontar o nome de um novo chanceler, que no regime austríaco ocupa o lugar de líder do Governo.
Em declarações durante o período eleitoral para a primeira volta, Hofer admitiu a sua linhagem “oposta ao multiculturalismo, globalização e imigração em massa”. Entenda-se, nesta última designação, a referência direta ao acolhimento de refugiados vindos da rota dos Balcãs durante o ano de 2015, um tema que saiu muito caro aos principais atores da política austríaca.
Novo chanceler
O candidato da extrema-direita ainda nem sequer foi eleito e já causou reboliço em Viena. A segunda volta das eleições presidenciais acontecerá depois de o chanceler austríaco ter anunciado a demissão do cargo, no passado dia 9 de maio. Para além de ocupar o lugar de chanceler, Faymann era também o líder dos social-democratas austríacos. Desde a sua demissão do Governo, o presidente da Câmara de Viena, Michael Haüpl, assumiu o poder interino.
Werner Faymann colocou um ponto final a sete anos e meio de governação depois dos resultados das presidenciais da primeira volta, que vieram expor a grande instabilidade dos partidos que dominaram ao longo das últimas décadas.
Faymann pertence ao Partido Social Democrata austríaco, um dos partidos da coligação governativa, que viu o seu candidato à Presidência ser eliminado na primeira volta. Para além dos resultados desoladores nas presidenciais, o antigo chanceler vinha a perder o apoio das bases do partido há já vários meses.
Crise de refugiados é controversa
Se inicialmente o Governo austríaco se havia colocado ao lado de Angela Merkel na questão dos refugiados, de “portas abertas”, a contestação da direita e os bons resultados do Partido da Liberdade nas últimas eleições regionais levaram o antigo chanceler a assumir uma postura muito mais rígida, ao lado do partido de coligação de centro-direita, o Partido Popular.
De uma política de total acolhimento, a Áustria passou ao controlo das fronteiras e à negociação constante com Bruxelas sobre a quota de refugiados que o país seria obrigado a acolher. Mas o recente volte-face na política governativa não foi suficiente a Faymann para recuperar o terreno político perdido.
Para o substituir, o partido social-democrata escolheu Christian Kern. Durante a tomada de posse, na passada terça-feira, o novo chanceler austríaco não excluiu à partida a possibilidade de “cooperar” com uma extrema-direita em ascensão, mediante determinadas garantias, mas avisou que essa disponibilidade expiraria ao menor sinal de ataque direto “às minorias”.
Xenofobia e muros
Em 2015, pelo menos 90 mil refugiados e migrantes pediram asilo à Áustria, o que tem ajudado ao crescendo do sentimento anti-Islão na sociedade. Numa sondagem publicada pelo jornal Der Standard em janeiro de 2015, ainda antes do pico da crise migratória e dos ataques à revista satírica francesa Charlie Hebdo, metade dos austríacos já considerava o Islão “uma ameaça para a sociedade”.
Já este ano, em finais de abril, o Parlamento aprovou um projeto-lei que se traduz em medidas mais restritivas nos pedidos de asilo e no total bloqueio à entrada de migrantes e consequente repatriação, caso seja declarado o estado de emergência. Para além das novas medidas de segurança, Viena pretende construir um muro de 400 metros na fronteira com a Itália, perto da zona de Brenner, zona que é um dos principais pontos de passagem entre o país e a Alemanha.
Caso Hofer vença mesmo as eleições, esta não será a primeira vez que o partido anti-imigração e eurocético consegue chegar aos corredores do poder. É atualmente a terceira força política com representação no Nationalrat, o Parlamento austríaco e nos centros de decisão federais.
No passado, o Partido da Liberdade da Áustria, liderado por Jörg Haider, ficou em segundo lugar nas eleições legislativas de 2000, e chegou a integrar o executivo do chanceler Wolfgang Schüssel, numa coligação de pouca dura com o Partido Popular. Nesse ano, o Governo austríaco foi boicotado por vários países europeus, em especial pela França, que forçou a exclusão dos austríacos de encontros diplomáticos. Alguns Estados-membros da União Europeia chegaram mesmo a impor sanções económicas ao país dos Alpes.

Apoiantes de Hofer percorreram as ruas de Viena numa marcha de apoio, realizada esta sexta-feira. Foto: Leonhard Foeger - Reuters
Hoje, perante um candidato presidencial que adota ideais de isolacionismo e anti-imigração, são poucos os países europeus que lhe podem apontar o dedo, tendo em consideração o estado de graça dos vários movimentos de extrema-direita no Velho Continente.
Para muitos, a vitória de Hofer seria mais um motivo de alarme, a juntar à delicada situação governativa em países como a Hungria, com o primeiro-ministro Viktor Órban a ser uma das faces mais visíveis da vaga anti-Islão e anti-imigração, ou a Polónia, onde o euroceticismo e o nacionalismo ameaçam as liberdades individuais.
E se dúvidas restassem quanto à família política a que responde Norbert Hofer, as mensagens de apoio e incentivo que chegam da Europa são esclarecedoras. A menos de um ano das presidenciais francesas, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN) foi a primeira a felicitar o candidato, desde logo seguida pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve resultados impressionantes em vários Estados germânicos nas eleições regionais de março.
A jornalista francesa Sylvie Kauffmann avisava esta semana, numa coluna de opinião no New York Times, que a “estranha” situação política na Áustria não constitui “um fenómeno isolado”. É antes parte integrante de uma “tendência sólida” que afeta grande parte das democracias ocidentais.
Norbert Hofer, do Partido da Liberdade da Áustria, obteve 35 por cento dos votos na primeira volta das eleições, realizadas a 24 de abril. Se vencer a segunda volta, que se realiza no próximo domingo, dia 22 de maio, Hofer será o primeiro candidato do partido de extrema-direita a alcançar a Presidência da República.
Para os mais moderados, a esperança é agora depositada em Alexander Van der Bellen, do partido austríaco Os Verdes, que alcançou 21 por cento dos votos na primeira volta. Em França, por exemplo, quando Jean-Marie Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais, em 2002, vários partidos do espetro político uniram-se contra o candidato da Frente Nacional e Jacques Chirac obteve 82 por cento dos votos.
Alexander Van der Bellen foi líder dos Verdes entre 1997 e 2008. Foto: Heinz-Peter Bader - Reuters
Na Áustria, o apoio ao opositor de Hofer pelos restantes partidos parece não ser tão vigoroso. As últimas sondagens dão 53 por cento ao candidato de extrema-direita e 47 por cento a Van der Bellen.
Ao centro, resultados desastrososPela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial, os candidatos dos dois principais partidos não conseguem chegar à segunda volta.
Nas eleições da primeira volta, no mês passado, os dois principais partidos, coligados no poder há dez anos, obtiveram resultados desastrosos. Juntos, os candidatos dos partidos social-democrata e popular austríaco, que são as duas forças políticas do establishment austríaco, não ultrapassaram os 22 por cento dos votos na primeira volta, em abril.
Na Áustria, o presidente é eleito por voto popular. Geralmente resignado a funções mais simbólicas ou cerimoniais, é o mais alto representante do país e chefe máximo das Forças Armadas. Na política interna, e apesar do carácter habitualmente representativo associado ao cargo, o chefe de Estado dispõe de vários poderes que lhe permitem alterar por completo as mais importantes instituições de poder.
Se assim entender, o presidente austríaco pode destituir o Governo, dissolver o Parlamento e ainda apontar o nome de um novo chanceler, que no regime austríaco ocupa o lugar de líder do Governo.
Em declarações durante o período eleitoral para a primeira volta, Hofer admitiu a sua linhagem “oposta ao multiculturalismo, globalização e imigração em massa”. Entenda-se, nesta última designação, a referência direta ao acolhimento de refugiados vindos da rota dos Balcãs durante o ano de 2015, um tema que saiu muito caro aos principais atores da política austríaca.
Novo chanceler
O candidato da extrema-direita ainda nem sequer foi eleito e já causou reboliço em Viena. A segunda volta das eleições presidenciais acontecerá depois de o chanceler austríaco ter anunciado a demissão do cargo, no passado dia 9 de maio. Para além de ocupar o lugar de chanceler, Faymann era também o líder dos social-democratas austríacos. Desde a sua demissão do Governo, o presidente da Câmara de Viena, Michael Haüpl, assumiu o poder interino.
Werner Faymann colocou um ponto final a sete anos e meio de governação depois dos resultados das presidenciais da primeira volta, que vieram expor a grande instabilidade dos partidos que dominaram ao longo das últimas décadas.
Faymann pertence ao Partido Social Democrata austríaco, um dos partidos da coligação governativa, que viu o seu candidato à Presidência ser eliminado na primeira volta. Para além dos resultados desoladores nas presidenciais, o antigo chanceler vinha a perder o apoio das bases do partido há já vários meses.
Crise de refugiados é controversa
Se inicialmente o Governo austríaco se havia colocado ao lado de Angela Merkel na questão dos refugiados, de “portas abertas”, a contestação da direita e os bons resultados do Partido da Liberdade nas últimas eleições regionais levaram o antigo chanceler a assumir uma postura muito mais rígida, ao lado do partido de coligação de centro-direita, o Partido Popular.
De uma política de total acolhimento, a Áustria passou ao controlo das fronteiras e à negociação constante com Bruxelas sobre a quota de refugiados que o país seria obrigado a acolher. Mas o recente volte-face na política governativa não foi suficiente a Faymann para recuperar o terreno político perdido.
Para o substituir, o partido social-democrata escolheu Christian Kern. Durante a tomada de posse, na passada terça-feira, o novo chanceler austríaco não excluiu à partida a possibilidade de “cooperar” com uma extrema-direita em ascensão, mediante determinadas garantias, mas avisou que essa disponibilidade expiraria ao menor sinal de ataque direto “às minorias”.
Xenofobia e muros
Em 2015, pelo menos 90 mil refugiados e migrantes pediram asilo à Áustria, o que tem ajudado ao crescendo do sentimento anti-Islão na sociedade. Numa sondagem publicada pelo jornal Der Standard em janeiro de 2015, ainda antes do pico da crise migratória e dos ataques à revista satírica francesa Charlie Hebdo, metade dos austríacos já considerava o Islão “uma ameaça para a sociedade”.
Já este ano, em finais de abril, o Parlamento aprovou um projeto-lei que se traduz em medidas mais restritivas nos pedidos de asilo e no total bloqueio à entrada de migrantes e consequente repatriação, caso seja declarado o estado de emergência. Para além das novas medidas de segurança, Viena pretende construir um muro de 400 metros na fronteira com a Itália, perto da zona de Brenner, zona que é um dos principais pontos de passagem entre o país e a Alemanha.
Caso Hofer vença mesmo as eleições, esta não será a primeira vez que o partido anti-imigração e eurocético consegue chegar aos corredores do poder. É atualmente a terceira força política com representação no Nationalrat, o Parlamento austríaco e nos centros de decisão federais.
No passado, o Partido da Liberdade da Áustria, liderado por Jörg Haider, ficou em segundo lugar nas eleições legislativas de 2000, e chegou a integrar o executivo do chanceler Wolfgang Schüssel, numa coligação de pouca dura com o Partido Popular. Nesse ano, o Governo austríaco foi boicotado por vários países europeus, em especial pela França, que forçou a exclusão dos austríacos de encontros diplomáticos. Alguns Estados-membros da União Europeia chegaram mesmo a impor sanções económicas ao país dos Alpes.
Apoiantes de Hofer percorreram as ruas de Viena numa marcha de apoio, realizada esta sexta-feira. Foto: Leonhard Foeger - Reuters
Hoje, perante um candidato presidencial que adota ideais de isolacionismo e anti-imigração, são poucos os países europeus que lhe podem apontar o dedo, tendo em consideração o estado de graça dos vários movimentos de extrema-direita no Velho Continente.
Para muitos, a vitória de Hofer seria mais um motivo de alarme, a juntar à delicada situação governativa em países como a Hungria, com o primeiro-ministro Viktor Órban a ser uma das faces mais visíveis da vaga anti-Islão e anti-imigração, ou a Polónia, onde o euroceticismo e o nacionalismo ameaçam as liberdades individuais.
E se dúvidas restassem quanto à família política a que responde Norbert Hofer, as mensagens de apoio e incentivo que chegam da Europa são esclarecedoras. A menos de um ano das presidenciais francesas, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN) foi a primeira a felicitar o candidato, desde logo seguida pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve resultados impressionantes em vários Estados germânicos nas eleições regionais de março.
A jornalista francesa Sylvie Kauffmann avisava esta semana, numa coluna de opinião no New York Times, que a “estranha” situação política na Áustria não constitui “um fenómeno isolado”. É antes parte integrante de uma “tendência sólida” que afeta grande parte das democracias ocidentais.