Caos de Bombaim provoca as primeiras baixas na cúpula política indiana

As ondas de choque dos atentados que nos últimos dias se abateram sobre Bombaim levaram o ministro indiano do Interior e o conselheiro de Segurança Nacional a apresentarem a demissão. Ambos estão entre os políticos mais criticados no rescaldo de uma vaga de ataques que em três dias transformou o coração da capital comercial da Índia num campo de batalha.

Carlos Santos Neves, RTP /
O Governo indiano reviu o número de vítimas mortais dos atentados de Bombaim para 174 STR, EPA

Inépcia e incompetência são os substantivos mais utilizados nos meios de comunicação indianos após 62 horas de terror em Bombaim. Os líderes políticos indianos partilham com os serviços secretos o ónus de uma torrente de críticas que põe em causa a capacidade das autoridades para prever e mesmo obviar acções terroristas como a dos últimos dias.

“Os nossos políticos assobiam enquanto os inocentes morrem”, lê-se na primeira página da edição de domingo do jornal Times of India.

A primeira vítima política dos mortíferos atentados de Bombaim foi o titular da pasta do Interior no Governo de Manmohan Singh. Shivraj Patil não resistiu à condenação no espaço público e apresentou a demissão ao chefe do Governo, alegando sentir-se na obrigação de tomar em mãos a “responsabilidade moral” pelos acontecimentos no motor financeiro da Índia.

A decisão do ministro do Interior, já confirmada pelo Partido do Congresso, poderá ser apenas o preâmbulo de um abalo mais amplo nas estruturas do poder político indiano. Poucas horas depois da notícia da demissão de Patil, o conselheiro de Segurança Nacional M. K. Narayanan entregava a carta de demissão ao chefe do Governo.

Na esteira de uma vaga de atentados que deixou Bombaim pejada com os corpos de quase 200 pessoas, o Executivo de Singh redobra esforços numa tentativa de passar a mensagem de uma lição aprendida. Nova Deli já fez saber que vai aumentar a segurança do país.

“Estamos a pedir aos governos dos Estados para aumentarem a segurança para um nível de guerra”, garantiu em entrevista à agência Reuters o ministro de Estado para os Assuntos Internos, Sriprakash Jaiswal.

Atentados transformados em arma política

As críticas começaram a ganhar força quando as forças indianas de elite ainda varriam os corredores do hotel Taj Mahal Palace no encalço dos últimos extremistas ali entrincheirados. Do partido no poder à maior força da Oposição, o Partido Bharatiya Janata (BJP), ninguém foi poupado.

A Índia encaminha-se para eleições gerais, marcadas para Maio do próximo ano. E os principais contendores do tabuleiro político não se coíbem de fazer do caos de Bombaim uma arma de campanha, com a poeira e o fumo por dissipar.

Num anúncio publicado pelos principais jornais do país, o BJP dispara: “Ataques terroristas brutais à vontade. Governo fraco. Sem vontade e incapaz. Combata o terrorismo, vote BJP”.

O Partido do Congresso responde à letra com a ideia de que os “dias de falsa campanha não podem substituir dez anos de desenvolvimento”.

“Estamos fartos de políticos que usam o terrorismo como argumento para ganhar votos. Estamos fartos da sua incompetência. No que nos diz respeito, são todos o mesmo”, escreve o colunista indiano Vir Sanghvi no Hindustan Times.

Mira apontada ao Paquistão

No rescaldo da última investida das forças especiais contra os extremistas islâmicos, as autoridades indianas insistem em colocar o vizinho Paquistão no centro de todas as acusações.

Os ataques foram reivindicados por um grupo desconhecido, os Deccan Mujahidin, mas em Nova Deli continua a campear a ideia de que o nível de sofisticação demonstrado pelos extremistas remete para a marca de grupos paquistaneses como o Lashkar-e-Taiba.

A imprensa do país noticia este domingo que o único militante capturado com vida pelas forças de segurança terá confessado que os autores dos ataques eram de nacionalidade paquistanesa e foram preparados por aquela organização terrorista, responsável pelo atentado de 2001 contra o Parlamento indiano.

Segundo fontes dos serviços secretos, o homem, identificado como Ajmal Amir Kamal, de 21 anos, continua a ser interrogado em Bombaim. Terá também indicado que o grupo de uma dezena de atacantes chegou à cidade em embarcações pneumáticas a partir de um navio maior.

Na entrevista à Reuters, o ministro de Estado para os Assuntos Internos sintetizou a posição do Governo: “Eles podem dizer o que quiserem, mas não temos dúvidas de que os terroristas vieram do Paquistão”.

Ganha consistência o cenário de um retrocesso nos esforços de aproximação entre as duas potências nucleares que vinham sendo alimentados desde 2004.

Islamabad admite deslocar meios militares da Província da Fronteira Noroeste, bastião tribal e base de retaguarda da guerrilha taliban, para a fronteira com a Índia. O primeiro-ministro paquistanês, Yousaf Raza Gilani, começou a contactar os líderes da Oposição com o objectivo de reunir apoio para nova escalada entre dois países que já travaram três guerras desde 1947.
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