Caso Floyd. Como um "polícia bom" se tornou cúmplice de homicídio

por RTP
Mike Segar, Reuters

Alexander Kueng, o polícia negro que ajudou a imobilizar George Floyd quando este foi asfixiado pelo agente Derek Chauvin, tem uma história trágica: escolheu a carreira, dizendo que queria reformar por dentro a polícia de Minneapolis e aproximá-la da comunidade negra. A veleidade reformadora acabou da pior maneira.

J. Alexander Kueng, de 26 anos, é filho de pai nigeriano e mãe branca, mestiço de pele relativamente clara, e alguns dos seus amigos negros costumavam dizer-lhe que isso o poupava à experiência traumática de sofrer o racismo na sua forma mais crua.

Em declarações à imprensa, a mãe conta as discussões que Kueng teve com a família e os amigos antes de se candidatar a um lugar na polícia de Minneapolis: "Parte dos motivos para ele querer tornar-se agente da polícia - e ainda por cima um agente negro - era preencher esse vazio na comunidade, mudar a narrativa entre os agentes e a comunidade negra".

Por isso, a notícia de que Kueng fora expulso da polícia e acusado pelo seu envolvimento no homicídio de George Floyd foi recebida pela família e pelos amigos como "um murro no estômago".

O episódio foi de tal modo fracturante para a família que, perante as manifestações de protesto pelo homicídio de Floyd, um irmão e uma irmã do agente, ambos de 21 anos, se juntaram ao coro exigindo que ele fosse preso. Mas Alexander foi apenas detido e depois libertado com a fiança quase milionária de 750 mil dólares.

Entretanto a irmã, Radiance, rejeita mesmo a atenuante de inexperiência alegada pelo agente, que estava nesse momento a fazer a sua terceira intervenção policial: "Não quero saber se era o terceiro dia de trabalho dele ou não. Ele sabe o que é certo e o que é errado". A isto acrescenta Radiance que pondera se há-de pedir para mudar o apelido, para não conservar o mesmo do irmão.

A família Kueng não é a única que o homicídio de George Floyd destruiu. A mulher do homicida Derek Chauvin manifestou publicamente a sua simpatia à família da vítima, anunciou que não quer conservar o apelido de Chauvin e que requereu o divórcio.

Alguns dos amigos de infância negros são menos radicais do que a irmã de Kueng, mas mostram-se igualmente deprimidos pelo desfecho que teve a fantasia reformadora do jovem agente. Um deles, Darrow Jones, diz que continua a ser amigo de Kueng, mas que se sente triste e decepcionado.

E conta as discussões que teve com Kueng quando este decidiu entrar para a polícia: "O nosso principal desacordo sobre as forças da ordem não era por eu pensar que os polícias são más pessoas. Eu simplesmente penso que o sistema tem de ser completamente varrido e substituído. É a diferença entre reformar e reconstruir".

Kueng concluiu em dezembro de 2019 a sua formatura na academia de polícia, precisamente sob a supervisão de Derek Chauvin, o homicida de Floyd. A sua entrada ao serviço foi postergada por Chauvin e acabou por concretizar-se em 22 de maio, passando a ser um dos 80 agentes negros num total de 900 da polícia de Minneapolis.

Três dias depois, Kueng foi chamado a intervir no incidente em que um lojista se queixara por Floyd lhe ter pago com uma nota alegadamente falsa. Dirigiu-se ao local com o outro agente da sua dupla e, quando tentava fazer Floyd entrar no carro-patrulha, chegou uma segunda equipa - Chauvin e um outro agente. Os quatro imobilizaram Floyd e Chauvin asfixiou-o durante quase nove minutos, até à morte.

Enquanto Floyd, algemado e imobilizado no chão, se queixava de não conseguir respirar, Kueng mantinha o joelho sobre as costas deste.

Libertado sob fiança, Kueng foi reconhecido dias depois, quando fazia compras num supermercado, interpelado e filmado por uma pessoa que depois colocou o vídeo online. Às interpelações pelo seu envolvimento no homicídio, limitou-se a responder: "Lamento que pense assim".


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