Cenário extremo. Coronavírus pode infetar 60% da população mundial se não for controlado

por Alexandre Brito - RTP
Mapa com os casos de coronavírus no centro de Coordenação de Resposta de Emergência da União Europeia, em Bruxelas EPA

As incertezas são ainda muitas e apesar de o coronavírus estar, aparentemente, a ter maior impacto na China, a epidemia pode espalhar-se. Ao jornal britânico The Guardian, o professor Gabriel Leung, a caminho de uma reunião da Organização Mundial da Saúde, reconhecido epidemiologista de Hong Kong, afirmou que, se não for controlado, o coronavírus pode infetar 60 por cento da população mundial. O fundamental, neste momento, é avaliar se as contramedidas que estão a ser aplicadas na China estão a ter resultado e, em caso positivo, certificar que outros países estão dispostos a aplicar soluções idênticas.

O aviso de Gabriel Leung surge depois de a própria Organização Mundial da Saúde ter afirmado que os recentes casos de coronavírus, de pessoas que nunca visitaram a China, podem ser a "ponta do icebergue".

A questão, nesta altura, diz este reponsável pela Saúde Pública em Hong Kong, é perceber o tamanho e a forma desse icebergue.

De acordo com Leung, nesta entrevista ao Guardian, a maior parte dos especialistas acredita que cada pessoa infetada pode transmitir o coronavírus a cerca de 2,5 pessoas. O que resulta numa taxa de ataque de 60 a 80 por cento.

"Sessenta por cento da população mundial é um terrível número", diz Leung. "Se isso vier a acontecer, mesmo com uma taxa de mortalidade baixa, de 1 por cento, o número de vítimas mortais por causa deste novo vírus poderá ser enorme".O que fazer?

Para já, diz este especialista, a prioridade é verificar se as medidas que estão a ser aplicadas na China estão a ter efeito. Ou seja, se a quarentena e os cuidades médicos que estão em curso estão a ajudar para conter o vírus.

Em caso positivo, diz Gabriel Leung, é fundamental perceber até que ponto outros países estão dispostos a aplicar medidas semelhantes ou se têm condições para o fazer.

"Vamos assumir que as medidas estão a funcionar", diz Gabriel Leung. "Mas quanto tempo podem fechar as escolas? Por quanto tempo podem fechar uma cidade inteira? Por quanto tempo conseguem impedir as pessoas de irem aos centros comerciais? E se retirarmos essas medidas, voltará tudo ao mesmo? Estas são as principais questões".

De acordo com este especialista, no imediato, as medidas de contenção são essenciais. Até porque, nesta altura, ainda há alguma incerteza sobre o tempo que demora uma pessoa infetada a revelar sintomas. Há países com forte ligações à China, como a Indonésia, que inexplicavelmente não têm casos de infeção declarados. "Onde é que estão?"

Para Gabriel Leung a quarentena é essencial, mas para se ter a certeza que as pessoas não estão infetadas após a mesma deveriam fazer testes a cada par de dias.

Se alguém de um local de quarentena, ou, por exemplo, num cruzeiro, testar positivo, todas as outras pessoas devem voltar a estar 14 dias de quarentena.

Gabriel Leung questiona também a atitude de outros países perante a epidemia. E dá exemplos. Numa visita recente à Tailândia, aconselhou o Governo a criar campos de quarentena, o que fez. Mas há outros países com forte ligações à China, como a Indonésia, que inexplicavelmente não têm casos de infeção declarados. "Onde é que estão?", pergunta.

A facilidade e rapidez de deslocação de pessoas, nos dias de hoje, é um dos maiores problemas na contenção de vírus como este. "Surtos independentes (sem ligação direta à China) em grandes cidades pelo mundo podem ser inevitáveis" uma vez que os sintomas só se revelam alguns dias depois de a pessoa estar infetada.
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