Charlie, um ano depois: como vivem os heróis de Dammartin-en-Goële?

Os ataques ao Charlie Hebdo chegaram ao fim com a operação de Dammartin-en-Goële. As autoridades abateram os irmãos Kouachi, que estavam barricados numa gráfica daquela localidade francesa, a norte de Paris. Um ano depois, o edifício mantém-se em ruínas e a empresa labora noutro espaço. Os dois homens que ficaram no edifício durante a longa operação tentam regressar à normalidade. Uma missão difícil.

Christopher Marques - RTP /
Em Dammartin-en-Goële, o edifício onde decorreu a operação policial permanece destruído. A reconstrução deverá ter início em breve. Christophe Petit Tesson - EPA

Dammartin-en-Goële apresenta-se como o capítulo final da saga iniciada com o ataque ao satírico Charlie Hebdo. Para outros, é algo mais: um ponto de viragem, um dia difícil que obriga a um verdadeiro recomeço.

As vidas de Michel Catalano e Lilian Lepère mudaram radicalmente a 9 de janeiro de 2015: o dia em que o terrorismo lhes entrou gráfica dentro.

A fábrica de Catalano tornou-se no local onde os irmãos Kouachi procuraram refúgio e onde acabaram por ser abatidos pelas autoridades. Durante horas, Michel e Lilian permaneceram no interior. O primeiro apresentou-se aos reféns. O segundo escondeu-se.
Uma gráfica em ruínas

Aconteceu há um ano. Os órgãos de comunicação desmobilizaram da pequena localidade de menos de nove mil habitantes, mas o fantasma paira em Dammartin. Em dezembro, Le Figaro constatava que a gráfica onde se deu o assalto continuava em ruínas.

Uma barreira de segurança impede a entrada na empresa. Parte da fachada está tapada com plásticos. A caixa de correio está fechada com fita-cola e há ainda destroços no chão. “Mesmo neste dia ensolarado de dezembro, a cena é particularmente sinistra”, retratava o diário.



Apesar do cenário, a fábrica continua a laborar. Não ali, é certo. Catalano retrata que não foi fácil seguir. “Foi um período muito difícil. Sofri um choque pós-traumático. Chorava todos os cincos minutos, não conseguia falar”, confessa ao diário francês.“As pessoas imaginam que me passaram cheques e que tudo regressou à normalidade. É muito mais complicado do que isso".

“Durante a semana, trabalhávamos para recuperar os nossos clientes”. Ao fim de semana, a pedido das seguradoras, “separávamos as máquinas danificadas”, conta o dono da gráfica CTD.

Os donativos e a generosidade de muitos permitiram-lhe seguir com o trabalho, em espaços diferentes. Tudo prometia ser rápido, mas demorou “muito mais tempo do que previsto”. Só em novembro é que se chegou a acordo com as seguradoras e o Estado.

“As pessoas imaginam que me passaram cheques e que tudo regressou à normalidade. É muito mais complicado do que isso. Esquecem-se que todos os meses perdi dinheiro”, insiste. Acabou por também perder o seu funcionário Lilian. O jovem ainda tentou manter-se na empresa em fevereiro e março, mas acabou por sair.
"Cicatrizes a mais"
Michel Catalano entende a decisão que Lilian tomou. “Via que era difícil para ele e compreendo-o. Até eu tenho dificuldade em ir para lá”, admite. Lilian era o funcionário que permaneceu oito horas escondido debaixo do lava-loiças naquela sexta-feira.

“Cicatrizes a mais, recordações a mais, medos a mais”, conta o jovem. A decisão apresenta-se como a melhor para avançar, seguir em frente. A rádio France Info retrata que o rapaz se encontra “bastante bem” atualmente. No entanto, não foi tão fácil como Lilian esperaria.

Em janeiro, 72 horas depois da operação, o jovem afirmava que a vida tinha já retomado o seu curso. A calma, fluidez do discurso e o sorriso que mostrava na entrevista que deu a 12 de janeiro até surpreendiam.



Afinal, tinha estado há poucos dias escondido durante mais de oito horas, junto aos irmãos que abateram 12 pessoas em Paris. Sem dramas, sabe agora que ultrapassar aquele dia não é assim tão fácil.

“Vivi acontecimentos que mudaram a minha vida. Logo depois destes acontecimentos, repetia que a vida não iria mudar. Mas mudou”, confessa agora.

“Tenho flashs de tempos a tempos”, confessa, antes de exemplificar: “Os ruídos insignificantes para os outros, mas que prendem a minha atenção regularmente. Os pensamentos sombrios que regressam em momentos absurdos, como quando lavo a loiça”.
Oito horas escondido
O lava-loiças tornou-se um elemento central desta história. Foi debaixo dele que Lilian permaneceu por mais de oito horas. Escondido num móvel, a partir do qual conseguira dar instruções às autoridades, usando o telemóvel. O mesmo lava-loiças que um dos terroristas usou para beber água.

“Ouço a água a correr sobre a minha cabeça. Vejo a sua sombra pela frecha da porta. Sinto água pelas costas porque o sifão tem uma fuga. É um momento surrealista, completamente surrealista”, explicitava na entrevista de há um ano.

Acabou por recorrer a um psiquiatra, apesar de inicialmente ter acreditado não ser necessário. “Afinal, não era opcional”, confessa. Também Michel Catalano recorreu a ajuda especializada e quer agora reconstruir o edifício de Dammartin.

Reportagem de Sérgio Vicente e Sara Cravina (9 de janeiro de 2015)

“A minha psicóloga disse-me que, se o conseguisse reconstruir, seria mais forte do que antes. Esta ideia tranquiliza-me”, contou em dezembro a Le Figaro. Tenciona aumentar o edifício, contratar mais trabalhadores e mudar a configuração do espaço interior. As obras devem começar ainda em janeiro e acabar com o cenário ainda sinistro que persiste em Dammartin-en-Goële.

Apesar de já não terem uma relação profissional, os dois homens continuam a encontrar-se. O jovem considera que o elo que os liga se manterá para sempre. Afinal, naquela sexta-feira de janeiro, foi Michel que pediu a Lilian que se escondesse. Durante aquelas longas horas, o patrão permaneceu com os terroristas. Disseram-lhe que não lhe queriam fazer mal, o empresário ofereceu-lhes café e tratou-lhes das feridas. Ambos temeram pela vida.

“Reencontramo-nos regularmente. Comemos qualquer coisa e falamos. Falamos do que aconteceu naquele dia, mas também da vida, de outras coisas. Tentamos rir como o fazíamos antes”, conta Lilian.
Crítica à comunicação social
Em Dammartin, a reconstrução da gráfica está por fazer. Em curso está uma queixa que Lilian apresentou contra alguns órgãos de comunicação franceses. O jovem não percebe que os media tenham divulgado, em direto, que se encontrava escondido no edifício.

“Tive a sorte de não estarem a escutar os media que puseram a minha vida em perigo. Tudo estava em direto quando não havia qualquer urgência. A única urgência era salvar a minha vida, não revelar ao mundo que estava escondido no interior e vulnerável”, conta.

O jovem quer motivar uma reflexão aos jornalistas, defendendo que “a corrida à informação não fará avançar o mundo”. A cobertura noticiosa dos atentados de janeiro tinha já merecido a crítica do CSA, o equivalente à Entidade Reguladora da Comunicação Social portuguesa. “Tive a sorte de não estarem a escutar os media que puseram a minha vida em perigo. Tudo estava em direto quando não havia qualquer urgência. A única urgência era salvar a minha vida".

Para os dois, não foi fácil viver os recentes acontecimentos de Paris. Quando, em novembro, o fanatismo islâmico voltou a atacar a capital francesa e tirou a vida a 130 pessoas, a preocupação regressou.

“É como uma ferida aberta na qual vêm carregar com muita força”, descreve Michel. Lilian segue a atualidade, mas evita fazê-lo de uma forma muito assídua: não quer ser afetado por cada ameaça, cada pequena notícia.

“Apesar de não ter visto mortos, não ter perdido gente próxima, apesar de não ter visto o sangue a escorrer, acho que consigo imaginar aquilo pelo que passaram os outros sobreviventes”, conta o jovem. Acredita que há uma empatia entre estes sobreviventes, como se de uma comunidade se tratasse.

Uma comunidade que precisa de ultrapassar acontecimentos inesperados, que certamente deixam marcas para a vida. Michel Catalano sabe que é um combate que se faz também contra si próprio, contra os “pensamentos negativos” que regressam frequentemente.

É também por isso que respondeu ao desafio de Le Figaro. “Para mostrar que podemos recomeçar, mesmo depois de um drama destes, e ser mais fortes”. “A reconstrução é lenta, mas podemos lá chegar”.
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