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China lança "exercícios de punição" em torno de Taiwan após posse de Lai Ching-te

por Cristina Sambado - RTP
Forças Armadas de Taiwan controlam um navio militar chinês ao largo da costa da ilha Ministério da Defesa de Taiwan – AFP

A China lançou dois dias de manobras militares "em redor" de Taiwan", três dias após a tomada de posse do novo presidente do território, Lai Ching-te, avançou a agência de notícias oficial chinesa Xinhua. Pequim arruma as eleições na estante dos "atos separatistas".

Os meios de comunicação social estatais chineses afirmaram que dezenas de caças do Exército de Libertação Popular (ELP), munidos de mísseis reais, tinham efetuado ataques simulados contra "alvos militares de elevado valor", operando em conjunto com a marinha e as forças de mísseis. 

As imagens de propaganda divulgadas na Internet e republicadas pelos meios de comunicação social estatais também mencionavam os mísseis balísticos Dongfeng terrestres da China, mas não há confirmação de que estavam a ser utilizados.Os exercícios são a primeira resposta concreta da China à tomada de posse de Lai Ching-te como novo presidente de Taiwan, na segunda-feira, depois de ter vencido as eleições democráticas de janeiro. Tanto Lai como a sua antecessora, Tsai Ing-wen, pertencem ao Partido Democrático Progressista (DPP), pró-soberania, que Pequim considera separatista.

A imprensa estatal chinesa revelou esta quinta-feira que os exercícios, com o nome de código Joint Sword-2024 A, envolveriam unidades do Exército, da Marinha, da Força Aérea e da força de mísseis, operando no Estreito de Taiwan, a norte, sul e leste da ilha principal.

As unidades também operarão em torno das ilhas de Kinmen, Matsu, Wuqiu e Dongyin, todas próximas da China continental. As autoridades taiwanesas disseram à Reuters que essas áreas estavam fora da zona contígua de Taiwan, que fica a 24 milhas náuticas da costa da ilha principal.

No entanto, ao contrário de um exercício semelhante "Espada Conjunta" realizado em abril do ano passado, estes exercícios têm a designação "A", abrindo a porta a eventuais sequências.

O porta-voz do Exército de Libertação Popular (ELP), Li Xi, afirmou que os exercícios "servirão como um forte castigo para os atos separatistas das forças da 'independência de Taiwan' e um aviso severo contra a interferência e a provocação de forças externas", acrescentou a agência noticiosa estatal Xinhua.

A emissora estatal considera que o discurso de Lai era "extremamente prejudicial" e que os exercícios - que chamou de "contramedidas" - eram "legítimos, legais e necessários".

“O futuro de Taiwan só pode ser decidido pelos 1,4 mil milhões de habitantes da China e não apenas pelos 23 milhões de habitantes de Taiwan”, acrescentou a emissora.
"Provocações militares unilaterais"
Em resposta aos exercícios, Taiwan acusou a China de "provocação irracional e de perturbar a paz e a estabilidade regionais".

O Ministério da Defesa afirmou que as forças marítimas, aéreas e terrestres foram colocadas em alerta, a segurança das bases foi reforçada e as forças de defesa aérea e de mísseis receberam ordens para monitorizar possíveis alvos. Taipé está também a preparar-se para operações de guerra cognitiva.

"O atual exercício militar não só não contribui para a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan, como também realça a natureza hegemónica do [Partido Comunista Chinês]", acrescentou o Ministério da Defesa de Taiwan.Os militares de Taiwan afirmam que as suas forças estão em alerta e confiantes de que podem proteger a ilha.

O gabinete presidencial de Taiwan lamentou o facto de a China estar a ameaçar as liberdades democráticas da ilha e a paz e estabilidade regionais com as suas "provocações militares unilaterais", mas sublinhou que a população podia ficar descansada porque Taipé garante a sua segurança.

Pequim afirma que Taiwan é uma província da China e prometeu anexá-la, se necessário, pela força.

O Governo e a população de Taiwan rejeitam esmagadoramente a perspetiva de uma governação do Partido Comunista Chinês (PCC) e os dirigentes de Taiwan prometeram aumentar as medidas de dissuasão e reforçar as defesas, instando simultaneamente a China a pôr termo às suas ameaças e a regressar ao diálogo.
Palavras controversas de William Lai
William Lai assumiu o cargo de presidente da ilha em substituição de Tsai Ing-wen (2016-2024), também do Partido Democrático Progressista (DPP, na sigla em inglês), na segunda-feira.

No discurso de tomada de posse, Lai disse que "a paz não tem preço e a guerra não tem vencedores" e deixou clara a intenção de manter o atual status quo entre os dois lados do Estreito e não declarar a independência de Taiwan.O novo presidente disse também que a República da China (nome oficial de Taiwan) e a República Popular da China "não estão subordinadas uma à outra" e que a soberania da ilha cabe aos seus 23 milhões de habitantes.

"Há quem chame a esta terra República da China, há quem chame Taiwan e há quem chame Formosa. Mas, qualquer que seja o nome usado para referir a nossa nação, nós brilharemos independentemente", assegurou Lai.

Em resposta, a imprensa oficial chinesa acusou na terça-feira o novo líder de Taiwan de "provocar o confronto" e "promover descaradamente a independência" do território.

O território de 23 milhões de habitantes opera como uma entidade política soberana, com diplomacia e exército próprios, apesar de oficialmente não ser independente. Pequim considera Taiwan parte do território chinês e já avisou que uma proclamação formal de independência seria vista como uma declaração de guerra.
Pressão aumentou nos últimos anos
Nos últimos anos, a China intensificou a pressão sobre Taiwan, com o aumento das incursões da força aérea na sua zona de identificação de defesa aérea, a coerção económica e a guerra cognitiva, destinadas a convencer Taiwan a aceitar uma tomada de poder chinesa sem guerra.

Os mapas das áreas de treino publicados na manhã desta quinta-feira mostraram os exercícios a funcionar em áreas semelhantes às de 2022, quando a China cercou Taiwan com exercícios de fogo real em resposta a uma visita a Taipé da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi. Esta série de exercícios, cuja dimensão não tinha precedentes, durou quatro dias.

Em 2023, a China voltou a efetuar exercícios em grande escala, em resposta a uma reunião nos EUA entre a presidente Tsai e o presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Kevin McCarthy. Esses exercícios intensificaram as táticas apresentadas em 2022, simulando um bloqueio de Taiwan e ataques pré-invasão.

Na terça-feira, o Gabinete dos Assuntos de Taiwan da China tinha alertado para "contramedidas" indefinidas ao discurso de tomada de posse de Lai, no qual este apelou a Pequim para pôr fim à sua hostilidade.

Qualquer discurso de um presidente pertencente ao Partido Democrático Progressista, que não capitule perante a posição de Pequim, segundo a qual Taiwan pertence à China, é suscetível de provocar uma reação exasperada.

No entanto, exercícios militares como os que foram lançados agora requerem um planeamento exaustivo, e é provável que tenham sido preparados muito antes do discurso de Lai.Preocupações de Tóquio e Seul
O secretário-geral do Governo japonês, Yoshimasa Hayashi, afirmou esta quinta-feira que Tóquio iria contactar Pequim para comunicar "direta e claramente" a Pequim a importância de manter a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan.

O Japão, que tem uma forte relação com Taiwan e é um aliado próximo dos EUA, tem vindo a manifestar cada vez mais a sua preocupação com as ações da China no Estreito de Taiwan, em parte devido ao território japonês que se encontra próximo de Taiwan.

Já o Ministério sul-coreano dos Negócios Estrangeiros afirmou que a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan devem ser mantidas.

c/ agências
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