China rejeita discutir a questão de Hong Kong no G20

Pequim alertou esta segunda-feira que não vai permitir que o encontro de líderes do G20, que se inicia dentro de três dias em Osaka, Japão, tenha como tópico a questão de Hong Kong. Zhang Jun, secretário do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, lembra que as potências internacionais não têm direito de interferir em “assuntos internos”.

Andreia Martins - RTP /
Um grupo de manifestantes bloqueou a sede da polícia da Hong Kong na última sexta-feira Ann Wang - Reuters

No final da semana, entre 28 e 29 de junho, Xi Jinping, Donald Trump e os principais líderes mundiais vão estar reunidos em Osaka, no Japão, em mais um encontro do G20. Tal como no ano passado, em Buenos Aires, a guerra comercial entre as duas maiores economias a nível mundial – Estados Unidos e China – deverá estar em cima da mesa. Mas, em 2019, há um tema que Pequim parece decidida a evitar a todo o custo. 

Esta segunda-feira, o secretário do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Zhang Jun, avisou que o país não irá permitir que se discuta a recente agitação em Hong Kong nos palcos mundiais.  

“O que vos posso dizer com certeza é que o G20 não irá discutir a questão de Hong Kong. Não vamos permitir que o G20 discuta a questão de Hong Kong. (…) Hong Kong é uma região administrativa especial da China. Hong Kong é um assunto de interesse puramente interno para a China. Nenhum país tem o direito de interferir”, enfatizou o responsável, quando questionado se Trump e Xi iriam discutir o tema. 

Zhang Jun referiu ainda que “não importa o local nem o método, não vamos permitir que nenhum país ou pessoa interfira nos assuntos internos da China”.  

À margem do evento principal que reúne as 20 maiores economias do mundo, deverá decorrer um encontro bilateral entre Donald Trump e Xi Jinping onde a guerra comercial em curso deverá ser discutida. No entanto, o Presidente norte-americano já demonstrou a intenção de discutir a questão de Hong Kong, revelou na semana passada o secretário de Estado, Mike Pompeo.

Nas últimas semanas Hong Kong tem sido palco de enormes protestos com milhões de pessoas nas ruas. O motivo é a polémica lei que previa a revisão das regras de extradição de cidadãos da antiga colónia britânica para a China continental. 

A polícia tem respondido aos protestos das últimas semanas com violência, desde balas de borracha e granadas de gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes.  
 
O projeto de lei foi suspenso por tempo indeterminado, mas as manifestações continuaram nas ruas, onde se continua a exigir a retirada definitiva da lei da extradição, bem como a libertação dos detidos nos últimos protestos e a demissão da chefe de Governo, Carrie Lam. 
Novo protesto marcado
Na última sexta-feira, vários manifestantes bloquearam a sede da polícia de Hong Kong. As autoridades já anunciaram que vão abrir uma investigação aos responsáveis por este bloqueio. Junto à sede do Governo da cidade, permanecem ainda alguns elementos do movimento Frente Civil de Direitos Humanos.  

Espera-se, aliás, que os responsáveis pelos protestos levem a cabo uma nova manifestação na quarta-feira, com o objetivo de chamar a atenção dos líderes mundiais que vão estar na cimeira do G20.  

Na altura da suspensão da lei, há pouco mais de uma semana, a líder do Governo de Hong Kong admitiu que o projeto de lei “provocou uma grande divisão” na sociedade, o que ditou a suspensão do debate sobre a lei de extradição, um adiamento por tempo indeterminado e sem data limite para a aprovação.  

A lei de extradição tinha sido proposta em fevereiro e a votação final estava prevista para antes do final de junho, antes do qual decorreriam debates no Parlamento local. Esta lei permitiria o processo de pedidos de extradição de jurisdições sem acordos prévios, a englobar os sete milhões de habitantes de Hong Kong, não só cidadãos chineses mas também de outras nacionalidades.  

Em teoria, o projeto de lei prevê que os tribunais locais possam analisar os casos individualmente e usar o poder de veto para impedir certas extradições no território semiautónomo da China e antiga colónia britânica. No entanto, os opositores desta lei receiam que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês, como qualquer outro território da China continental.

Após a transferência de soberania de Londres para Pequim, em 1997, Hong Kong vive em regime semiautónomo, o que permite a proteção da liberdade de expressão e independência judicial em relação ao restante território chinês. 

Segundo o princípio “um país, dois sistemas” - sob o qual também decorreu a transferência de Macau, em 1999 – a República Popular da China comprometeu-se a conceder às duas regiões administrativas um elevado grau de autonomia a várias níveis (executivo, legislativo e judicial) durante um período de 50 anos. 

Os defensores da lei argumentam que esta vem preencher um vazio legal e que, perante a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para a China, Hong Kong será “um refúgio para criminosos internacionais”.  

Por outro lado, os manifestantes e a comunidade internacional, nomeadamente a União Europeia, alertou para as possíveis “consequências potenciais para Hong Kong e a sua população”, incluindo para cidadãos estrangeiros, assim como “para a confiança das empresas em Hong Kong”.  
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