Colapso de ponte. Posição do Governo italiano põe concessionária à defesa

Debaixo de pressão crescente por parte do poder executivo, a Autostrade per l’Italia, responsável pela manutenção da ponte que colapsou em Génova, defende-se com o argumento de que a infraestrutura era objeto de avaliações regulares e sofisticadas. O Governo exige demissões na cúpula da empresa.

Carlos Santos Neves - RTP /
A Autostrade per l’Italia, responsável pela manutenção da Ponte Morandi, afiança que a infraestrutura era objeto de avaliações regulares e sofisticadas Stefano Rellandini - Reuters

Trinta e nove mortos, entre os quais três menores de oito, 12 e 13 anos, e 16 feridos. Doze estão em estado grave. É este o mais recente balanço – provisório – do colapso de parte da cinquentenária Ponte Morandi, ocorrido na manhã de terça-feira em Génova, no norte de Itália.
“O Fundo de Emergência da Proteção Civil será usado para restaurar o sistema da área afetada”, adiantou o ministro italiano das Infraestruturas.

O trabalho dos socorristas prossegue de forma ininterrupta há mais de 24 horas.

A par da comoção que tomou conta do país transalpino, crescem as vozes que reclamam a identificação e a punição de eventuais responsáveis pelo desastre. Também debaixo de críticas, o poder executivo está apontar baterias à concessionária do viaduto da Autoestrada 10, a Autostrade per l’Italia, subsidiária do grupo Atlantia.

Danilo Toninelli, o titular da pasta das Infraestruturas no Governo de Giuseppe Conte, foi taxativo, ao escrever na rede social Facebook que “os diretores da Autostrade per l'Italia devem demitir-se antes de tudo”. O ministro italiano deu mesmo por ativados “todos os procedimentos para a possível revogação das concessões e a imposição de uma multa de até 150 milhões de euros”.

“Se não são capazes de administrar as nossas autoestradas, o Estado o fará”, vincou ainda Toninelli, que afirmou também que “num país civilizado não se pode morrer por uma ponte que desaba”.



“As empresas que administram as nossas estradas cobram as portagens mais caras da Europa, pagando concessões a preços vergonhosos. Recebem milhares de milhões, pagam uns poucos milhões de impostos e nem sequer realizam a manutenção necessária para as pontes e autoestradas de ponte e estradas”, acusou o mesmo governante.

Tendo em vista “a reconstrução da Ponte Morandi”, afiançou ainda Danilo Toninelli, “serão utilizados recursos do Plano Económico e Financeiro das Autoestradas, a debater em setembro, e outros recursos de dois fundos dedicados a intervenções de infraestrutura”.
“Um plano Marshall”
O ministro das Infraestruturas foi ao ponto de prometer a elaboração de “um verdadeiro plano Marshall” – evocando o mecanismo implementado pelos Estados Unidos para a reconstrução da Europa após a II Guerra Mundial – para responder a problemas infraestruturais em Itália.

É obrigação do Estado, nas palavras de Toninelli, “usar o dinheiro público para manter vias vitais do país, em vez de desperdiçá-lo em grandes obras inúteis”.
A Ponte Morandi, cuja construção foi completada em 1967, foi submetida há dois anos a trabalhos de remodelação.

O braço do grupo Atlantia, que na terça-feira viu as suas ações mergulharem mais de dez por cento na bolsa de Milão, já reagiu à barragem de críticas e acusações do Governo, alegando que tem levado a cabo avaliações estruturais periódicas e sofisticadas do viaduto.

“Além do mais, os técnicos da companhia têm confiado, de forma a avaliar o estado do viaduto e a eficácia dos sistemas de controlo que são adotados, em empresas e instituições que são líderes mundiais em testes e inspeções baseados nas melhores práticas internacionais”, sustentou a Autostrade per l’Italia, em comunicado citado pela Reuters.

Ao final da manhã desta quarta-feira, os trabalhos no local do colapso da ponte mobilizavam 400 bombeiros, apoiados por gruas na tentativa de remover toneladas de betão. E na esperança cada vez mais remota de ainda encontrar sobreviventes.

A Autoestrada 10, também conhecida como “autoestrada das flores”, liga Génova a Vintimille, na fronteira com a França. A via cruza um trajeto acidentado entre a costa e a montanha, pelo que inclui longos túneis e viadutos.

c/ agências

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