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Comissão da Igreja contra "instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos"

Comissão da Igreja contra "instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos"

A Comissão Nacional de Justiça e Paz (CNJP) alertou hoje para os "riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos", promovendo "discriminação e discursos de ódio".

Lusa /

"Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio", refere aquela estrutura que apoia a hierarquia na área da Doutrina Social da Igreja, em nota hoje divulgada, a quase duas semanas da segunda volta das eleições presidenciais em Portugal.

Essa "instrumentalização não é inédita" e corresponde a uma estratégia que "visa captar eleitores que priorizam esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar outras posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho", avisa a CNJP.

Para a organização católica, as "Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo".

No entender da CNJP, "a política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão" e nem mesmo a defesa de valores como a "luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota".

Apesar de a fé cristã estar baseada na "dignidade inviolável da pessoa e na fraternidade universal", a "defesa dessas causas não pode estar dissociada dos ideais de solidariedade, verdade, justiça e paz", acrescentam.

Por isso, os responsáveis da organização consideram que o "compromisso cristão na vida pública" exige "manter espírito crítico e rejeitar políticas que destruam os laços sociais e gerem injustiças".

"A Comissão exorta a um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a proteção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos", acrescenta a nota.

Numa entrevista recente à Lusa, o patriarca de Lisboa, Rui Valério, fez um alerta semelhante e salientou que o trabalho pastoral da Igreja mais essencial é com os excluídos, que são muitas vezes alvos dos discursos de ódio - minorias ou imigrantes. 

O patriarca considerou que o aumento dos estrangeiros em Portugal não coloca em causa a matriz cristã da sociedade portuguesa e criticou os católicos que são contra os imigrantes, por desrespeitarem os ensinamentos de Cristo.

Sobre o discurso contra os imigrantes, protagonizado por muitos que se dizem católicos e de movimentos conservadores, Rui Valério recordou que "o próprio Cristo se identificou como peregrino e como estrangeiro", citando o Evangelho.

"Eu era peregrino e estrangeiro e vós me recolhestes, eu tive fome e deste-me de comer, eu estava no hospital e fostes-me visitar, eu estava na prisão e vós viestes em meu auxílio", recordou o patriarca católico de Lisboa.

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